No caes Pharoux esperavam por elles trez carruagens,--dous _coupés_ e
um _landau_, com trez bellas parelhas de cavallos. A gente Baptista
ficou lisonjeada com a fineza da gente Santos, e entrou no _landau._ Os
gemeos foram cada um no seu _coupé._ A primeira carruagem tinha o seu
cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho, botões de metal branco,
em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das outras tinha
apenas o cocheiro, com egual libré. E todas trez se puzeram a andar,
estas atraz daquella, os animaes batendo rijo e compassado, a golpes
certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquella recepção.
De quando em quando, encontravam outros trens, outras librés, outras
parelhas, a mesma belleza e o mesmo luxo.
A capital offerecia ainda aos recem-chegados um espectaculo magnifico.
Vivia-se dos restos daquelle deslumbramento e agitação, epopeia de ouro
da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro
era assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a
grande quadra das emprezas e companhias de toda especie. Quem não viu
aquillo não viu nada. Cascatas de ideias, de invenções, de concessões
rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de
reis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares
de milhares de milhares de contos de reis. Todos os papeis, aliás
acções, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro,
bancos, fabricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação,
importação, ensaques, emprestimos, todas as uniões, todas as regiões,
tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava
nas ruas e praças, com estatutos, organisadores e listas. Letras
grandes enchiam as folhas publicas, os titulos succediam-se, sem que se
repetissem, raro morria, e só morria o que era frouxo, mas a principio
nada era frouxo. Cada acção trazia a vida intensa e liberal, alguma vez
immortal, que se multiplicava daquella outra vida com que a alma acolhe
as religiões novas. Nasciam as acções a preço alto, mais numerosas que
as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.
Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro
brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caia do céu. Candido
e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes que é o nome daquelle
indio que Basilio da Gama cantou no _Uruguay._ Voltaire pegou delle
para o metter no seu livro, e a ironia do philosopho venceu a doçura
do poeta. Pobre José Basilio! tinhas contra ti o assumpto estreito e a
lingua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindoya, felizmente, mas
Cacambo é delle, mais delle que teu, patricio da minha alma.
Candido e Cacambo, ia eu dizendo, ao entrarem no El-Dorado, conta
Voltaire que viram creanças brincando na rua com rodelas de ouro,
esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria em que
comeram quizeram pagar o jantar com duas dellas. Sabes que o dono da
casa riu ás bandeiras despregadas, já por quererem pagar-lhe com pedras
do calçamento, já porque alli ninguem pagava o que comia; era o governo
que pagava tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade
attribuida ao Estado, que fez crêr eguaes phenomenos entre nós, mas é
tudo mentira.
O que parece ser verdade é que as nossas carruagens brotavam do chão.
Ás tardes, quando uma centena dellas se ia enfileirar no largo de S.
Francisco de Paula, á espera das pessoas, era um gosto subir a rua
do Ouvidor, parar e contemplal-as. As parelhas arrancavam os olhos á
gente; todas pareciam descer das rhapsodias de Homero, posto fossem
corceis de paz. As carruagens tambem. Juno certamente as apparelhára
com suas correias de ouro, freios de ouro, redeas de ouro, tudo de
ouro incorruptivel. Mas nem ella nem Minerva entravam nos vehiculos de
ouro para os fins da guerra contra Illion. Tudo alli respirava a paz.
Cocheiros e lacaios, barbeados e graves, esperando tezos e compostos,
davam uma bella ideia do officio. Nenhum aguardava o patrão, deitado
no interior dos carros, com as pernas de fóra. A impressão que davam
era de uma disciplina rigida e elegante, aprendida em alta escola e
conservada pela dignidade do individuo.
«Casos ha,--escrevia o nosso Ayres--em que a impassibilidade do
cocheiro na boléa contrasta com a agitação do dono no interior da
carruagem, fazendo crêr que é o patrão que, por desfastio, trepou á
boléa e leva o cocheiro a passear.»