E o grande poeta da Polonia respondeu: «Um povo destinado a ser o bardo
e o menestrel de toda a raça slava.»
J. Reinach sae em abono d'esta opinião confirmando-a: «O caracter servio
é essencialmente poetico, e a sua poesia não se traduz apenas nos
_pesmas_, nos hymnos nacionaes que acompanham na _guzla_, encontra-se
ainda na religião, nas cerimonias do culto, nas festas, na organisação
da familia, nos casamentos, na coragem heroica dos combates, nos sonhos
de uma vida melhor. Se queremos procurar a causa d'este caracter dos
slavos, devemos attentar no paiz que elles habitam. O povo que tem a
Servia por patria, não podia deixar de ser, como disse Miçkiewiez, senão
um povo de bardos e menestreis, e, nas horas de perigo nacional,
um povo de heroes. As florestas sombrias e profundas, as quebradas dos
valles, as altas montanhas com as suas cristas inaccessiveis e os seus
bosques de castanheiros, os _Schumadia_, as margens accidentadas dos
rios, toda essa natureza selvagem e pittoresca contém e inspira
thesouros de poesia.»
Na familia servia o sentimento da fraternidade é talvez o mais
desenvolvido, «Não ha uma joven servia sem irmão» diz uma velha lei.
Quando a noiva deixa o lar da sua familia, é pelos irmãos que ella chora
lagrimas semelhantes a _bagos que se destacassem de um cacho maduro_. A
canção do desgraçado Iowo diz assim:
«O moço Iowo cahiu, porque o sobrado da casa abateu, e partiu o braço
direito.
«Quem o curará? Só a feiticeira da montanha, que conhece a fundo a
virtude das plantas; mas a feiticeira exige muito. Pede á mãe a sua
branca mão direita; á irmã as tranças do seu cabello; á mulher o seu
collar de perolas...
«A mãe dá, com a melhor vontade, a sua branca mão direita, a irmã dá as
tranças do seu cabello, mas a mulher recusa o seu collar de perolas...
«Agasta-se a feiticeira que vive na montanha, e lança veneno nos
alimentos de Iowo. Iowo morre com grande pezar de sua mãe.
«Ouvem-se então gemer trez cucos: um que não deixa jámais de
lamentar-se; outro que só se faz ouvir pela manhã e á noite; e o
terceiro, que sómente geme quando lhe apraz.
«Qual é o que não deixa jámais de ouvir-se? A desgraçada mãe de Iowo. O
que sómente se ouve pela manhã e á noite? A irmã de Iowo, profundamente
afflicta. E o que só geme quando lhe apraz? É a joven viuva de Iowo.»
O casamento entre os servios é livre, o resultado do _mutuus consensus_.
O rapaz apresenta-se em casa do pae da namorada, a pedir-lhe a mão da
filha. Obtida que seja, dá lhe o annel, penhor do casamento, porque um
antigo _pesma_ diz: «Como testemunho de amor, dá-se um pomo; como
perfume, um mangerico;--mas o annel só se dá para casar.»
Se a donzella quer recusar o noivo, arremessa-lhe o pomo á cara,
dizendo: «Não te quero a ti nem ao teu pomo.»
Excepcionalmente, algumas vezes, os paes procuram para suas filhas
casamentos ricos. Os _pesmas_ protestam contra esta excepção. A pobre
rapariga caminha descalça sobre o gelo, tiritando, e o irmão
pergunta-lhe: «Tens frio nos pés, querida irmã?» E ella responde: «Não!
não tenho frio nos pés, meu irmão, mas sinto um frio glacial no coração.
Não é a neve que me molesta, é minha mãe que me quer dar por esposo
aquelle que eu aborreço.» Uma outra canção diz: «Vivia na
montanha uma donzella, e toda a montanha era illuminada pela belleza de
seu rosto. Ó meu rosto, dizia ella, ó meu unico cuidado, se eu soubesse,
meu branco rosto, que um velho marido te devia beijar, oh! iria á
montanha verde e colheria o absyntho, espremeria o seu suco e
lavar-te-hia com elle, meu rosto, a fim de que o velho, quando te
beijasse, lhe sentisse o amargor. Mas se eu soubesse, meu branco rosto,
que um joven marido havia de te beijar, oh! então iria ao verde jardim,
colheria todas as rosas e das rosas espremeria o suco para te lavar, meu
branco rosto, a fim de que o joven noivo, quando te beijasse, ficasse
perfumado do teu perfume.»
