A gente Baptista

A gente Baptista conheceu a gente Santos em não sei que fazenda da

provincia do Rio. Não foi Maricá, embora alli tivesse nascido o pae dos

gemeos; seria em qualquer outro municipio. Fosse qual fosse, alli é que

se conheceram as duas familias, e como morassem proximas em Botafogo, a

assiduidade e a sympathia vieram ajudando o caso fortuito.

Baptista, o pae da donzella, era homem de quarenta e tantos annos,

advogado do civel, ex-presidente de provincia e membro do partido

conservador. A ida á fazenda tivera por objecto exactamente uma

conferencia politica para fins eleitoraes, mas tão esteril que elle

tornou de lá sem, ao menos, um ramo de esperança. Apesar de ter amigos

no governo, não alcançára nada, nem deputação, nem presidencia.

Interrompêra a carreira desde que foi exonerado daquelle cargo «a

pedido», disse o decreto, mas as queixas do exonerado fariam crêr outra

cousa. De facto, perdera as eleições, e attribuia a esse desastre

politico a demissão do cargo.

--Não sei o que é que elle queria que eu fizesse mais, dizia Baptista

falando do ministro. Cerquei egrejas; nenhum amigo pediu policia que eu

não mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras foram para a

cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve duas

mortes no Ribeirão das Moças.

O final era excessivo, porque as mortes não fôram obra delle; quando

muito, elle mandou abafar o inquerito, si se póde chamar inquerito a

uma simples conversação sobre a ferocidade dos dous defuntos. Em summa,

as eleições fôram incruentas.

Baptista dizia que por causa das eleições perdera a presidencia,

mas corria outra versão, um negocio de aguas, concessão feita a um

hespanhol, a pedido do irmão da esposa do presidente. O pedido era

verdadeiro, a imputação de socio é que era falsa. Não importa; tanto

bastou para que a folha da opposição dissesse que houve naquillo um

bom «arranjo de familia», accrescentando que, como era de aguas, devia

ser negocio limpo. A folha da administração retorquiu que, se aguas

havia, não eram bastantes para lavar o sujo do carvão deixado pela

ultima presidencia liberal, um fornecimento de palacio. Não era exacto;

a folha da opposição reviveu o processo antigo e mostrou que a defeza

fôra cabal. Podia parar aqui, mas continuou que, «como agora estavamos

em Hespanha», o presidente emendou o poeta hespanhol, autor daquelle

epitaphio:

Cuñados y juntos:

Es cierto que estan difuntos;

e emendou-o por não ser obrigado a matar ninguem, antes deu vida a si e

aos seus, dizendo pela nossa lingua:

Cunhados e cunhadissimos;

É certo que são vivissimos!

Baptista acudiu depressa ao mal, declarando sem effeito a concessão,

mas isso mesmo serviu á opposição para novos arremeços: «Temos a

confissão do reu!» foi o titulo do primeiro artigo que rendeu á folha

da opposição o acto do presidente. Os correspondentes tinham já

escripto para o Rio de Janeiro falando da concessão, e o governo acabou

por demittir o seu delegado. Em verdade, só os politicos cuidaram do

negocio. D. Claudia apenas alludia á campanha da imprensa, que foi

violentissima.

--Não valia a pena sair daqui, disse Natividade.

--Lá isso não, baroneza!

E D. Claudia affirmou que valia. Soffre-se, mas paciencia. Era tão bom

chegar á provincia! Tudo annunciado, as visitas a bordo, o desembarque,

a posse, os comprimentos... Ver a magistratura, o funcionalismo, a

officialidade, muita calva, muito cabello branco, a flor da terra,

emfim, com as suas cortezias longas e demoradas, todas em angulo ou em

curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da opposição

eram agradaveis. Ouvir chamar tyranno ao marido, que ella sabia ter

um coração de pomba, ia bem á alma della. A sêde de sangue que se lhe

attribuia, elle que nem bebia vinho, o guante de ferro de um homem

que era uma luva de pellica, a immoralidade, a desfaçatez, a falta de

brio, todos os nomes injustos, mas fortes, que ella gostava de ler,

como verdades eternas, onde iam elles agora? A folha da opposição era

a primeira que D. Claudia lia em palacio. Sentia-se vergastada tambem

e tinha nisso uma grande volupia, como si fosse na propria pelle;

almoçava melhor. Onde iam os lategos daquelle tempo? Agora mal podia

ler o nome delle impresso no fim de algumas razões do foro, ou então na

lista das pessoas que iam visitar o imperador.

--Nem sempre, explicou D. Claudia; Baptista é muito acanhado; vae de

longe em longe a S. Christovão, para não parecer que se faz lembrado,

como se isto fosse crime; ao contrario, não ir nunca é que póde parecer

arrufo. Note que o imperador nunca deixou de recebel-o com muita

benevolencia, e a mim tambem. Nunca esqueceu o meu nome. Já deixei de

lá ir dous annos, e quando appareci, perguntou-me logo: «Como vae, D.

Claudia?»

Afóra essas saudades do poder, D. Claudia era uma creatura feliz. A

viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam não ver nada

á força de não pararem nunca, e o sorriso benevolo, e a admiração

constante, tudo nella era ajustado a curar as melancolias alheias.

Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quizesse comer vivas,

comer de amor, não de odio, mettel-as em si, muito em si, no mais fundo

de si.

Baptista não tinha as mesmas expansões. Era alto e o ar socegado dava

um bom aspecto de governo. Só lhe faltava acção, mas a mullher podia

inspirar-lh'a; nunca deixou de consultal-a nas crises da presidencia.

Agora mesmo, se lhe désse ouvidos, já teria ido pedir alguma cousa

ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia da

fraqueza: «Hão de chamar-me, deixa estar,» dizia elle a D. Claudia,

quando apparecia alguma vaga de governo provincial. Certo é que elle

sentia a necessidade de tornar á vida activa. Nelle a politica era

menos uma opinião que uma sarna; precisava coçar-se a miudo e com força.

Esau e Jacob · 第 70 / 242 题