A junta de Estremoz respondeo com a seguinte

Provisão.

_D. João por Graça de Deos, &c. e em seu nome a suprema junta

do Governo d’Além-Téjo em Estremoz. Faz saber a vós Presidente, e

Deputados da junta da villa de Campo-maior, que sendo vista a vossa

conta em data de 15 do corrente, em que demandaes os nossos votos

sobre a boa intelligencia entre esta, e essa junta, unindo-nos á

causa commum, em defeza da Religião, do Principe, e da patria, contra

o inimigo commum, os Francezes, se vos responde, louvando o vosso

zelo, e patriotismo, e que reinará sempre entre todas as juntas huma

boa harmonia, e concordia, para se conseguirem os importantes fins,

a que nos propomos. Em quanto se não vai estabelecer a grande, e

suprema junta no quartel general d’Evora, cuja presidencia se reunirá

no meu reverendo Arcebispo da dita cidade, e no Tenente-General dos

meus exercitos Francisco de Paula Leite, encarregado do Governo das

armas desta provincia, que ora he Presidente desta suprema junta, vos

ordeno, que não tomeis até nova resolução disposição alguma nessa

junta, que não seja na qualidade de particular governativa dessa villa,

fazendo-vos saber por ora, que deve haver huma exacta uniformidade de

soldos no exercito, regulando-vos pela minuta inclusa, assignada pelo

meu Deputado Secretario, no que diz respeito ao soldo dos soldados,

e officiaes inferiores: o que tudo vos hei por muito recommendado:

cumpri-o assim. O Principe Regente nosso Senhor o mandou pelos

Deputados abaixo assignados da sua suprema, e Real junta do Governo

do Além-Téjo. José Bento Augusto Lamego, Secretario, e Deputado da

junta a fez em Estremoz a 19 de julho de 1808. José Moreira Rodrigo de

Carvalho--Francisco José Marques Tervel._

Minuta, a que se refere a provisão.

_Dos soldos, que devem ter os officiaes inferiores, e soldados

interinamente. A cada huma destas praças se dará diariamente 120

rs., e hum pão. Estremoz em junta de 19 de julho de 1808. O Deputado

Secretario da junta José Bento Augusto Lamego._

Além de outros mais papeis, foi acompanhada a mesma provisão de humas

instrucções por artigos, que tinhão emanado directamente de Moretti,

com o titulo de _Apontamentos para intelligencia da suprema junta

de Estremoz_. Copiando-as, eu dou huma idéa exacta dos principios,

sobre que esta junta começou os seus trabalhos, e do complicado jogo, a

que se pertendia sugeitar o governo da provincia.

[Sidenote: 1808 Julho.]

1.^o _A junta do Governo de Estremoz deve ser reconhecida pelas de

mais particularidades da provincia, como primaz, tanto em attenção á

sua posição local, como por ser huma praça d’armas._

2.^o _Todos os seus decretos, edictos, patentes, nomeações, ordens,

&c. devem principiar na fórma seguinte: D. João por Graça de Deos

Principe do Brasil, Regente de Portugal, &c. e em seu Real Nome a junta

suprema d’Além-Téjo, &c._

3.^o _Em attenção a isto a junta suprema, e Vogaes, Presidentes della

terão o tratamento d’Alteza, por representarem a Augusta Pessoa do seu

Soberano._

[Sidenote: 1808 Julho.]

4.^o _Haverá em Estremoz as juntas seguintes, que deveráõ pelo menos

ser compostas de tres vogaes, e hum Presidente, o qual terá dois votos,

a saber: 1.^a junta militar, em que devem ser vogaes precisamente todos

os chéfes dos corpos militares, e o Intendente geral do exercito: 2.^a

huma junta de fazenda, em que precisamente devem ser vogaes alguns

lavradores ricos, commerciantes, assentistas, &c. e será presidida pelo

Intendente geral do exercito, sendo igualmente vogal o Thesoureiro

geral: 3.^a huma junta de aggravos, cujos vogaes serão advogados,

commerciantes, e precisamente alguns religiosos: a esta junta acudiráõ

todos os que se acharem aggravados pelas outras, devendo ser o ultimo

recurso a junta suprema. Estas tres juntas terão o tratamento de

Excellencia._

5.^o _Em todas as villas deve haver huma junta governativa, que

obedecerá só á junta suprema, pois que as tres acima mencionadas só tem

voto consultivo._

6.^o _Estas juntas das villas nomearáõ hum individuo cada huma, para

que as represente na junta suprema d’Estremoz, de que são vogaes natos:

he directamente a elles, que a junta suprema passará as ordens, que

devem executar-se nas villas mencionadas._

[Sidenote: 1808 Julho.]

