Aquella citação do velho Ayres faz-me lembrar um ponto em que elle e a
moça Flora divergiam ainda mais que na edade. Já contei que ella, antes
da commissão do pae, defendia Pedro e Paulo, conforme estes diziam mal
um do outro, Naturalmente fazia agora a mesma cousa, mas a mudança do
regimen trouxe occasião de defender tambem monarchistas e republicanos,
segundo ouvia as opiniões de Paulo ou de Pedro. Espirito de conciliação
ou de justiça, applacava a ira ou o desdem do interlocutor: «Não diga
isso... São patriotas tambem... Convem desculpar algum excesso...»
Eram só phrases, sem impeto de paixão nem estimulo de principios; e o
interlocutor concluia sempre:
--A senhora é boa.
Ora, o costume de Ayres era o opposto dessa contradicção benigna.
Has-de lembrar-te que elle usava sempre concordar com o interlocutor,
não por desdem da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha
observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto
á gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar á sua um
aspecto abominavel. Se lucrasse alguma cousa, vá; mas, não lucrando
nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens. Dahi a arranjo de
gestos e phrases affirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais
quieto a si mesmo.
Um dia, como ella estivesse com Flora, falou daquelle costume della,
dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era
inclinação natural defender os ausentes, que não podiam responder por
nada; demais, applacava assim um dos gemeos com quem falasse, e depois
o outro.
--Tambem concordo.
--E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo.
--Posso concordar com a senhora, porque é uma delicia ir com as suas
opiniões, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, não ha
calculo. Com os mais, se concordo, é porque elles só dizem o que eu
penso.
--Ja o tenho achado em contradicção.
--Póde ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá
isto bem, porque é moça e ingenua, mas creia que a vantagem é toda
sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá
desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessario.
--Não se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não creio nada
contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradicção
que lhe acho é agradavel.
--Tambem concordo.
--Concorda com tudo.
--Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro?
Esqueceu-me dizer que esta conversação era á porta de uma loja de
fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direcção do largo de S.
Francisco de Paula e viu a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher
um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu á porta com a filha. O
chamado de D. Claudia interrompeu a conversação por alguns instantes.
Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas
as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas
de ambos os lados e no centro. Não havia borborinho grande, nem socego
puro, um meio termo.
Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem;
mas este tinha a alma tão mettida em si mesma que, se falou a uma ou
duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça para dentro,
onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas
ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moça escolhia
a um dos gemeos, e qual destes. Vá tudo; tinha já pezar que não fosse
algum, posto não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a
feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo
da exclusão; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles,
se della, é o que propriamente se não póde dizer com verdade. Quando
muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma
delle, ainda mais fundo que elle mesmo. Lá se descobriria acaso, entre
as ruinas de meio celibato, uma flôr descorada e tardia de paternidade,
ou, mais propriamente, de saudade della...
Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não
falaram mais de contradicção, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma
palavra ácerca de Pedro ou Paulo.