«Pare no D.»
--Mas, S. Ex. está almoçando, dizia o criado no patamar da escada a
alguem que pedia para falar ao conselheiro.
Era falso, Ayres acabava justamente de almoçar; mas o criado sabia que
o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço, sem interrupção.
Agora estava no canapé e ouviu o dialogo do patamar. A pessoa insistia
em dizer uma palavrinha.
--Não póde ser.
--Bem, eu espero; logo que S. Ex. acabe...
--O melhor é voltar depois; não mora alli defronte? Pois volte daqui a
uma hora ou duas...
A pessoa era o Custodio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo
quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que
viesse. Custodio saiu, correu, subiu e entrou assombrado.
--Que é isso, Sr. Custodio? disse-lhe Ayres. O senhor anda a fazer
revoluções?
--Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Ex. soubesse...
--Se soubesse o quê?
Custodio explicou-se. Vá, resumamos a explicação.
Na vespera, tendo de ir abaixo, Custodio foi á rua da Assembléa, onde
se pintava a taboleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só
algumas das letras ficaram pintadas,--a palavra _Confeitaria_ e a letra
_d._ A letra _o_ e a palavra _imperio_ estavam só debuxadas a giz.
Gostou da tinta e da côr, reconciliou-se com a fórma, e apenas perdoou
a despeza. Recommendou pressa. Queria inaugurar a taboleta no domingo.
Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco
a pouco vieram vindo as noticias, viu passar um batalhão, e creu que
lhe diziam a verdade os que affirmavam a revolução e vagamente a
republica. A principio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a taboleta.
Quando se lembrou della, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu
ás pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia
só isto: «Pare no _D._» Com effeito, não era preciso pintar o resto,
que seria perdido, nem perder o principio, que podia valer. Sempre
haveria palavra que occupasse o logar das letras restantes. «Pare no D.»
Quando o portador voltou trouxe a noticia de que a taboleta estava
prompta.
--Você viu-a prompta?
--Vi, patrão.
--Tinha escripto o nome antigo?
--Tinha, sim, senhor: «Confeitaria do imperio.»
Custodio enfiou um casaco de alpaca e voou á rua da Assembléa. Lá
estava a taboleta, por signal que coberta com um pedaço de chita;
alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quizeram
rasgal-a; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais
efficaz cobril-a. Levantada a cortina, Custodio leu: «_Confeitaria
do imperio._» Era o nome antigo, o proprio, o celebre, mas era a
destruição agora; não podia conservar um dia a taboleta, ainda que
fosse em becco escuro, quanto mais na rua do Cattete...
--O senhor vae despintar tudo isto, disse elle.
--Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despeza. Depois,
pinto outra cousa.
--Mas que perde o senhor em substituir a ultima palavra por outra? A
primeira póde ficar, e mesmo o _d..._ Não leu o meu bilhete?
--Chegou tarde.
--E porque pintou, depois de tão graves acontecimentos?
--O senhor tinha pressa, e eu accordei ás cinco e meia para servil-o.
Quando me deram as noticias, a taboleta estava prompta. Não me disse
que queria pendural-a domingo? Tive de pôr muito seccante na tinta, e,
além da tinta, gastei tempo e trabalho.
Custodio quiz repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o numero da
confeitaria e o nome do dono na taboleta, e expol-a assim, para que os
revolucionarios lhe fossem quebrar as vidraças do Cattete. Não teve
remedio se não capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em
todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e
voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de titulo,--uma
casa tão conhecida, desde annos e annos! Diabos levassem a revolução!
Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o visinho Ayres e correu a
ouvil-o.