Antes de continuar, é preciso dizer que o nosso Ayres não se referia
vagamente ou de modo generico a algumas pessoas, mas a uma só pessoa
particular. Chamava-se então Nobrega; outr'ora não se chamava nada, era
aquelle simples andador das almas que encontrou Natividade e Perpetua
na rua de S. José, esquina da da Misericordia. Não esqueceste que a
recente mãe deitou uma nota de dous mil reis á bacia do andador. A nota
era nova e bella; passou da bacia á algibeira, no fundo de um corredor,
não sem algum combate.
Poucos mezes depois, Nobrega abandonou as almas a si mesmas, e foi a
outros purgatorios, para os quaes achou outras opas, outras bacias e
finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz. Quero dizer que foi
a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e não se sabe se tambem
o paiz. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de reis, que a
fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Emfim, alvoreceu a famosa quadra
do «encilhamento». Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande
esmola, o grande purgatorio. Quem já sabia do andador das almas? A
antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Elle era outro; as
feições não eram as mesmas, senão as que o tempo lhe veiu compondo e
melhorando.
Se a grande bacia, ou qualqer das outras recebeu notas que tivessem o
destino da primeira, é o que se não sabe, mas é possivel. Foi por esse
tempo que Ayres o viu de carro, quasi a sair pela portinhola fóra,
comprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o lacaio (creio
que eram escossezes) salvassem a dignidade pessoal da casa, Ayres fez a
observação do fim do outro capitulo, sem nenhuma intenção geral.
Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nobrega tinha medo de
tornar ao bairro, onde andára a pedir para as primeiras almas. Um dia,
porém, taes fôram as saudades delle que pensou em affrontar o perigo e
lá foi. Tinha cocegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas
e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde appareciam
taes e taes moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou
por outra parte. Só passava de carro; depois quiz ver tudo a pé,
devagar, parando, se fosse possivel, e revivendo o extincto.
Lá se foi a pé; desceu pela rua de S. José, dobrou a da Misericordia,
foi parar á praia de Santa Luzia, tornou pela rua de D. Manuel, enfiou
de becco em becco. A principio olhava de esguelha, rapido, os olhos no
chão. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados
de grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas e nenhuma
era a mesma. Nobrega foi-se animando e. encarando. Talvez esta velha
fosse moça, ha vinte annos; a moça talvez mamasse, e dá agora de mamar
a outra creança. Nobrega acabou parando e andando de vagar.
Voltou mais vezes. Só as casas, que eram as mesmas, pareciam
reconhecel-o, e algumas quasi que lhe falavam. Não é poesia. O
ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se
admirar dellas, contar-lhes a vida, obrigal-as a comparar o modesto
de outr'ora com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras
mudas: «Vejam, manas, é elle mesmo.» Passava por,ellas, fitava-as,
interrogava-as, quasi ria, quasi as tocava para sacudil-as com força:
«Falem, diabos, falem!»
Não confiaria de homem aquelle passado, mas ás paredes mudas, ás
grades velhas, ás portas gretadas, aos lampiões antigos, se os havia
ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quizera dar olhos, ouvidos e
bôca, uma bôca que só elle escutasse, e que proclamasse a prosperidade
daquelle velho andador.
Uma vez, viu a matriz de S. José aberta e entrou. A egreja era a mesma;
aqui estão os altares, aqui está a solidão, aqui está o silencio.
Persignou-se, mas não orou; olhava só a um lado e outro, andando na
direcção do altar-mór. Tinha receio de ver apparecer o sacristão, podia
ser o mesmo, e conhecel-o. Ouviu passos, recuou depressa e saiu.
Ao subir pela rua de S. José, encostou-se á parede, para deixar passar
uma carroça. A carroça subiu a calçada, elle refugiou-se n'um corredor.
O corredor podia ser qualquer; aquelle era o proprio em que elle fez
a operação da nota de dous mil reis de Natividade. Olhou bem, era o
mesmo. Ao fundo estavam os trez ou quatro degráos da primeira escada
que dobrava á esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu
por um instante aquella manhã, viu no ar a nota de dous mil reis.
Outras lhe teriam vindo ás mãos por maneiras assim faceis, mas nunca
lhe esqueceu aquella graciosa folha gravada com tantos symbolos,
numeros, datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe
Deus se a propria Santa Rita de Cassia. Era a sua particular devoção.
Sem duvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes dispersas não fôram
senão levar a outras notas um convite para a algibeira do dono, e todas
acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que não as ouvissem
crescer.
Por mais que elle olhasse pela vida dentro, não achava egual obsequio
do céu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma joia lhe levou os
olhos, não lhe levou as mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou
ganhára com que o comprar. A nota de dous mil reis... Um dia, ousando
mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.
Não, leitor, não me apanhas em contradicção. Eu bem sei que a principio
o andador das almas attribuiu a nota ao prazer que a dama traria de
alguma aventura. Ainda me lembram as palavras delle: «Aquellas duas
viram passarinho verde!» Mas se agora attribuia a nota á protecção da
santa, não mentia então nem agora. Era difficil atinar com a verdade.
A unica verdade certa eram os dous mil reis. Nem se póde dizer que era
a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dous mil reis equivalia,
pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não
subia de uma gorgeta de cocheiro.
Tambem não ha contradicção em pôr a santa agora e a namorada outr'ora.
Era mais natural o contrario, quando era maior a intimidade delle com
egreja. Mas, leitor dos meus peccados, amava-se muito em 1871, como
já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891 e 1901.
O seculo dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a opinião
do andador das almas ácerca de Natividade foi anterior ao gesto do
corredor, quando elle agazalhou a nota na algibeira. É duvidoso que,
depois do gesto, a opinião fosse a mesma.