O dragão

Vejamos o que é que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no

theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a

gente lhe tem dado os mais fundos golpes que póde, elle esperneia,

expira e renasce. Assim se fez naquella noite. Não sei que theatro foi,

nem que peça, nem que genero; fosse o que fosse, a questão era matar o

tempo, e os trez o deixaram estirado no chão.

Fôram dallí a um _restaurant._ Ayres disse-lhes que, antigamente,

em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma edade. Era o tempo de

Offenbach e dá opereta. Contou anecdotas, disse as peças, descreveu

as damas e os partidos, quasi deu por si repetindo um trecho, musica

e palavras. Pedro e Paulo ouviam com attenção, mas não sentiam nada

do que espertava os écos da alma do diplomata. Ao contrario, tinham

vontade de rir. Que lhes importava a noticia da um velho café da rua

Uruguayana, trocado depois em theatro, agora em nada, uma gente que

viveu e brilhou, passou e acabou antes que elles viessem ao mundo? O

mundo começou vinte annos antes daquella noite, e não acabaria mais,

como um viveiro de moços eternos que era.

Ayres sorriu, porquanto elle tambem assim cuidou, aos vinte e dous

annos de edade, e ainda se lembrava do sorriso do pae, já velho, quando

lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo adquerido do tempo

a noção idealista que ora possuia, comprehendeu que tal dragão era

juntamente vivo e defunto, e tanto valia matal-o como nutril-o. Não

obstante, as recordações eram doces, e muitas dellas viviam ainda

frescas, como se viessem da vespera.

A differença da edade era grande, não podia entrar em pormenores com

elles. Ficou só em lembranças, e cuidou de outra cousa. Pedro e Paulo,

entretanto, receiosos de que elle os adivinhasse e comprehendesse o

desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e extranhos,

pediram-lhe informações, e elle deu as que podia, sem intimidade.

Ao cabo, a conversação valeu mais que este resumo, e a separação não

custou pouco. Paulo ainda lhe pediu Offenbach, Pedro uma descripção das

paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de

saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma bella

creatura. Os olhos de ambos concordaram que era bellissima. Tambem

louvou as qualidades moraes, a finura do espirito, taes dotes que Pedro

e Paulo reconheceram tambem, e dahi a conversação, e porfim o ajuste a

que me referi no começo deste capitulo e pede outro.

Esau e Jacob · 第 181 / 242 题