CAPITULO LV

«A mulher é a desolação do homem»

Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexão, que ponho aqui, para o caso

de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexão foi obra de

espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão difficil em ceder

ás instigações da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII)

deitou tão facilmente o habito ás ortigas. Não achou explicação,

nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que

os primeiros passos da conversão do homem fôram dados pela mulher.

«A mulher é a desolação do homem», dizia não sei que philosopho

socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que

por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando

elle soube do namoro, já os banhos estavam corridos; não havia mais que

consentir e casar tambem.

Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemão

os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e

amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme.

--Estamos á porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e

certamente o partido liberal não deixa tão cedo o poder. Os seus homens

são válidos, a inclinação dos tempos é para o liberalismo, e você

mesmo...

--Sim, eu... suspirou Baptista.

D. Claudia não suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era

a primeira figura de acquiescencia. Não lhe disse isto assim, nu e

cru; tambem não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem

da razão fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado,

caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça,

nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, não

lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a

autoria de que se investiu e acabou confessando.

Tal foi a conclusão de Ayres, segundo se lê no _Memorial._ Tal será a

do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de

Ayres; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado

a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro

estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os

factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.

Esau e Jacob · 第 117 / 242 题