Ha muito remedio contra a insomnia. O mais vulgar é contar de um
até mil, dous mil, trez mil ou mais, se a insomnia não ceder logo.
É remedio que ainda não fez dormir ninguem, ao que parece, mas não
importa. Até agora, todas as applicações efficazes contra a tisica vão
de par com a noção de que a tisica é incuravel. Convem que os homens
affirmem o que não sabem, e, por officio, o contrario do que sabem;
assim se fórma esta outra incuravel, a Esperança.
Flora, incuravel tambem, se não preferes a definição de inexplicavel,
que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia.
Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com
os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte
da noite, á janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a
completar, mettida no roupão de linho, com os cabellos atados para
dormir.
A principio pensou no que lá estivera, e evocou todas as suas graças,
realçadas pela virtude particular de a ter ido ver á noite, sem embargo
de se terem visto de manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação foi
alli repetida na solidão da alcova, com as intonações diversas, o vario
assumpto, e as interrupções frequentes, ora dos outros, ora della
mesma. Ella, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente,--e
portanto não fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por
sua vez acabava em silencio e contemplação.
Agora, pensando em Paulo, queria saber porque é que o não escolhia para
noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e
esta feição não lhe desprazia. Inexplicavel ou não, deixava-se levar
pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros
mais puros e felizes. Aquella cabeça, apenas masculina, era destinada
a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia
um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, não descendo o
minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse
a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol,
e faria sonhar os olhos insomnes ou só cançados de dormir. Tudo isso
cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era um bom marido, em
summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus
pés, com as mãos della entre as suas, risonho e extatico.
--Paulo! meu querido Paulo!
Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e não perdeu o tempo nem a
intenção. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando
das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e
achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizel-o bem;
foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina de moça não podia
fitar nada com segurança nem continuidade. As ideias faiscavam como
saindo de um fogareiro á força de abano, as sensações batiam-se em
duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambições
principalmente, umas ambições de azas largas, que faziam vento só com
agital-as. Sobre toda essa mescla e confusão chovia ternura, muita
ternura...
Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado
da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, não menos
bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza.
Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia
chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o
amor, conforme as nymphas antigas e modernas, não tem piedade. Quando
ha piedade para outro, dizem ellas, é que o amor ainda não nasceu de
verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir
essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; não é nobre, nem
clara, mas a situação não me dá tempo de ir á cata de outra.
Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe
as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se
pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas.
Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella é que não ouviu nada, tão
docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os
olhos tão extaticos como os do irmão. Não eram taes que saissem, como
os deste, ás aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol
nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os
acha divinos, não cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres,
a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, não menos sympathicos
ao coração da moça, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por
darem a sensação de uma alma capaz de resistir.
Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até
chegar á alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia
ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se não era sómente
o desejo de não parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as
razões são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar
os olhos de Pedro era tão natural que não exigia intenção particular
nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma
namorada. Era gemea da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta.
Unicamente,--e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,--achou cá
alguma cousa indefinivel que não sentira lá; em compensação sentiu lá
outra que não se lhe deparou cá. Indefinivel, não esqueças. E escabroso
porque nada ha peor que falar de sensações sem nome. Crêde-me, amigo
meu, e tu, não menos amiga minha, crêde-me que eu preferia contar as
rendas do roupão da moça, os cabellos apanhados atraz, os fios do
tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae
morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.
Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de
Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao pé do
irmão, e ambos dividirem entre si as mãos della, mansos e cordatos,
ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos
antigos, quando havia mais religião que relogios. Voltando a si,
puxou as mãos, estendeu-as depois sobre a cabeça delles, como se lhes
apalpasse a differença, o _quid_, o algo, o indefinivel. A lamparina ia
morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exhortações,
por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, não que os não
entendesse, mas por não os aggravar, ou acaso por não saber a qual
delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel.
Em todo caso, é o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou
aos ultimos arrancos.
Tudo se mistura, á meia claridade; tal seria a causa da fusão dos
vultos, que de dous que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo
visto sair nenhum dos gemeos, mal podia crêr que formassem agora uma
só pessoa, mas acabou crêndo, mormente depois que esta unica pessoa
solitaria parecia completal-a interiormente, melhor que nenhuma das
outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar.
Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si
mesma, que sentia bater nella o coração. Estava tão cançada de emoções
que tentou erguer-se e ir fóra, mas não pôde; as pernas pareciam de
chumbo e colladas ao solo. Assim esteve, até que a lamparina, ao canto,
morreu de todo. Flora teve um sobresalto na poltrona, e ergueu-se:
--Que é isto?
A lamparina apagou-se. Foi accendel-a. Viu então que estava sem um nem
outro, sem dous nem um só fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se
desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o seu quarto de dormir,
e á imaginação creára tudo. Foi o que ella suppoz, e o leitor sabe.
Flora comprehendeu que era tarde, e um gallo confirmou essa opinião,
cantando; outros gallos fizeram a mesma cousa.
--Ora, meus Deus! exclamou a filha de Baptista.
Metteu-se na cama, e, se não dormiu logo, tambem não se demorou muito;
não tardou a estar com os anjos. Sonhou com o canto dos gallos, uma
carroça, um lago, uma scena de viagem do mar, um discurso e um artigo.
O artigo era de verdade. A mãe veiu acordal-a, ás dez horas da manhã,
chamando-lhe dorminhoca, e alli mesmo, na cama, lhe leu uma folha da
manhã que recommendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita;
acabara a grande noite.