Os successos vieram vindo, á medida que as flores iam nascendo. Destas
houve que serviram ao ultimo baile do anno. Outras morreram na vespera.
Poetas de um e outro regimen tiraram imagem do facto para cantarem a
alegria e a melancolia do mundo. A differença é que a segunda abafava
os seus suspiros, em quanto a primeira levava longe os seus tripudios.
O metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores é que
continuavam a nascer e morrer, egual e regularmente.
D. Claudia colheu as rosas do ultimo baile do anno, primeiro da
Republica, e adornou a filha com ellas. Flora obedeceu e acceitou-as.
Pae de familia antes de tudo, Baptista acompanhou a esposa e a
filha ao baile. Tambem lá foi Paulo, pela moça e pelo regimen. Se,
em conversa com o ex-presidente de provincia, disse todo o bem que
pensava do Governo Provisorio, não lhe ouviu palavras de accordo nem de
contestação. Não entrou mais fundo na confissão do homem, porque a moça
o attraia, e elle gostava mais della que do pae.
Flora viu uma semelhança entre o baile da ilha Fiscal e este, apesar de
particular e modesto. Este era dado por pessoa que vinha dos tempos da
propaganda e um dos ministros lá esteve, ainda que só meia hora. Dahi a
ausencia de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a falta de Pedro,
como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhança das duas festas.
Ambas traziam a ausencia de um gemeo.
--Porque é que seu irmão não veiu? perguntou ella.
Paulo enfiou; depois de alguns instantes:
--Pedro é teimoso, disse. Teimou em recusar o convite. Crê naturalmente
que a monarchia levou a arte de dançar. Não faça caso; é um lunatico.
--Não diga isso.
--Acha tambem que a dança se foi com o imperio?
--Não, a prova é que estamos dançando. Não; digo que lhe não chame
nomes feios.
--Parece-lhe então que Pedro é um rapaz de juizo?
--Certamente, como o senhor.
--Mas...
Paulo ia a perguntar-lhe qual d'elles, tendo ella de jurar por um ou
por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Então ella
falou do calor, e elle achou que sim, que estava quente. Acharia que
estava frio, se ella se queixasse de frio. Flora, se só cedesse á
vista, era tambem capaz de acceitar todas as opiniões de Paulo, para ir
com elle. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante,
olhava por cima, firme em que os seus escriptos de um anno é que haviam
feito a Republica, posto que incompleta, sem certas ideias que expozera
e defendera, e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo á moça, e
ella escutava com prazer, sem opinião; era só o gosto de o escutar.
Quando a lembrança de Pedro surgia na cabeça da moça, a tristeza
empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra, e assim
acabou o baile. Então as duas, tristeza e alegria, agazalharam-se no
coração de Flora, como as suas gemeas que eram.
O baile acabou. O capitulo é que não acaba sem que deixe um pouco de
espaço a quem quizer pensar naquella creatura. Pae nem mãe podiam
entendel-a, os rapazes tambem não, e provavelmente Santos e Natividade
menos que ninguem. Tu, mestra de amores ou alumna delles, tu que
escutas a diversos, conclues que ella era... Custa pôr o nome do
officio. Se não fosse a obrigação de contar a historia com as proprias
palavras, preferia calal-o, mas tu sabes qual é elle, e aqui fica.
Conclues que Flora era namoradeira, e conclues mal.
Leitora, é melhor negar já isto que esperar pelo tempo. Flora não
conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda se podia dizer namoradeira
de officio. A namoradeira de officio é a planta das esperanças,
e alguma vez das realidades, se a vocação o impõe e a occasião o
permitte. Tambem é preciso ter em lembrança aquillo de um publicista,
filho de Minas e do outro seculo, que acabou senador, e escrevia contra
os ministros adversarios: «Pitangueira não dá manga.» Não, Flora não
dava para namorados.
A prova disto é que no Estado em que viveu alguns mezes de 1801, com o
pae e a mãe, para o fim que direi adiante, ninguem alcançou o menor dos
seus olhares amigos ou sequer complacentes. Mais de um rapaz consumiu
o tempo em se fazer visto e attrahido della. Mais de uma gravata, mais
de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe as côres, os gestos e os
vidros, sem obter outra cousa que a attenção cortez e acaso uma palavra
sem valor.
Flora só se lembrava dos gemeos. Se nenhum delles a esqueceu, ella não
os perdeu de memoria, Ao contrario, escrevia por todos os correios a
Natividade para se fazer lembrada de ambos. As cartas falavam pouco da
terra ou da gente, e não diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra
saudades, que cada um dos dous gemeos lia para si. Tambem elles a
escreviam nas cartas que mandavam a D. Claudia e a Baptista, com a
mesma intenção duplicada e e mysteriosa, que ella entendia muito bem.
Taes eram de longe, ella e elles. A rixa velha, que os desunia na vida,
continuava a desunil-os no amor. Podiam amar cada um a sua moça, casar
com ella e ter os seus filhos, mas preferiam amar a mesma, e não ver
o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem diversa musica,
antes, durante e depois da commissão do Baptista.