No Cattete, o _coupé_ e uma victoria cruzaram-se e pararam a um tempo.
Um homem saltou da victoria e caminhou para o _coupé._ Era o marido de
Natividade, que ia agora para o escriptorio, um pouco mais tarde que de
costume, por haver esperado a volta da mulher. Ia pensando nella e nos
negocios da praça, nos meninos e na lei Rio Branco, então discutida na
Camara dos deputados; o banco era credor da lavoura. Tambem pensava na
cabocla do Castello e no que teria dito á mulher...
Ao passar pelo palacio Nova-Friburgo, levantou os olhos para elle com
o desejo do costume, uma cobiça de possuil-o, sem prever os altos
destinos que o palacio viria a ter na Republica; mas quem então previa
nada? Quem prevê cousa nenhuma? Para Santos a questão era só possuil-o,
dar alli grandes festas unicas, celebradas nas gazetas, narradas na
cidade entre amigos e inimigos, cheios de admiração, de rancor ou de
inveja. Não pensava nas saudades que as matronas futura contariam ás
suas netas, menos ainda nos livros de chronicas, escriptos e impressos
neste outro seculo. Santos não tinha a imaginação da posteridade. Via o
presente e suas maravilhas.
Já lhe não bastava o que era. A casa de Botafogo, posto que bella,
não era um palacio, e depois, não estava tão exposta como aqui no
Cattete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia para as grandes
janellas, as grandes portas, as grandes aguias no alto, de azas
abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palacio, os
jardins e os lagos... Oh! goso infinito! Santos imaginava os bronzes,
marmores, luzes, flores, danças, carruagens, musicas, ceias... Tudo
isso foi pensado depressa, porque a victoria, embora não corresse (os
cavallos tinham ordem de moderar a andadura), todavia, não atrazava as
rodas para que os sonhos de Santos acabassem. Assim foi que, antes de
chegar á praça da Gloria, a victoria avistou o _coupé_ da familia, e as
duas carragens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou dito.