Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do
outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da
situação, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo
ao capitulo. Os liberaes fôram chamados ao poder, que os conservadores
tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Baptista foi
enorme.
--Justamente agora que eu tinha esperanças, disse elle á mulher.
--De quê?
--Ora de quê! de uma presidencia. Não disse nada, porque podiam falhar,
mas é quasi certo que não. Tive duas conferencias, não com ministros,
mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou
dous...
--Presidencia boa?
--Boa.
--Se você tivesse trabalhado bem...
--Se tivesse trabalhado bem, podia estar já de posse, mas vinhamos
agora a toque de caixa.
--Isso é verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro.
Baptista passeava, as mãos nas costas, os olhos no chão, suspirando,
sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os
liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na
cabeça de D. Claudia. Este casal só não era egual na vontade; as ideias
eram muitas vezes taes que, se apparecessem cá fóra, ninguem diria
quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro
unico. Naquelle momento nenhum achava esperança immediata ou remota.
Uma só ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os
pés no chão e cresceu. Não falo só por imagem; D. Claudia levantou-se
da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido:
--Mas, Baptista, você o que é que espera mais dos conservadores?
Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade:
--Espero que subam.
--Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, não é? E nessa
occasião você sabe se será aproveitado? Quem se lembrará de você?
--Posso fundar um jornal.
--Deixe-se de jornaes. E se morrer?
--Morro no meu posto de honra.
D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se
pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as
mãos abertas:
--Baptista, você nunca foi conservador!
O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratidão de
um partido. Nunca fôra conservador? Mas que era elle então, que podia
ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe
faltava mais nada... D. Claudia não attendeu a explicações; repetiu-lhe
as palavras, e accrescentou.
--Você estava com elles, Como a gente está n'um baile, onde não é
preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.
Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella
pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella
inspirou-lhe uma refutação prompta.
--Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas.
--Dance com que fôr, a verdade é que todas as suas ideias iam para os
liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a você de
apoiar os liberaes...
--Era falso; o governo é que me recommendava moderação. Posso mostrar
cartas.
--Qual moderação! Você é liberal.
--Eu liberal?
--Um liberalão, nunca foi outra cousa.
--Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir é capaz de crêr, e dahi
a espalhar...
--Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justiça, porque os
seus verdadeiros amigos não o hão de deixar na rua, agora que tudo se
organisa. Você tem amigos pessoaes no ministerio; porque é que os não
procura?
Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e
dizer-lhe que estava ás ordens não era concebivel sequer. D. Claudia
admittiu que não, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo
que dissesse ao Ouro-Preto: «Visconde, você porque é que não convida
o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. Dê-lhe uma presidencia,
pequena que seja, e...»
Baptista fez um gesto de hombros, outro de mão que se calasse. A
mulher não se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves
pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era já
tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava
a força necessaria. Quizera querer. Quizera não ver nada, nem passado,
nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer
aos dados da sorte, mas não podia.
E façamos justiça ao homem. Quando elle pensava só na fidelidade aos
amigos sentia-se melhor; a mesma fé existia, o mesmo costume, a mesma
esperança. O mal vinha de olhar para o lado de lá; e era D. Claudia que
lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e
longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava.
A sós comsigo, Baptista pensou muita vez na situação pessoal e
politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razão. Que é que
havia nelle propriamente conservador, a não ser esse instincto de
toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em
politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da
parochia, e elle começou na escola a execrar os liberaes. E depois não
era propriamente conservador, mas _saquarema_, como os liberaes eram
_luzias._ Baptista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e
deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje
não havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se
do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso
não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e
vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco,
Zacharias, que fôram elles senão conservadores que comprehenderam
os tempos novos e tiraram ás ideias liberaes aquelle sangue das
revoluções, para lhes pôr uma côr viva, sim, mas serena. Nem o mundo
era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha.
Justamente nessa occasião appareceu Flora. O pae abraçou-a com amor, e
perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente.
--Mas os conservadores não cairam?
--Cairam, sim, mas suppõe que...
--Ah! não, papae!
--Não, porquê?
--Não desejo sair do Rio de Janeiro.
Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a
casa de Natividade. O pae não apurou as causas da recusa; suppol-as
politicas, e achou novas forças para resistir ás tentações de D.
Claudia: «Vae-te, Satanaz; porque escripto está: Ao Senhor teu Deus
adorarás, e a elle servirás.» E seguiu-se como na Escriptura: «Então
o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.» Os anjos
fôram só um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a
carinhosamente:
--Muito bem, muito bem, minha filha.
--Não é, papae?
Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario.
Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos
neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de
trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado.
Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos
lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres.
Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem
delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia;
chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação
dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era
animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o
contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito,
admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da
ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara,
uma commissão, a vice-presidencia do Rio...