O casamento, revestido ainda de todos os symbolos primitivos, exige que
os irmãos e amigos da noiva a acompanhem á sua nova casa, a cavallo, ao
som de musica, entoando canticos e dando tiros. As irmãs e as cunhadas
vem então ao encontro da noiva, que se adeanta para ellas:
apresentam-lhe uma creança que ella deve vestir, bem como deve offerecer
aos convidados pão, vinho e agua. Só quando dá á luz é que a noiva passa
a ser considerada como fazendo parte da familia. Recebe um dote, que os
servios chamam _persia_. Quando a noiva já não tem pae, é o irmão que
deve pagar o dote, sempre fixo, e de que o marido não póde fazer uso.
Mas, circumstancia verdadeiramente notavel! quando uma rapariga
casa sem auctorisação dos pais, a sua união é considerada legitima, pois
que tem por base o amor.
Assim é que diz uma canção:
«Eu queria pedir a tua mão, mas teu pae não me quer para genro, e eu só
não te posso roubar. Escuta as minhas supplicas, vem para mim, que t'o
peço eu.--Bello amigo, é inutil pedir a minha mão; meu pae
recusar-t'a-ha. Não penses em roubar-me, porque tu o pagarias, meu bem
amado. Tenho nove irmãos e numerosos primos; quando elles montam nos
seus cavallos negros, com as suas finas espadas na mão, só vel-os causa
horror. Não quero que tu morras combatendo com elles; e se fugisses, não
mais te poderia ouvir. Amo-te. Chama-me, eu irei voluntariamente
lançar-me nos teus braços.»
Os funeraes são, entre os servios, tão poeticos como o casamento. Quando
morre alguem, os parentes levantam grande alarido; os homens saiem
descobertos durante alguns dias; as mulheres deixam fluctuar os cabellos
e os vestidos. Os homens choram silenciosamente, mas as mulheres, desde
o dia da morte até ao do enterro, não cessam de _naritsati_, quer dizer
de cantar em voz alta a sua dôr, pranteando a sorte do morto e dos seus.
«Ai! ai! trava-se na minha alma um terrivel combate! Volto os meus olhos
para o anjo luminoso de Deus, e exclamo: Fazei com que a minha
vida seja curta. Mas Deus não me escuta. E eu, ai! contemplo o oceano da
vida, de que as más paixões são as vagas, e em vão desejo abordar a
porto e salvamento.»
Segue-se a cerimonia dos funeraes, sendo o esquife do morto conduzido ao
cemiterio pelos amigos. Quando o féretro desce á sepultura, um sacerdote
lança-lhe em cima um punhado de cinzas, e as mulheres recomeçam a
prantear longa e tristemente. Cada anno ha um dia consagrado aos mortos:
é o Zaduchnitzi.
Os servios, como diz Theophilo Lavallée, formam a população christã mais
importante da Turquia, pela dignidade e gravidade do seu caracter, pela
sua coragem, bondade, generosidade, costumes patriarchaes, amor á
patria, usos e religião.
A festa dos ramos é a primeira do anno: celebra o advento da primavera.
As raparigas juntam-se n'uma collina e cantam o hymno da resurreição de
Lazaro: «A creança cresce, o homem vive, o velho morre n'esta ideia:
quando virá o imperio servio?» No dia seguinte, antes de nascer o sol,
vão buscar agua e cantam em côro: «As pontas do veado tornam a agua
turva, mas o seu olhar torna-a clara e limpida.»
Esta canção deve ser interpretada n'um sentido mythico.
O veado, cujas pontas tornam a agua turva, é o inverno, o tempo
brumoso. Gubernatis, fallando do veado mythico, diz-nos que ha o veado
negro, que symbolisa o céu coberto de nuvens, e o veado luminoso, que
figura em muitas lendas da India. Ora n'esta canção servia, o olhar do
veado, que torna as aguas claras e limpidas, deve ser considerado como o
triumpho alcançado pela primavera sobre o inverno.
