Mas tudo cança, até a solidão. Ayres entrou a sentir uma ponta
de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva,
extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros
excentricos, trepava aos morros, ia ás egrejas velhas, ás ruas novas,
á Copacabana e á Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam
nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas.
Tudo isso escrevia, ás noites, para se fortalecer no proposito da vida
solitaria. Mas não ha proposito contra a necessidade.
A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a
conversação. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e
apenas faladas. E tudo isso fôram os primeiros passos. A pouco e pouco
sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade
do riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado
no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto biblico, como na
traducção do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o
sentido; «Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.»
Assim se foi o programma da vida nova. Não é que elle já a não
entendesse nem amasse, ou que a não praticasse ainda alguma vez, a
espaços, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou
na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a
outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os
sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo.