Das encommendas

Não escreveria este capitulo, se elle fosse propriamente das

encommendas, mas não é. Tudo são instrumentos nas mãos da Vida. As duas

sairam de casa, urna lepida, a outra melancolica, e lá fôram a escolher

uma quantidade de objectos de viagem e de uso pessoal. D. Claudia

pensava nos vestidos da primeira recepção e de visitas; tambem ideou o

do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os

chapeos, entretanto, fôram o principal artigo da lista. Ao parecer de

D. Claudia, o chapeo da mulher é que dava a nota verdadeira do gosto,

das maneiras e da cultura de uma sociedade. Não valia a pena acceitar

uma presidencia para levar chapeos sem graça, dizia ella sem convicção,

porque intimamente pensava que a presidencia dá graça a tudo.

Estavam justamente na loja de chapeos, rua do Ouvidor, sentadas,

os olhos fóra e longe, quando a verdadeira materia deste capitulo

appareceu. Era o gemeo Paulo, que chegara pelo trem nocturno, e sabendo

que ellas andavam a compras, viera procural-as.

--O senhor! exclamaram.

--Cheguei esta manhã.

Flora tinha-se levantado, com o alvoroço que lhe deu a vista inesperada

de Paulo. Elle correu a ellas, apertou-lhes as mãos, indagou da

saúde, e reconheceu que pareciam vender saúde e alegria. A impressão

era exacta; Flora tinha agora uma agitação, que contrastava cora o

abatimento daquella triste manhã, e um riso que a fazia alegre.

--Tive sempre noticias das senhoras, que mamãe me dava, e Pedro tambem,

ás vezes. Da senhora, continuou elle falando a D. Claudia, recebi duas

cartas. Como vae o doutor?

--Bem.

--Ora, em fim, cá estou!

E Paulo dividia os olhos com as duas, mas a melhor parte ia natural

mente para a filha. Pouco depois era todo e pouco para esta. D.

Claudia voltára á escolha dos chapeos, e Flora, que até então opinava

de cabeça, perdeu este ultimo gesto. Paulo sentou-se na cadeira que

um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moça; falavam de

cousas minimas, alheias ou proprias, tudo o que bastasse para os reter

disfarçadamente na contemplação um do outro. Paulo viera o mesmo que

fôra, o mesmo que Pedro, sempre com alguma nota particular, que ella

não podia achar claramente, menos ainda definir. Era um mysterio; Pedro

teria o seu.

D. Claudia interrompia-os, de vez em quando, a proposito da escolha;

mas, tudo acaba, até a escolha de chapeos. Foram d'alli aos vestidos.

Paulo, não sabendo da presidencia, estimou esta casualidade para as

acompanhar de loja em loja. Contava anecdotas de S. Paulo, sem grande

interesse para Flora; as noticias que ella lhe dava acerca das amigas,

eram mais ou menos dispensaveis. Tudo valia pelos dous interlocutores.

A rua ajudava aquella absorpção reciproca; as pessoas que iam ou

vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou não, serviam de ponto de

partida a alguma digressão. As digressões entraram a dar as mãos ao

silencio, e os dous seguiam com os olhos espraiados e a cabeça alta,

elle mais que ella, porque uma pontinha de melancolia começava a

espancar do rosto da moça a alegria da hora recente.

Na rua Gonçalves Dias, indo para o largo da Carioca, Paulo viu dous

ou trez politicos de S. Paulo, republicanos, parece que fazendeiros.

Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a

ultima vez que os vira ia já a alguma distancia.

--Conhecem? perguntou ás duas.

Não, não os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes. A mãe talvez fizesse

alguma pergunta politica, mas deu por falta de um objecto, advertiu que

o não comprára, e propoz voltarem atraz. Tudo era acceito por ambos,

com docilidade, apesar do veu de tristeza, que se ia cerrando mais no

rosto da moça. Aquellas encommendas tinham já um ar de bilhetes de

passagem, não tardava o paquete, iam correr ás malas, aos arranjos, ás

despedidas, ao camarote de bordo, ao enjôo de mar, e áquelle outro de

mar e terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Dahi o silencio

crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e comtudo

ella estava bem com elle, gostava de lhe ouvir dizer cousas soltas,

algumas novas, outras velhas, recordações anteriores á partida daqui

para S. Paulo.

Assim se deixaram ir, guiados por D. Claudia, quasi esquecida delles.

No meio daquella conversação truncada, mais entretida por elle que por

ella, Paulo sentia impetos de lhe perguntar, ao ouvido, na rua, se

pensára nelle, ou, ao menos, sonhára com elle algumas noites. Ouvindo

que não, daria espansão á colera, dizendo-lhe os ultimos improperios;

se ella corresse, correria tambem, até pegal-a pelas fitas do chapeo ou

pela manga do vestido, e, em vez de a esganar, dançaria com ella uma

valsa de Strauss ou uma polka de ***. Logo depois, ria destes delirios,

porque, a despeito da melancolia da moça, os olhos que ella erguia

para elle eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida

de descobrir se é a mesma do sonho e do pensamento. Assim lhe parecia

ao estudante de direito; pelo que, quando elle desviava o rosto, era

para repetir a experiencia e tornar a ver-lhe os olhos aguçados do

mesmo espirito critico e de livre exame. Quanto ao tempo que os trez

gastaram nessa agitação de compras e escolhas, visões e comparações,

não ha memoria delle, nem necessidade. Tempo é propriamente officio de

relogio, e nenhum delles consultou o relogio que trazia.

Esau e Jacob · 第 121 / 242 题