Ao cabo de poucas semanas, a familia Baptista saiu da casa Santos,
e tornou á rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades
começaram antes da separação, mas a affeição, o costume, a estima,--a
necessidade, em summa, de se verem a miudo compensaram a melancolia, e
a gente Baptista levou promessa de que a gente Santos iria vel-a dahi a
poucos dias.
Os gemeos cumpriram cedo a promessa. Um delles, parece que Paulo, foi
lá nessa mesma noite com recado da mãe para saber se tinham chegado
bem. Disseram-lhe que sim, accrescentando Baptista, para abreviar a
visita, que estavam bastante cançados. Os olhos de Flora desmentiram
esta affirmação; mas dentro em pouco achavam-se não menos tristes que
alegres. A alegria vinha da promptidão de Paulo, a tristeza da ausencia
de Pedro. Quizera-os ambos naturalmente; mas, como é que as duas
sensações se mostravam a um tempo, eis o que não entenderás bem nem
mal. Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez
pareceu á moça ouvir rumor na escada; tudo illusão. Mas estes gestos,
que Paulo não viu, tão contente estava de se haver adiantado ao irmão,
não eram taes que a fizessem esquecer o irmão presente.
Paulo saiu tarde, não só para o fim de aproveitar a ausencia de Pedro,
mas ainda porque Flora o fazia demorar, com o intuito de ver se o outro
chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensação enchia os olhos da
moça, até á hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a
alegre, pois que eram duas ausencias, em vez de uma. Conclue o que
quizeres, minha dona; ella recolheu-se para dormir, e reconheceu que,
se se não dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.