_A revolução se estende pela provincia da Extremadura. Levantamento
de Thomar, e outros successos analogos._
[Sidenote: 1808 Junho.]
[Sidenote: 1808 Junho.]
HUMA das primeiras terras da Extremadura Portugueza, onde a revolução
penetrou, foi Thomar, villa assás consideravel, e mui célebre na nossa
historia, situada em hum paiz, tão fertil, como agradavel, que o Nabão
rega com as suas aguas, hum pouco acima d’onde se mistura com o Zezere.
O sopro vinha descendo das provincias do norte; mas nos habitantes da
propria villa estava a disposição, para o receberem, e elles fizerão o
rompimento, sem auxilio algum estranho, não obstante a visinhança dos
invasores, que ainda conservavão guarnições em Santarem, e Abrantes.
[Sidenote: 1808 Junho.]
Havia em Thomar alguns daquelles homens turbulentos, que se nutrem do
transtorno geral do Estado, ou por indole, ou porque pertendem achar
fortuna na subversão da ordem social; mas havia tambem daquelles,
que debaixo mesmo dos cutéllos inimigos ousavão levantar a cabeça, e
proclamar os direitos do Soberano, e da patria. Na loja de hum mercador
se ajuntavão varios individuos d’ambas estas classes, e da fermentação,
produzida pelas suas idéas oppostas, sahio o feliz resultado da
restauração. Em hum dos ultimos dias de junho cahio a conversa sobre a
gazeta de 3 do mesmo, que appareceo sobre o mostrador; e apoiando hum
dos máos vassallos com muito calor as sordidas, e indignas declamações,
que ella contém no artigo de Lisboa, contra o legitimo Governo do
Principe Regente, acrescentando, que já estavão livres delle, e da
Inquisição, não pôde o Padre Fr. Manoel da Pesqueira reprimir a cólera,
que lhe inspirava este procedimento infame: arrancou huma faca da
manga, e a cravou sobre o mostrador, gritando, que a cravaria da mesma
fórma em todo o que se atrevesse a fallar contra o seu Principe, e
Religião. Parece, que tambem ia tirando huma pistola, e se dispunha
a punir alli mesmo a audacia do fallador, quando o contiverão, e a
companhia se desfez em confusão.
[Sidenote: 1808 Junho.]
O Padre era hum religioso Franciscano natural de S. João da Pesqueira
na provincia da Beira, e morador no convento da Annunciada de Thomar,
para onde se recolheo muito desafogado, em quanto os mais assistentes
tremião de medo, pelas consequencias, que erão de recear de hum
acontecimento desta natureza, que em poucos momentos foi sabido por
toda a villa. Residia alli nesse tempo Timotheo Verdier, o mesmo,
de que fallei em outro lugar, e foi instado para interpôr os seus
officios para com os seus compatriotas Francezes, a fim de que se não
procedesse; fosse porém qualquer a parte, que elle tomou no negocio,
o que resultou foi apparecerem em Thomar no dia 30 quasi ao escurecer
oito officiaes do Corregedor mór da provincia, residente em Abrantes,
para prenderem o Padre Pesqueira.
[Sidenote: 1808 Junho.]
Deixárão anoitecer, e encaminhando-se ao convento, intimárão as suas
ordens ao Guardião, o qual deixando cear o Padre no refeitorio, segundo
o costume, o chamou depois á portaria, para o entregar aos officiaes;
mas elle, que andava sempre com olho vivo, apenas os descobrio,
fez-lhes huma cortezia, e virou costas, correndo apressadamente á sua
cella, a tomar as suas armas, e fogindo por hum lugar da cerca, onde
não foi visto, não obstante o achar-se já rodeada de guardas. Então os
officiaes se tornárão contra o Guardião, e o levárão prezo.
Já o tinhão conduzido até á ponte, e tratavão de montarem nas suas
bestas, para o levarem a Abrantes; mas amotinando-se entretanto o povo,
que já dias antes andava em fermentação, ahi mesmo lhes foi tirado das
mãos, e elles obrigados a voltarem mais depressa, do que tinhão vindo;
levando na verdade inteiras as suas costellas, em attenção a serem
Portuguezes.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Com este acontecimento principiárão os vivas, e acclamações, em que
o povo de Thomar se occupou o resto da noite, sem outros successos
notaveis, que o descobrimento das armas Reaes em alguns lugares, e o
pôrem-se a caminho para Coimbra o Juiz do povo Antonio d’Evora, e duas
ou tres pessoas das que tinhão mostrado mais calor a pedirem soccorros,
pois em Thomar faltavão absolutamente os meios de se sustentar o
levantamento. Tambem houverão algumas vozes populares contra os que
chamavão Judeos, (erão todos os que se sopunhão do partido Francez) mas
sem resultado de grande consequencia. Os Magistrados dos ao principio
não se intromettêrão com estes actos, nem para os auxiliarem, nem para
se lhes opporem, o que na verdade os não desdoura no estado, em que se
achavão as cousas; porque o tempo, e as circunstancias do rompimento
não deixavão entrever senão hum exito desgraçado; mas passados alguns
dias elles apoiárão os movimentos do povo, e o Juiz de fóra Vicente
Paulo de Araujo teve tambem de partir para Coimbra, assim como hum
dos Vereadores, e Antonio do Valle de Sousa e Menezes, a quem o mesmo
povo tinha deferido o commando; porque o estado indefenso, em que se
achavão, e a marcha de alguns corpos inimigos, que então se movião das
visinhanças de Lisboa, fazião indispensavel, que se apressassem os
soccorros; e infelizmente em Coimbra não havia ainda que repartir.