Reinach diz que as raparigas servias saúdam no regresso da primavera a
volta dos tempos felizes para o amor, entoando canções notavelmente
simples, taes como esta: «Dois amantes beijaram-se na campina, e
julgavam que ninguem os teria visto. Mas a campina viu-os, e contou tudo
ao branco rebanho, que o repetiu ao pastor; o pastor disse-o ao
viandante, o viandante ao marinheiro, que por sua vez o contou á barca.
A barca foi dizel-o ao rio, e o rio á mãe da rapariga.» Os leitores de
um livro meu, _Atravez do passado_, conhecem já a ideia fundamental
d'esta canção encantadora, que se encontra tambem na Grecia, e que tem
sido glosada por distinctos poetas, entre os quaes o allemão Chamisso.
No fim de abril realisa-se a festa de S. Jorge, um dos patronos da
Servia. As mulheres vão ás montanhas colher hervas e flores, que lançam
depois ao rio, onde no dia seguinte se banham. É assim pois que os
servios, como os outros povos slavos, celebram o advento da
primavera.
Vem immediatamente a festa de Kralitza, em que as donzellas festejam
Lelio, a Venus da Servia, a deusa do amor.
Segue-se o S. João, o tempo da canicula, em que, como diz a lenda, o sol
parou outr'ora tres vezes. Se o anno tem corrido sêco, procede-se a uma
cerimonia verdadeiramente original: uma rapariga, cujos vestidos
consistem apenas n'uma ligeira tunica de folhas e flores, percorre,
acompanhada por outras, os campos, que vae aspergindo com um regador,
pedindo ao céu uma chuva fecundante, invocando o sol e a lua: _«Tako mi
Suntza!_ (o sol) _Tako mi Semlie_ (a lua)! Que o sol seja comigo! Que a
lua me proteja! Ligeiras corremos atravez da aldêa; possam as nuvens do
ceu, mais rapidas do que nós, beneficiar os prados e as vinhas. _Tako mi
Semlie._» Quando, pelo contrario, o anno tem corrido chuvoso, os
habitantes do campo imploram o auxilio de Elio, que não é senão o sol.
As festas domesticas na Servia têem um caracter deliciosamente intimo.
Os viajantes, os estranhos são sempre recebidos com amavel
hospitalidade. O chefe da familia, quando o repasto se realisa, entôa a
canção de Batschka: «Tres passaros desferiram vôo atravez do espaço,
levando cada um no bico um presente precioso: o primeiro, um grão de
trigo; o segundo, um bago de uva; o terceiro a alegria e a
felicidade. O grão de trigo caiu sobre a planicie de Batschka, o bago de
uva sobre as montanhas de Gore; possam sobre a nossa mesa caír a alegria
e a felicidade.»
Mas de todas as festas domesticas da Servia, o Natal é a mais solemne.
Ao fim da tarde, terminado o trabalho, o pae de familia vae á floresta
cortar um carvalho novo e, pondo-o ás costas, volta para casa. Quando
entra, exclama:
«Boa noite! feliz Natal!»
E a familia responde: «Que Deus te proteja, e te dê boa colheita!»
Depois, o carvalho (badujak) é posto no fogo. No dia seguinte, a gente
moça percorre a povoação a cavallo, disparando tiros de pistola. E o pae
de familia, apparecendo á janella, atira para a terra alguns grãos e
sementes, dizendo: «Natal! Natal! Christo nasceu.» Ao que os moços
respondem no estylo do Evangelho: «Em verdade nós vol-o dizemos, Christo
nasceu.»
Então, todas as familias se juntam em torno do carvalho que arde,
açoitando-o com correas; e quando as faiscas saltam, exclamam: «Tantas
faiscas, quantos bois, cavallos, cabras, carneiros, porcos, abelhas e
bençãos do ceu teremos este anno.»
A festa do Natal dura tres dias. E até que entre o novo anno, toda a
gente se saúda, dizendo: «Christo nasceu!» e respondendo: «Em
verdade, nós vol-o dizemos, Christo nasceu!»
A universalidade das crenças populares é realmente um facto admiravel!
Assim como os servios tem o _badujak_. temos nós, nas provincias do
norte, e citaremos para exemplo o concelho da Maia, arrabalde do Porto,
o carvalho do Natal, que tambem se põe no fogo e que no fim da noite se
guarda para tornar a accender-se em occasião de tempestade.
