Os quarenta e um annos não lhe trouxeram arrepio. Já estava acostumada
á casa dos quarenta. Sentiu sim, um grande espanto; acordou e não viu o
presente do costume, a «sorpreza» do marido ao pé da cama. Não a achou
no toucador; abriu gavetas, espiou, nada. Creu que o marido esquecera
a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu olhando; nada. No
gabinete estava o marido, calado, mettido comsigo, a ler jornaes, mal
lhe estendeu a mão. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a um
canto; vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A mãe
ainda relanceou os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um
painel, um vestido, foi tudo vão. Embaixo de uma das folhas do dia que
estava na cadeira fronteira á do marido podia ser que... Nada. Então
sentou-se, e, abrindo a folha, ia dizendo comsigo: «Será possivel que
não se lembre do dia de hoje? Será possivel?» Os olhos entraram a ler á
toa, saltando as noticias, tornando atraz...
Defronte o marido espreitava a mulher, sem absolutamente importar-lhe o
que parecia ler. Assim se passaram alguns minutos. De repente, Santos
viu uma expressão nova no rosto de Natividade; os olhos della pareciam
crescer, a bôca entre-abriu-se, a cabeça ergueu-se, a delle tambem,
ambos deixaram a cadeira, deram dous passos e cairam nos braços um do
outro, como dous namorados desesperados de amor. Um, dous, trez, muitos
beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de pé. O pae,
quando pôde falar, disse-lhes:
--Venham beijar a mão da senhora baroneza de Santos.
Não entenderam logo. Natividade não sabia que fizesse; dava a mão aos
filhos, ao marido, e tornava ao jornal para ler e reler que no despacho
imperial da vespera o Sr. Agostinho José dos Santos fôra agraciado com
o titulo de Barão de Santos. Comprehendeu tudo. O presente do dia era
aquelle; o ourives desta vez foi o imperador.
--Vão, vão, agora podem ir brincar, disse o pae aos filhos.
E os rapazes sairam a espalhar a noticia pela casa. Os criados ficaram
felizes com a mudança dos amos. Os proprios escravos pareciam receber
uma parcella de liberdade e condecoravam-se com ella: «Nhã Baroneza!»
exclamavam saltando. E João puxava Maria, batendo castanholas com os
dedos: «Gente, quem é esta creoula? Sou escrava de Nhã Baroneza!»
Mas o imperador não foi o unico ourives. Santos tirou do bolso uma
caixinha, com um broche em que a corôa nova rutilava de brilhantes.
Natividade agradeceu-lhe a joia e consentiu em pol-a, para que o marido
a visse. Santos sentia-se autor da joia, inventor da fórma e das
pedras; mas deixou logo que ella a tirasse e guardasse, e pegou das
gazetas, para lhe mostrar que em todas vinha a noticia, algumas com
adjectivo, _conceituado_ aqui, alli _distincto_, etc.
Quando Perpetua entrou no gabinete, achou-os andando de um lado para
outro, com os braços passados pela cintura, conversando, calando,
mirando os pés. Tambem ella deu e recebeu abraços.
Toda a casa estava alegre. Na chacara as arvores pareciam mais verdes
que nunca, os botões do jardim explicavam as folhas, e o sol cobria a
terra de uma claridade infinita. O céu, para collaborar com o resto,
ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir cartões e cartas
de parabens. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do commercio,
homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares tambem, vieram
ou mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram
continuar o esquecimento. Nomes houve que elles só puderam reconhecer á
força de grande pesquiza e muito almanaque.