«A mulher é a desolação do homem»
Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexão, que ponho aqui, para o caso
de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexão foi obra de
espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão difficil em ceder
ás instigações da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII)
deitou tão facilmente o habito ás ortigas. Não achou explicação,
nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que
os primeiros passos da conversão do homem fôram dados pela mulher.
«A mulher é a desolação do homem», dizia não sei que philosopho
socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que
por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando
elle soube do namoro, já os banhos estavam corridos; não havia mais que
consentir e casar tambem.
Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemão
os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e
amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme.
--Estamos á porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e
certamente o partido liberal não deixa tão cedo o poder. Os seus homens
são válidos, a inclinação dos tempos é para o liberalismo, e você
mesmo...
--Sim, eu... suspirou Baptista.
D. Claudia não suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era
a primeira figura de acquiescencia. Não lhe disse isto assim, nu e
cru; tambem não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem
da razão fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado,
caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça,
nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, não
lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a
autoria de que se investiu e acabou confessando.
Tal foi a conclusão de Ayres, segundo se lê no _Memorial._ Tal será a
do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de
Ayres; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado
a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro
estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os
factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.