--Você crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntára Pedro
a Paulo, antes da queda do imperio.
--Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro ministro.
Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu
como o irmão, emendando o resto:
--Não sei; você póde vir a ser presidente da republica.
Já lá iam dous annos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A
boa moral pede que ponhamos a cousa publica acima das pessoaes, mas os
moços nisto se parecem com velhos e varões de outra edade, que muita
vez pensam mais em si que em todos. Ha excepções, nobres algumas,
outras nobilissimas. A historia guarda muitas dellas, e os poetas,
epicos e tragicos, estão cheios de casos e modelos de abnegação.
Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais
da constituição de 24 de fevereiro que da moça Baptista. Pensavam em
ambas, é verdade, e a primeira já dera logar a alguma troca de palavras
acerbas. A constituição, se fosse gente viva, e estivesse ao pé delles,
ouviria os ditos mais contrarios deste mundo, porque Pedro ia ao ponto
de a achar um poço de iniquidades, e Paulo a propria Minerva nascida
da cabeça de Jove. Falo por metaphora para não descair do estylo. Em
verdade, elles empregavam palavras menos nobres e mais emphaticas, e
acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de
manifestações politicas era commum, e as noticias á porta dos jornaes
frequente, tudo era occasião de debate.
Quando, porém, a imagem de Flora apparecia entre elles por imaginação,
o debate esmorecia, mas as injurias continuavam e até cresciam,
sem confissão do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro.
Effectivamente, elles iam chegando ao ponto em que dariam as duas
constituições, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça,
se tanto fosse exigido. Cada um faria com ella a sua constituição,
melhor que outra qualquer deste mundo.