Numa villa do Alemtejo, cujo nome não vem para o caso, havia um tendeiro
rico e avarento, que nem de verão nem de inverno se lembrava de atirar
uma migalha aos mendigos que lhe batiam á porta.
Um engeitado, um pária, um rapazote do sitio, tão pobre como ladino,
matutou na injustiça da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote
de camellão para se resguardar do frio, ao passo que só lhe dava a elle
o frio sem o capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das
coisas.
--Uma esmolinha, _tio_ Ambrosio, pelo amor de Deus... Está tanto frio!
dizia elle, tiritante, roçando-se pela hombreira da porta do
tendeiro.
--Sai-te d'aqui, maroto, que não quero espantalhos á porta, resmoneava
de dentro o tendeiro. Vae trabalhar.
--Não posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto!
--Que te leve o diabo e mais o frio.
No dia seguinte, o rapazito voltava. E, á força de teimar, o engeitado
ia conseguindo poder demorar-se mais tempo á porta do tendeiro sem que o
enxotasse já com tanta dureza.
De uma vez o Ambrosio precisou um recado.
--Olha lá, disse elle ao mendigo, já que não tens que fazer, vae-me ali
chamar o José da Azenha.
E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo
que o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camellão, ficou sentado
ao balcão da loja, olhando vagamente para os seus dominios.
Ao outro dia o rapaz voltou.
--_Tio_ Ambrosio, disse elle da porta, vocemecê não quer hoje algum
mandado?
O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que
parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graça ás pessoas ricas.
Em vez de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz
vinha pedir que lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preço.
--Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me chamar o Joaquim da
Rita, que preciso fallar-lhe por causa d'uma coisa.
Essa coisa, eram uns juros em atraso.
E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o
tendeiro, embuçando-se melhor no seu farto capote, disse lá comsigo que
sempre estava muito frio.
O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde então o
mais diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que
tocava a soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle não pedia. Mas
fôra a pouco e pouco captando a sympathia e a confiança do tendeiro, que
primeiro o deixou sentar á porta, e depois n'um banco dentro da loja.
Nos dias de mercado, em que havia maior labutação no estabelecimento, o
Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender á argola
as cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as
cascas dos ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balcão e
lavar os copos... uma joia, uma verdadeira joia... a sêco!...
O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que
de mais a mais não era pedinchão.
O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes
pagassem os serviços que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto
pareceria escandaloso que uma vez por outra o Venancio não
recebesse nada. Mas como os freguezes caíam, dando ao engeitado pão e
azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e
achava-se desembaraçado para fazer do Venancio seu criado.
Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio,
um mãos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao
tendeiro, entrando na loja:
--Ó _tio_ Ambrosio, se vocemecê me podesse dar agora aquellas duas
libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor.
--Ó maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?!
--Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasião em que estava aqui o da
Michaela, que foi para o Brazil.
--Ah! maroto, que me perdes! Pois tu já tiveste duas libras algum dia?!
--Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemecê para mas
guardar por ser um homem de bem...
--Ó senhor morgado, este maroto está-me a envergonhar!
--E o _tio_ Ambrosio está-me a roubar, disse serenamente o Venancio.
--Sr. morgado, continuava o tendeiro, eu sou um homem honrado, incapaz
de tirar nada a ninguem.
--Menos a um pobre... como eu. Duas libras! que eu guardava para
uma precisão! exclamou o Venancio, e começou a chorar.
Então, a natural bizarria do morgado não lhe permittiu tolerar aquella
scena por mais tempo. Fosse verdade ou não fosse, era preciso acabar com
aquillo,--uma miseria de duas libras! E o tendeiro envergonhado por tão
pouco!... Não podia ser.
--Rapaz, disse o morgado querendo salvar a situação, não foi ao sr.
Ambrosio que deste a guardar as duas libras. Não te lembras bem. Foi a
mim...
Então o Venancio, serenamente, humildemente observou:
--Essas foram outras, sr. morgado.