A discordia não é tão feia como se pinta

A discordia não é tão feia como se pinta, meu amigo. Nem feia, nem

esteril. Conta só os livros que tem produzido, desde Homero até cá, sem

excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a Modestia acena-me

de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modestia, que mal supporta

a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas ha de ir com

ella e com elles. Viva a Modestia, e excluamos este livro; fiquem só

os grandes livros epicos e tragicos, a que a Discordia deu vida, e

digam-me se tamanhos effeitos não provam a grandeza da causa. Não, a

discordia não é tão feia como se pinta.

Teimo nisto para que as almas sensiveis não comecem de tremer pela moça

ou pelos rapazes. Não ha mister tremer, tanto mais que a discordia dos

dous começou por um simples accordo, naquella noite. Costeavam a praia,

calados, pensando só, até que ambos, como se falassem para si, soltaram

esta phrase unica:

--Está ficando bem bonita.

E voltando-se um para outro:

--Quem?

Ambos sorriram; acharam pico ao simultaneo da reflexão e da pergunta.

Sei que este phenomeno é tal qual o do capitulo XXV, quando elles

disseram da edade, mas não me culpem a mim; eram gemeos, podiam ter

o falar gemeo. O principal é que não se amofináram; não era ainda

amor o que sentiam. Cada um expoz a sua opinião ácerca das graças da

pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mãos, tudo com tão boa sombra,

que excluia a ideia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha

da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura;

mas como acabavam achando um total harmonico, era visto que não

brigavam por isso. Nenhum delles attribuia ao outro a cousa vaga ou o

qur quer que era que principiavam a sentir, e mais pareciam esthetas

que enamorados. Aliás, a mesma politica os deixou em paz essa noite:

não brigaram por ella. Não é que não sentissem alguma cousa opposta,

á vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, agua

quieta, vozes confusas e esparsas, algum tilbury a passo ou a trote,

segundo ia vasio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.

A imaginação os levou então ao futuro, a um futuro brilhante, como elle

é em tal edade. Botafogo teria um papel historico, uma enseada imperial

para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo, sem doge, nem conselho

dos dez, ou então um doge com outro titulo, um simples presidente, que

se casaria em nome do povo com este pequenino Adriatico. Talvez o doge

fosse elle mesmo. Esta possibilidade, apesar dos annos verdes, enfunou

a alma do moço. Paulo viu-se á testa de uma republica, em que o antigo

e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma

Convenção Nacional, a Republica Franceza e os Estados-Unidos da America.

Pedro, á sua parte, construia a meio caminho como um palacio para a

representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo

ministro e presidente do conselho. Falava, dominava o tumulto e as

opiniões, arrancava um voto á Camara dos deputados ou então expedia

um decreto de dissolução. É uma minucia, mas merece inseril-a aqui:

Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de

dissolução. Via-se em casa, com o acto assignado, referendado, copiado,

mandado aos jornaes e ás Camaras, lido pelos secretarios, archivado

na secretaria, e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando,

outros irados. Só elle estava tranquillo, no gabinete, recebendo os

amigos que iam comprimental-o e pedir os recados para a provincia.

Taes eram as grandes pinceladas da imaginação dos dous. As estrellas

recebiam no céu todos os pensamentos dos rapazes, a lua seguia quieta

e a vaga da praia estirava-se com a preguiça do costume. Voltaram a si

ao pé de casa. Tal ou qual impulso quiz leval-os a discutir ácerca do

tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmurio vago póde

ser que lhes fizesse mover os beiços e começar a quebrar o silencio,

mas o silencio era tão augusto que concordáram em respeital-o. E logo

acháram de si para si, que a lua era esplendida, a enseada bella e a

temperatura divina.

Esau e Jacob · 第 82 / 242 题