Um dos meus proposrtos neste livro é não lhe pôr lagrimas. Entretanto,
não posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de
Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e fôram
morrer-lhe aos cantos da bôca. Tão depressa as verteu como as engoliu,
renovando ás avessas e por palavras mudas o fecho daquellas historias
de creanças: «entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei
nosso senhor que nos conte outra.» E a segunda creança contava segunda
historia, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o
fastio ou o somno. Pessoas que datam do tempo em que se contavam taes
historias affirmam que creanças não punham naquella formula nenhuma
monarchica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar
o seu _Decameron_ dellas, herdado do velho reino portuguez, quando os
reis mandavam o que queriam, e a nação dizia que era muito bem.
Engolidas as duas lagrimas, Natividade riu da propria fraqueza. Não
se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em
particular; mas no secreto do coração, lá muito ao fundo, onde não
penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso.
Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.
Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte dos filhos,
uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram
mais frequentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia receiar que
elles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a ideia da
grandeza e da prosperidade,--cousas futuras!--e esta esperança era como
um lenço que enxugasse os olhos da bella senhora. As Sibyllas não terão
dito só do mal, nem os Prophetas, mas ainda do bem, e principalmente
delle.
Com esse lenço verde enxugou ella os olhos, e teria outros lenços,
se aquelle ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, não verde
como a esperança, mas azul, como a alma della. Ainda lhes não disse
que a alma de Natividade era azul. Ahi fica. Um azul celeste, claro e
transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a
noite escurecia.
Não, leitor, não me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se
fosse hoje. Chegou assim aos quarenta annos. Não importa; o céu é mais
velho e não trocou de côr. Uma vez que lhe não attribuas ao azul da
alma nenhuma significação romantica, estás na conta. Quando muito, no
dia em que perfez aquella edade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que
passára? Nada, um dia mais que na vespera, algumas horas apenas. Toda
uma questão de numero, menos que numero, o nome do numero, esta palavra
_quarenta_, eis o mal unico. Dahi a melancolia com que ella disse ao
marido, agradecendo o mimo do anniversario: «Estou velha, Agostinho!»
Santos quiz esganal-a brincando.
Pois faria mal se a esganasse. Natividade ainda tinha as fôrmas do
tempo anterior á concepção, a mesma flexibilidade, a mesma graça miuda
e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo
todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns
do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer engrossar, e os
quadris e o collo eram do mesmo estofador antigo.
Ha dessas regiões em que o verão se confunde com o outono, como se dá
na nossa terra, onde as duas estações só differem pela temperatura.
Nella nem pela temperatura. Maio tinha o calor de janeiro. Ella, aos
quarenta annos, era a mesma senhora verde, com a mesmissima alma azul.
Esta côr vinha-lhe do pae e do avô, mas o pae morreu cedo, antes do
avô, que chegara aos oitenta e quatro. Nessa edade cria sinceramente
que todas as delicias deste mundo, desde o café de manhã até os somnos
socegados haviam sido inventados sómente para elle. O melhor cozinheiro
da terra nascera na China, para o unico fim de deixar familia, patria,
lingua, religião, tudo, e vir assar-lhe as costelletas e fazer-lhe o
chá. As estrellas davam ás _suas_ noites una aspecto esplendido, o luar
tambem, e a chuva, se chovia, era para que elle descançasse do sol. Lá
está agora no cemiterio de S. Francisco Xavier; se alguem pudesse ouvir
a voz dos mortos, dentro das sepulturas, ouviria a delle, bradando que
é tempo de fechar a porta ao cemiterio e não deixar entrar ninguem, uma
vez que elle já lá descança para todo sempre. Morreu azul; se chegasse
aos cem annos, nao teria outra côr.
Ora, se a natureza queria poupar esta senhora, a riqueza dava a mão á
natureza, e de uma e de outra saía a mais bella côr que alma de gente
póde ter. Tudo concorria assim para lhe seccarem os olhos depressa,
como vimos atraz. Se ella bebeu aquellas duas lagrimas solitarias,
pudera ter bebido outras pela edade adeante, e isto é ainda uma
prova daquelle matiz espiritual; mostrará assim que as tem poucas, e
engole-as para poupal-as.
Mas ha ainda uma terceira causa que dava a esta senhora o sentimento da
côr azul, causa tão particular que merecia ir em capitulo seu, mas não
vae, por economia. Era a isenção, era o ter atravessado a vida intacta
e pura. O cabo das Tormentas converteu-se em cabo da Boa Esperança,
e ella venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos lhe
derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. Não negaria que alguma
lufada mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso
de João de Mello, ou ainda peor, no de Ayres, mas fôram bocejos de
Adamastor. Concertou a vela depressa e o gigante ficou atraz cercado de
Thetis, emquanto ella seguiu o caminho da India. Agora lembrava-se da
viagem prospera. Honrava-se dos ventos inuteis e perdidos. A memoria
trazia-lhe o sabor do perigo passado. Eis aqui a terra encoberta, os
dous filhos nados, criados e amados da fortuna.