Cousas futuras!
Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castello. Começaram de
subir pelo lado da rua do Carmo. Muita gente ha no Rio de Janeiro que
nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá
pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um
velho inglez, que aliás andára terras e terras, confiava-me ha muitos
annos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu club, e era o que
lhe bastava da metropole e do mundo.
Natividade e Perpetua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas
o morro do Castello, por mais que ouvissem falar delle e da cabocla
que lá reinava em 1811, era-lhes tão extranho e remoto como o club. O
ingreme, o desegual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés ás
duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse
penitencia, devagarinho, cara no chão, veu para baixo. A manhã trazia
certo movimento; mulheres, homens, creanças que desciam ou subiam,
lavadeiras e soldados, algum empregado, algum logista, algum padre,
todos olhavam espantados para ellas, que aliás vestiam com grande
simplicidade; mas lia um donaire que se não perde, e não era vulgar
naquellas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada á rapidez das
outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que alli iam.
Uma creoula perguntou a um sargento: «Você quer vêr que ellas vão á
cabocla?» E ambos pararam a distancia, tomados daquelle invencivel
desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade
humana.
Com effeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o numero da casa
da cabocla, até que deram com elle. A casa era como as outras, trepada
no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada á
aventura. Quizeram entrar depressa, mas esbarraram com dous sujeitos
que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um delles perguntou-lhes
familiarmente se iam consultar a adivinha.
--Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito
disparate...
--É mentira delle, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde
tem o nariz.
Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do
primeiro eram signal certo da videncia e da franqueza da adivinha; nem
todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividade podia
ser miseravel, e então... Em quanto cogitavam passou fóra um carteiro,
que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham fé,
mas tinham tambem vexame da opinião, como um devoto que se benzesse ás
escondidas.
Velho caboclo, pae da adivinha, conduziu as senhoras á sala. Esta era
simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mysterio ou incutisse
pavor, nenhum petrecho symbolico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou
desenho de aleijões. Quando muito um registo da Conceição collado á
parede podia lembrar um mysterio, apesar de encardido e roido, mas não
mettia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.
--Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se chamam?
Natividade deu o nome de baptismo sómente, Maria, como um veu mais
espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão,--porque a
consulta era só de uma,--com o numero 1,012. Não ha que pasmar do
algarismo; a freguezia era numerosa, e vinha de muitos mezes. Tambem
não ha que dizer do costume, que é velho e velhissimo. Relê Eschylo,
meu amigo, relê as _Eumenides_, lá verás a Pythia, chamando os que iam
á consulta: «Se ha aqui Hellenos, venham, approximem-se, segundo o uso,
_na ordem marcada pela sorte..._» A sorte outr'ora, a numeração agora,
tudo é que a verdade se ajuste á prioridade, e ninguem perca a sua vez
de audiencia. Natividade guardou o bilhete, e ambas fôram á janella.
A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpetua menos que Natividade.
A aventura parecia audaz, e algum perigo possivel. Não ponho aqui os
seus gestos; imaginae que eram inquietos e desconcertados. Nenhuma
dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um nó na garganta.
Felizmente, a cabocla não se demorou muito; ao cabo de trez ou quatro
minutos, o pae a trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo.
--Entra, Barbara.
Barbara entrou, emquanto o pae pegou da viola e passou ao patamar de
pedra, á porta da esquerda. Era uma creaturinha leve e breve, saia
bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso.
Os cabellos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita
enxovalhada, faziam-lhe um solideu natural, cuja borla era supprida por
um raminho de arruda. Já vae nisto um pouco de sacerdotiza. O mysterio
estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não
fossem tambem lucidos e agudos, e neste ultimo estado eram egualmente
compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo,
revolviam o coração e tornavam cá fóra, promptos para nova entrada e
outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou
qual fascinação. Barbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha
e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabellos cortados, por lhe
haverem dito que bastava.
--Basta, confirmou Barbara. Os meninos são seu filhos?
--São.
--Cara de um é cara de outro.
--São gemeos; nasceram ha pouco mais de um anno.
--As senhoras podem sentar-se.
Natividade disse baixinho á outra que «a cabocla era sympathica», não
tão baixo que esta não pudesse ouvir tambem; e dahi pôde ser que ella,
receiosa da predicção, quizesse aquillo mesmo para obter um bom destino
aos filhos. A cabocla foi sentar-se á mesa redonda que estava no centro
da sala, virada para as duas. Poz os cabellos e os retratos defronte de
si. Olhou alternadamente para elles e para a mãe, fez algumas perguntas
a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabellos, bôca aberta,
sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que accendeu um cigarro, mas
digo, porque é verdade, e o fumo concorda com o officio. Fóra, o pae
roçava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do norte:
Menina da saia branca,
Saltadeira de riacho...
Emquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de
expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa.
Barbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabellos em
cada mão, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a affectação
que por ventura aches nesta linha. Taes gestos não se poderiam contar
naturalmente. Natividade não tirava os olhos della, como se quizesse
lel-a por dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar
se os meninos tinham brigado antes de nascer.
--Brigado?
--Brigado, sim, senhora.
--Antes de nascer?
--Sim, senhora, pergunto se não teriam brigado no ventre de sua mãe;
não se lembra?
Natividade, que não tivera a gestação socegada, respondeu que
effectivamente sentira movimentos extraordinarios, repetidos, e dôres,
e insomnias... Mas então que era? Brigariam porquê? A cabocla não
respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou á volta da mesa, lenta,
como somnambula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividil-os
novamente entre a mãe e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando
grosso. Toda ella, cara e braços, hombros e pernas, toda era pouca para
arrancar a palavra ao Destino. Emfim, parou, sentou-se exhausta, até
que se ergueu de salto e foi ter com as duas, tão radiante, os olhos
tão vivos e callidos, que a mãe ficou pendente delles, e não se poude
ter que lhe não pegasse das mãos e lhe perguntasse anciosa:
--Então? Diga, posso ouvir tudo.
Barbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A primeira
palavra parece que lhe chegou á bôca, mas recolheu-se ao coração,
virgem dos labios della e de alheios ouvidos. Natividade instou pela
resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...
--Cousas futuras! murmurou finalmente a cabocla.
--Mas, cousas feias?
--Oh! não! não! Cousas bonitas, cousas futuras!
--Mas isso não basta; diga-me o resto. Esta senhora é minha irmã e de
segredo, mas se é preciso sair, ella sae; eu fico, diga-me a mim só...
Serão felizes?
--Sim.
--Serão grandes?
--Serão grandes, oh! grandes! Deus ha de dar-lhes muitos beneficios.
Elles hão de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua mãe, que
tem? Cá fóra tambem se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que
lhe digo. Quanto á qualidade da gloria, cousas futuras!
Lá dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava a cantiga do
sertão:
Trepa-me neste coqueiro.
Bota-me os cocos abaixo.
E a filha, não tendo mais que dizer, ou não sabendo que explicar, dava
aos quadris o gesto da toada, que o velho repetia lá dentro:
Menina da saia branca,
Saltadeira de riacho,
Trepa-me neste coqueiro,
Bota-me os cocos abaixo.
Quebra coco, sinhá,
Lá no cocá,
Se te dá na cabeça,
Hade rachá;
Muito heide me ri,
Muito heide gostá,
Lelê, coco, nayá.