7.^o _Sendo hum dos pontos essenciaes, a reunião de officiaes para

a formação dos corpos em defeza da patria, a junta suprema dará hum

gráo a todos os que se apresentarem debaixo das suas bandeiras. Esta

graça geral não impede, que se dê outro gráo áquelle, que tiver feito

serviços importantes, ou se lhes defira commando._

8.^o _He da maior consequencia o regulamento dos soldos militares,

pois não deve pretender-se, que sirva com honra, e estimulo aquelle,

a quem falta quasi a subsistencia; devendo suprimir-se a variedade de

soldos para hum mesmo gráo, pois deve suppôr-se, que todos os que tem a

honra de vestir uniforme servem com igual merecimento._

9.^o _A junta suprema deverá dispôr o alimento das tropas, e para

isso passaráõ a Estremoz de cada villa o número, que houver, ou se

possa haver de milicias, e ordenanças, devendo só ficar nos póvos os

mais precisos, por ser huma causa tão justa a que os reclama._

[Sidenote: 1808 Julho.]

10.^o _Cada villa disporá se paguem as tropas com a maior

escrupulosidade, nomeando para isso hum pagador, que deverá estar ás

ordens do Intendente da provincia._

11.^o _As tropas Hespanholas auxiliares serão pagas semanalmente ao

pret d’Hespanha: os chéfes de cada corpo se entenderáõ a este respeito

com o intendente geral do exercito._

12.^o _Deve cuidar-se em que nunca faltem comestiveis, e estes se

venderáõ por preços regulares._

[Sidenote: 1808 Julho.]

Era difficil montar todas as rodas de huma máquina tão composta,

principalmente em hum tempo, em que a escassez dos recursos não

permittia fazer senão pequenas cousas; todos estes estabelecimentos

ficárão sómente em palavras, e em papel, menos a junta suprema, que

nos dez dias de sua existencia trabalhou muito nos negocios da guerra:

a da fazenda durou hum dia. Além das villas de Borba, e Villa-viçosa,

submettêrão-se logo a Estremoz o Alendroal, Terena, Arraialos, Veiros,

Evora-monte, Vimioso, Souzel, Avíz, Fronteira, &c.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Principiou logo a reorganizar-se o regimento de milicias de Estremoz,

e levantou-se dos differentes corpos extinctos, e principalmente dos

regimentos n.^o 3.^o, e 15.^o o batalhão de voluntarios de Estremoz,

que dizem chegára a ter 600 praças, de que porém só entrárão 380 na

acção de Evora. Armárão-se tambem algumas tropas montadas em cavallos,

e eguas, e em Villa-viçosa a companhia de miqueletes de 100 praças.

Expedírão-se emissarios ao Algarve, e a Badajoz, pedindo-se soccorros

principalmente em armamento: do Algarve vierão sim respostas favoraveis

do General, e da junta, mas não soccorros, nem para isso houve tempo;

de Badajoz entrárão com effeito alguns corpos de tropa, e hum parque

de 5 peças de artilheria, e hum obuz, servido por 60 artilheiros

Portuguezes, que tudo marchou depois para Evora. Mandárão-se vir

petrechos de guerra dos armazens da praça de Mourão, e trabalhou-se

em reparar o que pôde aproveitar-se dos que os Francezes tinhão

innutilizado.

Os armazens de Estremoz estavão fornecidos de 17$, ou 18$ espingardas,

muitas espadas, e pistolas, e immensa quantidade de polvora: tudo

mandou Kellerman destruir na sua retirada para Lisboa; mas não se

executou bem esta ordem, porque exigia muito trabalho. Os canos das

armas de fogo ficárão pela maior parte em bom estado, nas coronhas

era a maior ruina, e os fechos tinhão sido lançados de monte na

cisterna; andárão-se agora tirando, e se arranjárão até o ataque de

Evora humas 600 espingardas capazes de servirem. A polvora tambem se

tinha lançado na cisterna, e alguma foi amassada com barro; mas ainda

se aproveitou huma grande quantidade della, que ficára em estado de

poder beneficiar-se. Todas estas disposições, e outras mais ficárão

embargadas pelos successos, que rápidamente se seguírão, nos quaes vou

agora entrar.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 17 / 42 题