Caso do burro

Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a

andar, nem eu começaria este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca

mais acabal-o. Mas não ha na memoria que dure, se outro negocio mais

forte puxa pela attenção, e um simples burro fez desapparecer Carmen e

a sua trova.

Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da travessa de S.

Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita

pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espectaculo fez

parar o nosso Ayres, não menos condoido do asno que do homem. A força

despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não

sair do logar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o

diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos

durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha á pancada,

tirou a carroça do logar e foi andando.

Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expressão profunda de

ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel.

Depois leu nelles este monologo: «Anda, patrão, atalha a carroça de

carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para

comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um

nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido

patrão. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o

teu dominio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de

teimar...

--Vê-se, quasi que se lhe ouve a reflexão, notou Ayres comsigo.

Depois ria de si para si, e foi andando. Inventára tanta cousa no

serviço diplomatico, que talvez inventasse o monologo do burro. Assim

foi; não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciencia, mas

não se pôde ter que lhes não désse uma forma de palavra, com as suas

regras de syntaxe. A propria ironia estaria acaso na retina delle. O

olho do homem serve de photographia ao invisivel, como o ouvido serve

de eco ao silencio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação

para ajudar a memoria a esquecer Caracas e Carmen, os seus beijos e

experiencia politica.

Esau e Jacob · 第 92 / 242 题