_Commoções populares na cidade do Porto: Proclamações, e outros
procedimentos por occasião das mesmas. Expedições em consequencia de
hum rebate falso; ajuntamentos, prizões, e outros resultados._
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
AS provincias do norte obrárão mais de concerto entre si, porque a
pezar de não terem ficado absolutamente livres das contestações das
juntas subalternas, todas se submettêrão á do Porto, como vimos, e
houve por isso unidade de plano, e maior união de forças, do que nas
provincias do sul. Tambem o norte foi mais feliz, em razão de não
ter sido incommodado por corpo algum inimigo, depois da expedição de
Loison: a guarnição de Almeida era muito fraca, para ousar mostrar-se
muito além dos seus muros, e mesmo não tardou em ser posta em
bloqueio, mas elle soffreo horrorosamente das commoções populares;
e para se formar idéa do estado de fermentação, em que continuava a
propria capital do Porto nos fins de junho, e principios de julho,
podendo apenas a authoridade do Governo, e dos magistrados, a do
General, e a força armada com os disturbios populares, bastará ler-se a
seguinte proclamação, que publicou, e fez affixar o Intendente geral da
policia.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Proclamação.
_Moradores do Porto, o vosso demasiado zelo, e summa desconfiança,
pôde bem levar-vos ao precipicio, e isso he o que pertende o tyranno,
para vos fazer sucumbir. Se vós confiais no supremo Governo, que
constituistes, prestrai-lhe sugeição, que elle he muito capaz de vos
defender, e eu em seu abono porei a minha cabeça; se porém desconfiais
de mim, o remedio he prompto; porque eu vou já dimittir o cargo, que
nem pedi, nem ambiciono. Não he nesta occasião só que eu tenho feito
ver a minha fidelidade; sempre por ella mereci a estima do Soberano,
já ha muito que algum de vós a conhece, e talvez em tempo, que a
minha vida se arriscasse. Eu ainda conservo os mesmos sentimentos, os
Jacobinos ainda não pudérão abalar a minha constancia; como porém a
vida he preciosa, eu a desejo dar mais em beneficio da patria do que
sacrificalla em hum tumulto. Eu quero antes morrer como simples soldado
em qualquer acção, do que soffrer de vós a injuria de desconfiardes
da minha honra, e fidelidade. Muitos ministros ha nesta Relação de
mais luzes, e por isso mais capazes do lugar de Intendente geral da
policia: fazei justiça ao seu merecimento, e ide pedir outro ao supremo
Governo que eu de boa vontade vos quero fazer a vossa. Tenho mais
gosto de ir acompanhar meu filho ao exercito, onde o fiz alistar, do
que occupar o lugar, para o qual apenas me julgaria capaz no tempo
de quietação, e não do tumulto, em que desgraçadamente vos vejo; no
meio deste, confesso, se faz mister mão, que seja mais habil. Se a
vossa desconfiança nasce da falta de proposição dos réos, sabei que eu
desejo fazer as cousas de fórma, que não seja notado de sanguinario;
desejo ajuntar nas sentenças todas as provas, que poder descobrir, para
que a minha honra não padeça. Se em França se faz outra cousa, esta
desgraçada potencia não serve hoje de modélo ás outras; os réos estão
bem seguros, hão de ser punidos conforme as suas culpas, a devassa,
que pelas nossas leis se requer, ainda hontem se principiou. Que
desejo he este tão arrebatado do sangue de huns poucos de individuos
dos quaes já não temos nada a recear, e que brevemente podereis ver no
lugar, que merecem pelos seus crimes? Não são estes os que vos devem
merecer cuidado; aos que estão em Lisboa, e Almeida he que devemos
accommetter, e vencer: correi pois mais a alistar-vos no exercito, e
a unir as vossas forças contra os inimigos externos, do que contra
estes já prezos, dos quaes em poucos dias, vos prometto, vejaes a
triste sorte, sendo culpados. Dai-me algum tempo, porque hum homem
mal convalescido de huma doença, e occupado em muitas outras cousas,
não póde fazer mais, do que faz: concedendo-me tempo, eu vos prometto
desempenhar as obrigações do meu officio, e vingar com o castigo
dos réos a religião, a patria, e o Principe offendidos. Porto, e
Intendencia geral da policia 1 de julho de 1808._
Não he menos notavel a proclamação do Bispo Governador, que se segue.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Proclamação.
