Sei que ha um ponto escuro no capitulo que passou; escrevo este para
esclarecel-o.
Quando a esposa inquiriu dos antecendentes e circumstancias do
despacho, Santos deu as explicações pedidas. Nem todas seriam
estrictamente exactas; o tempo é um rato roedor das cousas, que as
diminue ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a
materia era tão propicia ao alvoroço que facilmente traria confusão á
memoria. Ha, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se
perdem, outros que a imaginação inventa para supprir os perdidos, e nem
por isso a historia morre.
Resta saber (é o ponto escuro) como é que Santos pôde calar por longos
dias um negocio tão importante para elle e para a esposa. Em verdade,
esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por gesto, se achasse
algum, aquelle segredo de poucos; mas, sempre havia uma força maior que
lhe tapava a bôca. Ao que parece, foi a expectação de uma alegria nova
e inesperada que lhe deu a alma de pacientar.
Naquella scena do gabinete tudo foi composto de antemão, o silencio,
a indifferença, os filhos que elle poz alli, estudando ao domingo,
só para o effeito daquella phrase: «Venham beijar a mão da senhora
baroneza de Santos!»