[Sidenote: 1808 Julho.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
Eu me admiro de que em huma relação, que corre impressa, se estabeleça
a época da acclamação, e descobrimento das armas Reaes em Thomar no
dia 9, quando sou testemunha occular de que tudo isto estava concluido
desde 2, ou 3 de julho. Fogindo de Lisboa com a minha familia para as
provincias, em que já se respirava livre, como fazião todos os bons
Portuguezes, que tinhão meios para isso, apezar das apertadas ordens
do governo intruso,[1] eu passei por aquella villa no dia 3. Alli pude
em fim entregar-me com liberdade aos primeiros momentos de prazer no
meio de hum fiel povo, que depois de 7 mezes de captiveiro acabava
de quebrar os seus ferros, e se desfazia em ternos vivas ao legitimo
Soberano. Tudo andava já ornado com o tope nacional, sem excepção
de pessoa alguma, e alli me ornei tambem, e a todas as pessoas da
minha comitiva com esta insignia. Vi trabalhar no descobrimento das
armas Reaes do convento de Christo, vi dar as ordens, para se pôrem
vigias em todos os pontos, por onde o inimigo podia penetrar, e achei
algumas já estabelecidas, vi em fim cuidar em todas as disposições de
defeza, que o estado da terra permittia. Mas tudo era ainda confusão,
figurando sómente a authoridade do Juiz do povo, então residente em
hum substituto do que havia partido para Coimbra, que a exercitava
principalmente no rigoroso exame dos passageiros, deixando ao povo o
mandar, e obrar, como a cada hum parecia; por cujo motivo aconselhei
a alguns daquelles, com quem tratei, que cuidassem em organizar hum
governo, a que todos obedecessem, senão querião ver destruida em breves
momentos a sua obra; e fui então sciente de que já se andava tratando
de o conferirem, como realmente conferírão, a Antonio do Valle.
Continuando a minha jornada pela estrada do Espinhal, encontrei já
revolucionados todos os póvos, por onde passei, vendo-me suspendido a
cada passo pela severa policia dos paizanos, para os seus exames, e
tendo de atravessar por entre os chuços, e espingardas velhas das suas
sentinellas, e dos seus corpos de guarda, que guarnecião a estrada, e
de fazer muitos rodeios, por causa das trincheiras, e cortaduras, que
nella se havião formado. Á entrada do destricto de Cham-de-Couce estava
a maior destas barreiras, commandada por hum official militar, de que
sinto ignorar o nome, pela extraordinaria actividade, e enthusiasmo,
que manifestava. A poucos passos encontrei o Corregedor da comarca
José Firmino da Silva Giraldes, que andava visitando de cavallo os
differentes postos, acompanhado de muitos officiaes civís, e militares.
Aqui já se executavão as ordens de Coimbra.
[Sidenote: 1808 Julho.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
Presenciei tambem alguns symptomas destas commoções vertiginosas, que
a desconfiança, e a effervescencia popular fizerão tão geraes por toda
a parte do reino nesta revolução; mas tive occasião de igualmente
observar por experiencia, o que a razão dicta a todo o homem cordato,
que quando ás suspeitas se não ajunta a malignidade, são a prudencia, e
o bom modo hum excellente salvo-conduto em taes conjuncturas. Este foi
o escudo, que me livrou de ser molestado em toda a minha jornada, tendo
hum magistrado, que as suas cans fazião respeitavel, e seguia a mesma
estrada, experimentado huma sorte bem diversa quasi aos meus olhos
no lugar dos Cabaços, por causa de huma resposta imprudente do seu
boleeiro. Foi maltratado de palavras, e de mãos, e o caso chegaria a
maiores excessos, se não impozesse ao povo tumultuoso a presença de sua
mulher, que tendo-se já recolhido a huma estalagem, sahio desgrenhada,
e correu pelas ruas, clamando que lhe não matassem seu innocente
marido.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Com tudo eu estive a pontos de não poder jactar-me de ter sahido
sempre illeso: huma visita, que fiz ao Prior da villa de Miranda, para
o qual levava huma carta de hum amigo de Lisboa, me ia implicando em
circunstancias arriscadas. O Corregedor mór de Coimbra, retirando-se
desta cidade, tinha-se hospedado em casa do Prior, o que atrahio sobre
este as suspeitas, e a indignação do povo. Teve de ir a Coimbra, onde
se justificou plenamente perante o Governador; mas a intriga de hum seu
inimigo continuou a trabalhar contra elle, e eu passei por nada menos,
que hum General Francez. Ainda se expediu huma escolta no meu alcance,
que felizmente me não encontrou, porque lhe levava algumas horas de
dianteira.
Estas miudezas pareceráõ por ventura impertinencias na presente
Historia? Eu escrevo para os leitores sensatos, e pensei não poder
dar-lhes huma melhor idéa dos principios da revolução nesta parte
do reino, do que referindo os factos, que eu mesmo presenciei,
e aproveitando tudo aquilo, que mais os póde interessar, as
circunstancias, que dão a conhecer a indole da revolução, o caracter,
e o espirito dos póvos, que a fizerão. Voltarei agora os olhos para a
parte de Leiria, e Nazareth, em cuja direcção ainda cheguei a ouvir de
alguns lugares mais elevados o estrondo da artilheria.