_Portuguezes, pelo ceo, por Jesus Christo ouvi hum Governo, que vos
ama, que quer a vossa felicidade, e que trabalha por ella. Que fazeis
com as vossas turbulencias, com os vossos tiros, e com a vossa falta
de ordem, e de subordinação, a quem está prompto a conduzir-vos, a
levar-vos com ordem ao inimigo, e a poupar as vossas vidas? Que tiros
não perdeis, que devião empregar-se no inimigo, e ao depois hão de
faltar-vos? Que sinaes não estaes dando ao inimigo, para se acautelar,
e surprender-vos? Portuguezes, ouvi a quem vos ama: os Francezes hão de
accommetter-nos n’hum golpe de mão, e de noite, estais perdidos, se vos
não subordinaes, e ouvis o Governo. Os tiros, os toques de tambores,
os sinos dão aos inimigos hum sinal certo, onde estaes, onde se acha a
força, e onde fica a fraqueza. Aos inimigos encobrem-se os destinos,
para o accommetter, para melhor se acautelar, e sahir-lhes ao encontro,
quando elles menos o pensão: he este o meio de vencellos, sugeitai-vos
aos superiores em tudo, e por tudo, se quereis vencer, aliás ficais
desgraçados: a força sem ordem he a de hum valente touro, que cede á
industria, e destreza de hum fraco, e debil capinha. Pelo que ha de
mais sagrado no ceo, e na terra, por Jesus Christo roga-vos o Governo,
que vos sogeiteis aos vossos chéfes, formando-se as ordenanças nas
suas companhias. Se vos pozerem em hum posto, ahi deveis permanecer
para quando chegar a occasião do vosso combate. Os que estão avançados
accommettem primeiro, e matando diminuem os inimigos: os segundos
quando chega a sua vez, minorão os contrarios com as mortes, que lhes
dão: os terceiros vencem, e destroem o resto. Mas se em montão ides aos
postos, destroçados ahi que resta? Ficais todos perdidos: que desgraça!
A vossa energia deve ser dirigida pela arte: deixai-vos conduzir, e
sereis vencedores. Viva o Principe Regente, viva Portugal, vivão os
Portuenses, &c._
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
O Chanceller, e outros funcionarios públicos tambem fizerão
proclamações em conformidade, e até appareceo huma do povo ao mesmo
povo. Representações, e súpplicas não bastavão, era necessario
accelerar o processo dos prezos, como na verdade se accelerou, em
consequencia de varias ordens, e prometter sangue. Estremecião os póvos
com o receio de se verem novamente invadidos por hum inimigo terrivel,
que ainda occupava a capital, e huma parte do reino, e de que lhe
arrebatassem segunda vez o thesouro, que acabavão de reconquistar;
e este receio os fazia summamente suspeitosos, pensando encontrarem
traidores para qualquer lado, que se voltassem; e ajuntando-se muitas
vezes ás desconfianças dos temerosos a maldade de alguns individuos,
que abusavão da credulidade innocente, para satisfazerem a paixões
criminosas, o patriotismo se convertia em furor. Mas não confundamos
actos particulares de erro, ou de malicia de alguns individuos com as
operações do povo em geral. Eu terei ainda occasião de fazer algumas
reflexões a este respeito, mas para evitar prevenções, adianto-me a
dizer, que bem longe de criminar o povo, eu o desculpo, e me admiro de
que não fossem mais sanguinarios os seus desatinos. Muitas vezes se
entregou a excessos, e muitas vezes perseguio victimas innocentes, (nem
todas o erão) ou porque se enganou, ou porque abusárão delle; mas a
revolução era a obra do povo, e o povo não sabe fazer de outra fórma as
suas revoluções: continuemos com os factos.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Deixei incompleta a historia da desgraça de José Cardoso de Menezes,
(_tom. III. cap. XIV._) com a qual se envolveo a do Tenente
Luiz Paulino, o mesmo que no dia 6 tinha assistido ao congresso
convocado por Bellesta: accrescentarei agora algumas circunstancias,
que não devem ficar ommissas.[12] O portador da carta, que
motivou as suspeitas, era hum homem tão conhecido por emissario
de correspondencias sinistras, que o povo o chamava _correio de
Junot_, e quando José Cardoso foi conduzido no meio do primeiro
tumulto á presença do Bispo, o acompanhou Luiz Paulino, tomando a
sua defeza, e apresentando huma carta, que dizia ser a propria, que
tinha occultado o emissario: era meia folha de papel dobrada em dois
quartos, de que sómente o primeiro tinha letras, e este rasgado ao meio
transversalmente, de fórma que faltava a ametade inferior, apparecendo
sómente a superior; e a escrita, que continha, não dava idéas da menor
suspeita. Tinha-se visto, que o emissario dilacerára a carta com os
dentes, e lançára os fragmentos ao rio, e não era crivel, que com os
dentes fizesse hum rasgo direito, como o que apparecia no papel, que
se mostrava: por tanto a defeza de José Cardoso, e de Luiz Paulino
não se julgou convincente; mas o Bispo, que queria levar as cousas
com a sua prudencia do costume, os convidou a ficarem no seu palacio,
até que o povo se dissuadisse de os perseguir. Luiz Paulino acceitou
prudentemente a offerta: José Cardoso a repugnou, de que lhe resultárão
os trabalhos, que referi no lugar competente.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Continuárão successivamente os rebates nos dias immediatos, e
