Natividade ia pensando na cabocla do Castello, na predicção da grandeza
e na noticia da briga. Tornava a lembrar-se que, de facto, a gestação
não fôra socegada; mas só lhe ficava a sorte da gloria e da grandeza. A
briga lá ia, se a houve; o futuro, sim, esse é que era o principal ou
tudo. Não deu pela praia de Santa Luzia. No largo da Lapa interrogou a
irmã sobre o que pensava da adivinha. Perpetua respondeu que bem, que
acreditava, e ambas concordaram que ella parecia falar dos proprios
filhos, tal era o enthusiasmo. Perpetua ainda a reprehendeu pelos
cincoenta mil reis dados em paga; bastavam vinte.
--Não faz mal. Cousas futuras!
--Que cousas serão?
--Não sei; futuras.
Mergulharam,outra vez no silencio. Ao entrar no Cattete, Natividade
recordou a manhã em que alli passou, naquelle mesmo _coupé_, e confiou
ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na
egreja de S. Domingos...
«Na egreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de
Mello, fallecido em Maricá.» Tal foi o annuncio que ainda agora pódes
ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mez foi agosto. O
annuncio está certo, foi aquillo mesmo, sem mais nada, nem o nome da
pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite.
Não se disse sequer que o defunto era escrivão, officio que só perdeu
com a morte. Emfim, parece que até lhe tiraram um nome; elle era, se
estou bem informado, João de Mello e Barros.
Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguem lá foi. A egreja
escolhida deu ainda menos relevo ao acto; não era vistosa, nem buscada,
mas velhota, sem galas nem gente, mettida ao canto de um pequeno largo,
adequada á missa recondita e anonyma.
Às oito horas parou um _coupé_ á porta; o lacaio desceu, abriu a
portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão
a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram
o pedacinho de largo e entraram na egreja. Na sacristia era tudo
espanto. A alma que a taes sitios attrahira um carro de luxo, cavallos
de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas alli
suffragadas. A missa foi ouvida sem pesames nem lagrimas. Quando
acabou, o senhor foi á sacristia dar as esportulas. O sacristão,
agasalhando na algibeira a nota de dez mil reis que recebeu, achou que
ella provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O
mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a luva da senhora
deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na
egreja meia duzia de creanças maltrapilhas, e, fóra, alguma gente ás
portas e no largo, esperando. O senhor, chegando á porta, relanceou
os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objecto de curiosidade.
A senhora trazia os seus no chão. E os dous entraram no carro, com o
mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.
A gente local não falou de outra cousa naquelle e nos dias seguintes.
Sacristão e visinhos relembravam o _coupé_, com orgulho. Era a missa do
_coupé._ As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato
roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas
de chita, ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas a
missa do _coupé_ viveu na memoria por muitos mezes. Afinal não se falou
mais nella; esqueceu como um baile.
Pois o _coupé_ era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquelle
senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que
pobre. Tambem elle foi pobre; tambem elle nasceu em Maricá. Vindo para
o Rio de Janeiro, por occasião da _febre das acções_ (1855), dizem que
revellou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo
muito, e fel-o perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que
ia então nos vinte annos e não tinha dinheiro, mas era bella e amava
apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Annos depois
tinham elles uma casa nobre, carruagem, cavallos e relações novas e
distinctas. Dos dous parentes pobres de Natividade morreu o pae em
1866; restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca
mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não
creio; elle gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria;
tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.
Não lhe valeu isto com João de Mello, que um dia appareceu aqui, a
pedir-lhe emprego. Queria ser, como elle, director de banco. Santos
arranjou-lhe depressa um logar de escrivão do civel em Maricá, e
despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.
João de Mello retirou-se com a escrevania, e dizem que uma grande
paixão tambem. Natividade era a mais bella mulher daquelle tempo. No
fim, com os seus cabellos quasi sexagenarios, fazia crêr na tradicção.
João de Mello ficou allucinado quando a viu; ella conheceu isso, e
portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bella
assim que zangada; tambem não lhe fechou os olhos, que eram negros
e callidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como
nenhum outro, foi a conclusão de João de Mello uma noite em que a viu
ir decotada a um baile. Teve impeto de pegar della, descer, voar,
perderem-se...
Em vez disso, uma escrevania e Maricá; era um abysmo. Caiu nelle;
trez dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A principio
escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ella as lesse
tambem, e comprehendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos
não lhe deu resposta, e o tempo e a ausencia acabaram por fazer de João
de Mello um excellente escrivão. Morreu de uma pneumonia.
Que o motivo da pratinha de Natividade deitada á caixa das almas fosse
pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me
pormenores. Mas póde ser que sim, porque esta senhora era não menos
grata que honesta. Quanto ás larguezas do marido, não esqueças que o
parente era defunto, e o defunto um parente menos.