CAPITULO XXXIII.

_Nova expedição dos Francezes contra as provincias do norte, e

destruição de Nazareth, e mais povoações adjacentes. As tropas

Francezas retrocedem de Leiria, e tomão differentes destinos. Notavel

assassinato em Lisboa._

[Sidenote: 1808 Junho.]

EM Santarem achou Loison ordem de Junot, para tomar o commando de huma

nova expedição contra as provincias do norte de Portugal, e era o

maior esforço do seu poder vacillante. A sua força sobia a 10$, ou 12$

homens, conduzidos por Kellerman, e Thomieres, indo tambem Brenier,

Solignac, e outros Generaes, tomando Alcobaça por ponto de reunião.

[Sidenote: 1808 Junho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Foi nesta occasião que Loison obrigou Kellerman a repôr ao Prelado

do convento dos Padres Bernardos as cem moedas, que lhe tinha

extorquido:[7] eis-aqui o facto. Kellerman chegou primeiro, e

servia-lhe de lingua Vanzeller, ex-frade grillo, que desde estes tempos

adquirio hum nome odioso, pela sua adhesão ao partido Francez: o Geral

tinha fugido, e consequentemente Vanzeller se dirigio da parte de

Kellerman ao Prior, pedindo-lhe 50$ cruzados, e dizendo sem rodeios,

que os Generaes o que querião era dinheiro. Desculpando-se o Prior,

que o não havia, porque tudo se achava esgotado com as requisições

precedentes, Vanzeller lhe replicou, que sacrificasse tudo o que

havia no convento, e que com isso fazia a sua fortuna, porque lhe não

tardaria muito a nomeação de Patriarca de Lisboa; depois de muitas

altercações vierão a ajustar-se em cem moedas, com as quaes se satisfez

Kellerman. Estas gentes pedião sempre com largueza; mas quando se lhe

não proporcionavão os meios de haver por manhas ou por força tudo o que

querião, acceitavão o que se lhes dava. Chegou Loison no dia seguinte,

(15 de julho) e fazendo vir á sua presença o Prior, perguntou-lhe com

semblante carregado, que dinheiro lhe extorquira Kellerman: o Priori o

quiz occultar, porque nada mais desejava, que o ver-se livre de hum, e

de outro; mas as instancias, e mesmo as ameaças de Loison o obrigárão a

depôr a verdade. Prometteo-lhe então Loison, que promptamente lhe faria

restituir aquelle dinheiro, recommendando-lhe ao mesmo tempo, que se

o mesmo, ou algum outro General lhe fizesse semelhantes extorções, o

avisasse, escrevendo-lhe a qualquer parte, onde elle Loison existisse.

Com effeito o secretario de Kellerman foi pouco depois de entregar as

cem moedas ao Prior com todos os sinaes de humilhação, e queixando-se

amargamente de Loison, que andava intrigado com Kellerman.

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Na noite de 14 para 15 fez Thomieres huma digressão para as partes de

Nazareth, com o fim de destruir, e saquear as povoações daquella costa,

com hum corpo de 3$ homens, e algumas peças de artilheria, as quaes

não chegárão a servir. Dividio esta tropa em tres colunas, de que huma

pôde, ao abrigo das trévas, metter-se debaixo da nossa mal servida

artilheria, em quanto as outras se encaminhárão á povoação pelo centro,

e pelo pinhal, que lhe fica á direita. Logo que os nossos presentírão

a sua marcha, lhes fizerão algum fogo, mas sem direcção determinada;

as mesmas trévas porém, que os inhabilitavão para fazerem pontaria,

os favoreceo tambem, e ao povo, para se refugiarem pela beiramar para

a parte do pinhal. Ficárão sómente, por embriagados, ou por incautos,

huns poucos dos que servião de artilheiros, e tambem huma mulher, e

alguns velhos, que todos forão espingardeados junto ás peças, excepto

hum, que os Francezes reservárão, para lhes servir de guia, que ainda

depois quizerão espingardear no terreiro de Alcobaça, e escapou á força

de rogativas, e de protestos.

Entrárão pois os Francezes em Nazareth, que entregárão ao saque,

e ao fogo; mas este sómente se ateou em 13, ou 14 casas. O famoso

templo de N. Senhora de Nazareth, hum dos mais frequentados, ricos, e

respeitados de Portugal, e que os nossos Monarcas tem tomado debaixo

da sua immediata protecção, foi roubado, e profanado. Levárão-lhe os

seus ornamentos ricos, joias, dinheiro, e preciosidades: despedaçárão o

mais, quebrárão huma imagem do Menino Jesus, acutilárão hum Crucifixo,

fizerão o orgão em pedaços, comprehendêrão no roubo os vasos sagrados,

e lançárão por terra o Santissimo Sacramento.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Descêrão á praia, e aqui foi a maior destruição. De trezentas, ou mais

casas, que comprehendia a povoação deste lugar, sómente escapárão

quatro, as mais ficárão reduzidas a cinzas; e não deixárão rede, ou

barco que não queimassem. Foi do número das casas incendiadas huma

barraca, que alli tinhão os Padres Bernardos, a qual lhes servia de

casa de arrecadação dos direitos do pescado, escapando a capella, da

qual tirárão varias imagens de Santos, que espingardeárão no areal,

onde depois forão achados os fragmentos.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Voltárão á Pederneira, saqueárão a povoação, e duas igrejas,

lançando-lhe tambem o fogo; que com tudo fez aqui menos estrago.