espalhando-se em hum delles a voz de que os Francezes de Loison tinhão
penetrado até o Carvoeiro a 3 leguas da cidade, onde sómente esperavão,
que abaixasse a maré, para descerem com ella pelo Douro, não só o
povo, mas tambem o Governo ficou em sustos. Tudo se armou, e correo
para aquelles sitios, debaixo do commando do Coronel do regimento de
cavalleria n.^o 9.^o Francisco Guedes Carvalho e Menezes da Costa,
em quem recahíra o Governo das armas pela prizão de José Cardoso; e
em quanto esta comitiva seguia as duas margens do rio, subia tambem
por elle acima huma expedição de quatro barcas Biscainhas, armadas
rápidamente em canhoeiras, por ordem do Bispo, que deo o commando
dellas ao Tenente de cavalleria José Pereira da Silva Berredo, hoje
Tenente-Coronel commandante do corpo da policia da cidade do Porto,
official de que o mesmo Prelado fazia grande confidencia, e se achava
encarregado de hum reducto nas alturas de Villa-nova. Este ultimo ponto
sempre ficou guarnecido, assim como as margens inferiores do Douro.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Seguio-se a noite, que foi pavorosa: o Bispo a passou quasi toda
recostado sobre huma varanda, sem querer jámais retirar-se a tomar
algum repouso, como lhe querião persuadir, e não houve mais socego,
em quanto não chegárão na manhã seguinte os avisos de que o inimigo
não apparecia. Então as barcas vierão fundear junto á quinta do
Prado, onde o Bispo em pessoa lhes veio passar huma revista, e ahi
se conservárão armadas, para guarnecerem o rio, debaixo das ordens do
mesmo José Pereira da Silva, que poucos dias depois (em 6 de julho)
foi encarregado por Portaria daquelle Prelado de estabelecer pelas
suas margens os pontos de defeza, e os de communicação pelos angulos
das montanhas. O grosso da gente tambem voltou para a cidade; mas
Luiz Paulino, que aproveitára esta occasião, para sahir do palacio
episcopal, e se mostrar em público como bom militar, e bom patriota,
adiantou-se com hum destacamento, e duas peças de campanha desde
Valongo, onde os nossos tinhão collocado huma bateria, para as partes
de Lamego, procurando o inimigo. Dias antes tinha sido a refrega da
Regua, e Loison se havia ausentado daquellas terras.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Em huma dessas noites, quando tudo parecia ter entrado em quietação,
sobreveio hum novo reboliço, que poz a cidade em grande agitação. Huma
voz soou para a parte da ponte, que dizia: _estamos perdidos, já
os inimigos rompêrão as baterias_, referia-se ás das alturas de
Villa-nova. O effeito foi instantaneo, e caminhando já muita gente, e
algumas peças nesta direcção, se ouve bradar outra voz além do rio:
_atirem para cá, que elles já aqui estão_. Julgue-se o terror, e o
espanto, que estas vozes devião produzir! Com tudo os nossos passárão a
ponte, e em lugar de inimigos encontrárão huma escolta de milicianos de
Aveiro, que conduzião huma leva de prezos para as cadêas do Porto, já
se sabe, por Jacobinos.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
Recolhido Luiz Paulino da sua expedição, foi metter-se em novos
trabalhos: em lugar de applausos pelos seus serviços, achou huma
cadêa, onde o encerrárão. Ao referido caso da carta ajuntavão-se
outras razões, e sobre tudo não podia o povo perdoar-lhe a grande
convivencia, em que o tinha visto com os Francezes no tempo, em que
estes governavão: menores que fossem os motivos, não escapava Luiz
Paulino á prizão. Não sei se todos estes factos se liquidárão, devo
porém accrescentar em abono da verdade, que sendo elle companheiro de
José Cardoso, não só na prizão, mas tambem no processo, tiverão ambos
sentença de absolvição.
[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]
José de Sousa e Mello, homem rico, e deputado da junta da companhia
de vinhos do alto Douro, foi hum dos mais corridos pelo povo, como
partidista de Francez: cercárão-lhe tumultuariamente as casas, e
conseguindo elle fugir, divulgou-se que estava escondido no convento
das religiosas carmelitas, e este foi immediatamente cercado de
innumeravel povo. Dizião huns, que estava escondido em huma sepultura,
e por consequencia propunhão, que se revolvessem todas, até o acharem;
dizião outros, que se tinha disfarçado em habito de freira, e a esta
voz a multidão se dispunha a arrombar as portas do convento; insulto
que a Abadeça procurava evitar, fallando de dentro do povo á porta
fechada, mas o povo não a escutava. Acudio Raymundo José Pinheiro
ao tumulto, e a pezar do seu grande ascendente sobre a populaça,
esteve a pontos de ser sacrificado, ouvindo tambem sobre si a voz de
traidor. Raymundo nesta extremidade puchou por hum Crucifixo, de que
andava armado para semelhantes occasiões, e com elle nas mãos fez huma
exclamação, de que resultou entrarem todos a gritar: _Viva o nosso
Principe, viva o nosso Bispo, viva o senhor Raymundo José Pinheiro_,
e dissolver-se o tumulto.
De todos os procedimentos, e prizões sobre factos desta natureza, os
de maior vulto forão os respectivos a Candido, e Mariz: merecem hum
capitulo separado, nesta Historia.