Ao piano

Emquanto elles sonhavam com Flora, esta não sonhou com a republica.

Teve uma daquellas noites em que a imaginação dorme tambem, sem olhos

nem ouvjdos, ou, quando muito, a retina não deixa ver claro, e as

orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão remoto. Não

posso dar melhor definição, nem ella é precisa; cada um de nós terá

tido dessas noites mudas e apagadas.

Não sonhou sequer com musica; e, aliás tocára antes algumas das suas

paginas queridas. Não as tocou somente por gostar dellas, senão

por fugir á consternação dos paes, que era grande. Nenhum d'estes

podia crêr que as instituições tivessem caido, outras nascido, tudo

mudado. D. Claudia ainda appellava para o dia seguinte e perguntava

ao marido se vira bem, e o que é que vira; elle mordia os beições,

batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os

acontecimentos, as noticias colladas ás portas dos jornaes, a prisão

dos ministros, a situação, tudo extincto, extincto, extincto...

Flora não era avessa á piedade, nem á esperança, como sabeis; mas

não ia com a agitação dos paes, e metteu-se com o seu piano e as

suas musicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou para lhe

tirar o presente. A musica tinha para ella a vantagem de não ser

presente, passado ou futuro; era uma cousa fóra do tempo e do espaço,

uma idealidade pura. Quando parava, succedia-lhe ouvir alguma

phrase solta do pae ou da mãe: «...Mas como foi que...?»--«Tudo ás

escondidas...»--«Ha sangue?» Às vezes um delles fazia algum gesto,

e ella não via o gesto. O pae, com a alma tropega, falava muito e

incoherente. A mãe trazia outro vigor. Já lhe succedia calar por

instantes, como se pensasse, ao contrario do marido que, em se calando,

coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava, quando não ameaçava o

tecto com o punho.

--_Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré, lá_, ia dizendo o piano da filha, por

essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos

homens e suas dissensões.

Tambem se póde achar na sonata de Flora uma especie de accordo com

a hora presente. Não havia governo definitivo. A alma da moça ia

com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepusculo

da tarde,--como queiras,--em que nada é tão claro ou tão escuro que

convide a deixar a cama ou accender velas. Quando muito, ia haver

um governo provisorio. Flora não entendia de fórmas nem de nomes. A

sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarchia da

innocencia primitiva naquelle recanto do Paraiso que o homem perdeu

por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a

ordem eterna e unica. Não haverá então progresso nem regresso, mas

estabilidade. O seio de Abrahão agazalhará todas as cousas e pessoas, e

a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras,

_ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó..._

Esau e Jacob · 第 143 / 242 题