Entrárão finalmente em Alcobaça cheios de presumpção, e de alegria,

como se viessem de ganhar huma grande victoria, e podendo só gloriar-se

de terem feito daquellas povoações montes de cinzas, e reduzido os seus

numerosos habitantes aos extremos da miseria, não só pela destruição, e

roubo de suas casas, e quanto tinhão nellas, mas tambem pela sensivel

perda dos seus barcos, e redes, sendo quasi tudo pescadores. Avalia-se

a perda em mais de 500$, ou 600$ cruzados; o que não admira, porque em

mais de 200$ se calculão os diamantes, e preciosidades do templo de N.

Senhora de Nazareth. Não posso deixar de lastimar, que os encarregados

da sua administração, e das chaves do cofre não tivessem dado as

providencias, para salvarem, como podião, estas riquezas.

Derão os inimigos idéa de quererem continuar a mesma devastação por

todos os coitos de Alcobaça, pois que o seu delicto era o mesmo;

servio-lhes porém de resgate o dinheiro usurpado ao convento.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Continuou a expedição pela estrada de Leiria, onde foi causar novos

sustos, e principiar novo saque, o que fez que os seus habitantes a

tornassem a deixar deserta. Passárão os Francezes além da cidade, e

acampárão no alto das Olhalvas: seu destino era sem dúvida varrerem, e

punirem os _rebeldes_ da Beira, como Junot tinha feito publicar

na gazeta de 14 de julho, mas os Generaes não se atrevêrão a passar

mais adiante, aterrados com a noticia de que o exercito grande (era

o imaginario exercito Hispano-Portuguez, em que tanto se havia

fallado) já estava no Pombal. O que tinha chegado a esta villa era

hum piquete de Academicos com algum povo, que chegárão a adiantar-se

até os Machados, deitando foguetes, e fazendo muita bulha. Era em

huma madrugada, tendo já os Francezes passado duas noites, e hum dia

naquelle acampamento, e cuidando provavelmente Loison, que outra vez

lhe cahia em cima o Pezo da Regua, fez levantar as suas tropas, e

retrocedeo com ellas, deixando no rocio de Leiria, em sinal da sua

precipitação, alguns barris de bolacha.

Loison seguio a estrada nova para Lisboa, Thomieres veio procurar as

suas antigas posições de Caldas, Obidos, e Peniche, seguindo tambem

Kellerman este caminho por Alcobaça; e agora o veremos com o Prior dos

Padres Bernardos. Incendios, raios, mortes he o que podia esperar-se;

mas teve Kellerman a bondade de se accommodar com cento e doze moedas,

em lugar das cem que Loison lhe tinha feito restituir.

[Sidenote: 1808 Julho.]

A 20 desembarcou Loison em Lisboa junto ao terreiro do paço por entre

hum numeroso povo, que alli concorreo, pela expectação que causava a

chegada deste homem célebre, que por muitas vezes se tinha julgado

morto. Todos querião desenganar-se, se era verdade, que alli vinha o

Maneta: desenganárão-se, e tiverão o desgosto de o verem passar, e os

seus soldados com as mochillas recheadas dos fructos de tantos saques.

[Sidenote: 1808 Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Não lhes permittio Junot muitos dias de descanço. A 23 passou elle huma

apparatosa revista geral de todas as tropas no centro de Lisboa, onde

ficárão designados os corpos para huma nova expedição para o Além-Téjo,

que havia de partir a 25, commandada pelo mesmo Loison, levando tambem

Margaron, e Solignac por subalternos. O rocio, o terreiro do paço, as

ruas augusta, e aurea, a do arsenal, e o largo do pelourinho virão-se

repentinamente, e sem se conhecer o fim, cobertos de tropas, por entre

as quaes passou Junot acompanhado dos seus Generaes, e do seu estado

maior com todo o apparato de hum guerreiro. Durou a revista desde as 5

até as 8 horas da tarde, e entretanto toda a Lisboa tremeo de susto: he

o que pertendia Junot, que não desprezava meio algum de inspirar terror

aos póvos, para os manter quietos.

Foi sem dúvida com as mesmas vistas que elle mandou commetter no dia

24 o assassinato, que vou referir. Que he a morte de hum miseravel

desconhecido no meio de tantos estragos, e tanta carniceria, como

temos visto? Com tudo este assassinato praticado no centro da capital

do reino causou grande sensação pelas suas circunstancias. Havia em

Lisboa hum homem chamado Manoel José, que tinha sido empregado havia

annos em correio no serviço do arsenal da fundição, e desde muito tempo

se reputava por mentecapto, até por extravagancias do seu vestuario,

com que se fazia muito célebre: estas extravagancias, ou o matárão, ou

servírão de pretexto para isso. Foi encontrado no mencionado dia (era

hum domingo) junto á igreja de Santos, vestido com huma jaqueta branca,

toda cheia de laços, ou bocadinhos de fita encarnada; immediatamente

o prendêrão, e conduzírão a casa do General De-Laborde, Governador de

Lisboa, onde concorreo Lagarde, e se lhe fez hum conselho de injustiça,

de que resultou ser fuzilado no meio do terreiro do paço contra a

estatua equestre. As fitinhas passárão por insignias da revolução, e

o mentecapto por emissario dos insurgentes; e com tanta presteza se

adquirírão as provas, e se lhe fez o processo, que sendo prezo pelas 10

horas da manhã, nesse mesmo dia cessou do existir ás 3 da tarde.

Tal foi o apparato, taes os auspicios, com que sahio de Lisboa a

expedição, que foi cobrir de sangue, e de estragos as ruas de Evora.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 12 / 42 题