A Servia é decididamente o paiz das canções. Todos os seus habitantes
cantam. Em cada casa ha uma _guzla_, especie de mandolim ou guitarra,
que tem apenas uma corda de crina. Não ha festa sem canção e sem
_guzla_. A Europa occidental conhece de varias imitações ou traducções
muitas das poesias populares da Servia. Prosper Mérimée, tendo aprendido
cinco ou seis palavras de slavo, compoz em quinze dias um pequeno
romanceiro, que attribuiu a um imaginario tocador de _guzla_, Jacintho
Maglanovitch.
Na poesia servia relevam a riqueza das imagens, a ingenuidade dos
sentimentos, o ardor do patriotismo. A estrophe, sempre melodiosa, é
geralmente curta; e o acompanhamento da _guzla_ apenas a toma nos
ultimos versos. Os cantos nacionaes são compostos em trocheus; as
canções de amor admittem os dactylos.
No estudo da poesia servia ha a distinguir os _pesmas_ heroicos
que os homens acompanham na _guzla_, e as canções do lar, que as
mulheres e as raparigas entoam.
Foi só muito tarde que os servios começaram a escrever os seus _pesmas_.
Em conformidade com a theoria de Vico, a poesia, entre elles, precedeu a
prosa, que foi definitivamente fixada por Obradwitch, depois da primeira
metade do seculo passado.
Os slavos do sul só modernamente attingiram na litteratura a fórma
dramatica. Annibal Lusitch foi quem primeiro escreveu para o theatro,
começando elle e os seus imitadores per seguirem o rasto dos poetas
italianos, Metastasio, Alfieri, Guarini. Foi Estevão Popovitch quem
comprehendeu que os assumptos nacionaes convinham ao theatro. Entre as
suas producções merece especial menção a comedia _Belgrado na
antiguidade e em nossos dias_, que teve um grande successo nos theatros
provisorios levantados em Agram e Belgrado. Popovitch foi pois o Eschylo
da Servia; Martinho Ban, auctor dos dramas _Lazaro_ e _Meirima_, póde
ser considerado o Sophocles servio. A _Meirima_ tem por assumpto o amor
de um christão por uma mussulmana, assumpto que, posto fosse tratado por
Voltaire e Byron, offerece comtudo um certo encanto de execução.
Entre as creações phantasticas da poesia popular da Servia devem
contar-se as _vilas_, a que chamamos _feiticeiras_, á falta de
melhor vocabulo, mas que são creaturas mysticas, que presidem aos votos
do povo e que pairam silenciosamente sobre a existencia dos homens. São
ligeiras e bellas, diz Reinach; o vento brinca, passando, com os seus
longos cabellos. Habitam sobre as colinas, perto dos regatos, sobre o
Lotchen, cujo cimo, onde a tempestade ruge incessantemente, é coberto de
neves eternas.
Mas se as _vilas_ são os genios bemfasejos da Servia, existem, em
opposição a ellas, espiritos maleficos, que trabalham pela perdição do
genero humano. São os _viétchizés_ que, flucctuando nos ares,
surprehendem os pastores adormecidos, abrem-lhes o peito com uma vara
magica, fixam o dia da sua morte, comem-lhes o coração, fecham de novo o
peito das victimas e desapparecem.
Quando os pastores acordam, sentem-se abatidos, doentes. E pouco depois
expiram.
Mas uma das creações mysticas que mais impressionam a imaginação slava é
o _vampiro_, que se alimenta da carne dos cadaveres e do sangue dos vivos.
Entre os typos dos _pesmas_ heroicos, o mais notavel é Marko, o Cid e
Roland da Servia.
Mas, percorrendo o cancioneiro servio, são as canções de amor as que
mais nos encantam. Terminaremos este ligeiro artigo com uma canção
amorosa, que rompe dos labios de uma rapariga: «_Ó tchardak_
(leito), um fogo abrazador me devora: ninguem, durante a noite, está á
minha direita ou á minha esquerda; revolvo com o meu corpo a coberta, e
com a coberta as, minhas dôres.» E o namorado responde-lhe: «Ó Mileva,
assenta-te a meu lado. Nós não somos selvagens, nós sabemos onde se deve
beijar: as viuvas entre os olhos, as solteiras entre os peitos.»