O golpe

O dia seguinte trouxe á menina Flora a grande novidade. Sabbado seria

assignado o decreto; a presidencia era no norte. D. Claudia não lhe viu

a pallidez, nem sentiu as mãos frias, continuou a falar do caso e do

futuro, até que Flora, querendo sentar-se, quasi caiu. A mãe acudiu-lhe:

--Que é? Que tens?

--Nada, mamãe não é nada.

A mãe fel-a sentar-se.

--Foi uma tonteira, passou.

D. Claudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe os

pulsos; Flora sorriu.

--Este sabbado? perguntou.

--O decreto? Sim, este sabbado. Mas não digas por ora a ninguem; são

segredos de gabinete. É cousa certa; emfim, alguem nos fez justiça;

provavelmente o imperador. Amanhã irás commigo a algumas encommendas.

Faze uma lista do que precisas.

Flora precisava não ir e só pensava nisso. Uma vez que o decreto

estava prestes a ser assignado, não havia já desaconselhar a nomeação;

restava-lhe a ella ficar. Mas como? Todos os sonhos são proprios ao

somno de uma creança. Não era facil, mas não seria impossivel. Flora

cria tudo; não tirava o pensamento de Ayres, e já agora de Natividade

tambem. Os dous podiam fazel-o, ou antes os trez, se contardes tambem

o barão, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco

estrellas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e archanjos, virgens e

martyres... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer esta simples acção

de impedir que Flora fosse para a provincia. Taes eram as esperanças

vagas, rapidas, que corriam a substituir as tristezas do rosto da moça,

emquanto a mãe, attribuindo o effeito ao vinagre, ajustava a rolha de

vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador.

--Faze uma lista do que precisas, repetiu á filha.

--Não, mamãe, eu não preciso nada.

--Precisas, sim, eu sei o que precisas.

Esau e Jacob · 第 119 / 242 题