Chegada a proposito

Quando, ás duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se metteu no

bonde, para ir a não sei que compras na rua do Ouvidor, levava a phrase

comsigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente que passava,

nem os incidentes da rua, nada; a phrase ia diante e dentro della, com

o seu aspecto e tom de ameaça. No Cattete, alguem entrou de salto,

sem fazer parar o vehiculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha

tambem que, posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga,

caminhou para lá rapido e acceitou a ponta do banco que ella lhe

offereceu. Depois dos primeiros comprimentos:

--Pareceu-me vel-a olhar assustada, disse Ayres.

--Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica.

--Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me

cair, as rodam passam por cima...

--Fosse como fosse, chegou a proposito.

--Chego sempre a proposito. Já lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos

annos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo;

creio que falavam da cabocla do Castello. Não se lembra de uma tal ou

qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente?

Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como

sempre tive fé em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella?

Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado então

a consulta que ella fez á cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e

chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario,

sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo.

E concluiu:

--Mas, emfim, porque é que chego a proposito?

Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito

repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta

senhora, uma confiança que ella não achava agora em ninguem, ou acharia

em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que não mostraria ao

marido.

--Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu

marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor

não dizer nada a Agostinho.

Ayres concordou que não valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e

esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade

dos filhos, já manifesta em politica, e tratando especialmente de

Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer

mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que não

teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas não de sentimentos.

--Então crê que Paulo será sempre isto?

--Sempre, não digo; tambem não digo o contrario. Baroneza, a senhora

exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que ha definitivo

neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha.

Ha quantos dias não sei o que é uma licença? É verdade que não tenho

apparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas.

Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer?

--Talvez.

--Só os solteirões podem avaliar as ideias das mulheres. Um viuvo sem

filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta annos, como

eu, vale por dous ou trez. Quanto ao joven Paulo, não pense mais no

discurso. tambem eu discursei em rapaz.

--Já cuidei em casal-os.

--Casar é bom, assentiu Ayres.

--Não digo casar já, mas daqui a dous ou trez annos. Talvez faça

antes uma viagem com elles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda

repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que

uma viagem?...

--Acho que uma viagem...

--Acabe.

--As viagens fazem bem, mormente na edade delles. Formam-se para o

anno, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira, casados ou

não, é util ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de

ir com elles?

--As mães...

--Mas eu tambem (desculpe interrompel-a) mas eu tambem sou seu filho.

Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a affeição e todas as

prendas grisalhas que a adornam compõem uma especie maternidade? Eu

confesso-lhe que ficaria orphão.

--Pois venha comnosco.

--Ah! baroneza, para mim ja não ha mundo que valha um bilhete de

passagem. Vi tudo por varias linguas. Agora o mundo começa aqui no

caes da Gloria ou na rua do Ouvidor e acaba no cemiterio de S. João

Baptista. Ouço que ha uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do

Cajú, mas eu sou um velho incredulo, como a senhora dizia ha pouco,

e não acceito essas noticias sem prova cabal e visual, e para ir

averigual-as, faltam-me pernas.

--Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro

dia que o senhor anda como aos trinta annos.

--Rita exagera. Mas, voltando á viagem, a senhora ainda não comprou os

bilhetes?

--Não.

--Não os encommendou sequer?

--Tambem não.

--Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua occupação, quanto

mais as semanas e os mezes. Pensemos em outra cousa, e deixe lá o Paulo

pedir a republica.

Natividade achou comsigo que elle tinha razão; depois, pensou em

outra cousa, e esta foi a ideia do principio. Não disse logo o que

era; preferiu conversar alguns minutos. Não era difficil com este

sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na

banalidade nem subir ás nuvens; tinha um modo particular, que não sei

se estava na ideia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal

de ninguem, e aliás seria uma distracção. Quero crêr que não dissesse

mal por indifferença ou cautella; provisoriamente, ponhamos caridade.

--Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do

conselho. Ou não quer mais nada?

--Custa-me pedir-lhe.

--Peça sempre.

--Sabe que os meus dous gemeos não combinam em nada, ou só em pouco,

por mais esforços que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia.

Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto

com forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de

sociedade, habil, fino, cautelloso, intelligente, instruido...

--Eu, em summa?

--Adivinhou.

--Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então que lhe parece

que possa fazer?

--Póde corrigil-os por boas maneiras, fazel-os unidos, ainda quando

discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina; parece até

proposito. Não discordam da côr da lua, por exemplo, mas aos onze

annos, Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e Paulo

que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei.

Imagine em politica...

--Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente para este caso...

--Oh! não!

--Para os outros é egualmente inutil, mas eu nasci para servir, ainda

inutilmente. Baroneza, o seu pedido equivale a nomear-me aio ou

preceptor... Não faça gestos; não me dou por diminuido. Comtanto que

me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me em

palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha

acção é inutil.

--Porque?

--É inutil.

--Uma pessoa de autoridade, como o senhor, póde muito, comtanto que os

ame, por que elles são bons, creia. Conhece-os bem?

--Pouco.

--Conheça-os mais e verá.

Ayres concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova.

Confiava na acção do conselheiro, e para dizer tudo... Não sei se

diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinação do velho

diplomata. As cans não lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem

me lê nesta occasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é

mulher creio que entenderá. Se ninguem entender, paciencia; baste saber

que elle prometteu o que ella quiz, e tambem prometteu calar-se; foi a

condição que a outra lhe poz. Tudo isso polido, sincero e incredulo.

Esau e Jacob · 第 86 / 242 题