Outubro: todos os lavradores tratam de apurar o resultado das vindimas.
Quantas pipas de vinho tiveram? A como as venderão? Eis as questões que
principalmente os preoccupam.
São, pois, as uvas que estão ainda em scena no grande palco da vida
rural, tablado sombrio e melancolico desde que o phyloxera começou a
roer os bastidores feitos de pampanos e latadas, outr'ora verdejantes e
opulentos de seiva.
As uvas, disse-o algures Julio Cesar Machado, são o vinho em pilulas.
Deliciosas e saborosas pilulas, que não precisam ser doiradas com
assucar como as da botica!...
Um dia, certo medico, que punha muito gosto em falar com distincção,
aconselhou um dos seus doentes a tomar umas pilulas amargas que,
para não repugnarem, precisavam ser envolvidas n'uma substancia doce.
--Tome-as n'um vehiculo qualquer, recommendou o medico.
Ora em pharmacia a palavra vehiculo é synonimo de excipiente, isto é, a
substancia em que se encorporam ou dissolvem os medicamentos, para lhes
mascarar o sabor, para diminuir o seu principio activo ou ainda para
lhes dar uma fórma conveniente.
No dia seguinte vem o medico, e não encontra o doente em casa. Mostra-se
profundamente surprehendido e contrariado.
--Onde está elle?!
--Saiu.
--Saiu?! Que imprudencia, santo Deus!
--Mas foi V. ex.ª que mandou...
--Eu?!
N'isto ouve-se parar á porta uma carruagem. Era o doente, pallido e
tremulo, que regressava a casa.
--O que fez o senhor?! perguntou o medico.
--Saí de carruagem.
--Mas que loucura foi essa?!
--Pois V. ex.ª não me disse que tomasse as pilulas n'um _vehiculo_
qualquer! Tomei-as de carruagem...
Com as pilulas de vinho, tão doces são! não pódem dar-se
d'estes equivocos, pois que não precisam vehiculo--assucar ou
carruagem--para engulir-se com agrado.
Perde-se na noite do cahos a origem da vinha e do seu fructo saboroso.
Segundo a Biblia, Noé foi o inventor da arte de fazer vinho e, por tal
signal, que aprendeu á sua custa, empiteirando-se sem o querer. Segundo
a mythologia, foi Baccho o primeiro viticultor, e o que é certo é que
nós ainda hoje, quando carregamos nos tropos, dizemos muitas vezes--o
deus Baccho--em vez de vinho.
Mas quem sabe lá qual foi ao certo o primeiro homem que cultivou a vinha
e bebeu o sumo das uvas! De mais a mais a vinha não foi arvore que Deus
prohibisse, como a do _bem e do mal_. Não, senhores, a cultura da vinha
foi livre desde o principio do mundo, e então, que me conste, não se
vendia o vinho por decilitros. O systema metrico decimal é, acho eu,
muito posterior á origem do mundo... Cada um podia beber o que quizesse.
Que delicia, o principio do mundo!
Pois não serei eu que me proponha estudar a origem do vinho, para não
incorrer no ridiculo d'aquelle sabio que, tratando de descobrir o
inventor do jogo do _voltarete_, ficou capacitado de que tinha sido...
Voltaire.
Ha poucos dias li n'uma obra interessantissima, a viagem de Pyrard ás
Indias Orientaes, que o duque de Alba, tendo tomado a cidade de
Haerlem, na Hollanda, mandou fazer n'ella execuções tão crueis, que ha
quem derive d'ahi o proverbio _fazer arlem_, de onde veiu, por
corrupção, fazer _arlia_ ou _arrelia_.
Pois nem Francisco Pyrard, nem Cunha Rivara, que commungou esta opinião,
eram dois insignificantes.
Pareceu-me forçada a derivação e contando-a a um homem de espirito,
disse-me elle:
--Eu estou convencido do contrario. Sabe vossê que Jacob só muito
contrariado casou com Lia. Por isso, é natural que a não tratasse bem.
Obrigava-a a trabalhar, sem que ella podesse e, como n'esse tempo todos
os homens eram grosseiros, dizia-lhe a cada momento: _Arre, Lia_. D'aqui
é que veiu certamente a locução...
Tem graça, e caracterisa a facilidade com que os sabios inventam origens.
Sempre me ha de lembrar o caso d'aquelles dois distinctos archeologos
que, n'uma serra de Portugal, encontraram certa pedra tosca com estas
duas lettras gravadas: C. M.
Discutiram, investigaram, até que um cantoneiro lhes disse:
--Essa pedra foi mandada ahi pôr ha muitos annos pela senhora _camara
municipal_.
Ficaram de cara á banda, os sabios.
A mim, a respeito da vinha, não me ha de acontecer outro tanto. Tiro o
meu chapeu á antiguidade da cepa, e passo adeante. Mas como as
uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisação em que nos encontramos
hoje, é o melhor que temos a fazer.
Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se são
brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o
desespero dos pintores.
Só um soube até hoje igualar-se ao Creador na reprodacção das uvas. Foi
Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma tão perfeita
similhança, vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz
pintar uma tela ainda melhor. No seu quadro havia um cortinado que
enganou o proprio Zeuxis.
--Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa
observar a tela.
Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: «Eu
enganei os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!»
A vinha póde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte
do paiz, de _enforcado_ lhe chamam; ou pequena e redonda como nas
provincias do sul: mas as uvas são sempre bellas na lucidez e variedade
dos tons.
É notavel que Camões, tendo vivido na Estremadura, se é que n'esta mesma
provincia não nasceu, descrevesse na _ilha dos Amores_, não a vinha do
sul, mas a de _enforcado_, a alta e pendurada, que vegeta no norte:
Entre os braços do ulmeiro está a jucunda
Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes.
Frei Luiz de Sousa, na descripção da cêrca de Bemfica, serviu-se de uma
feliz comparação com as pedras preciosas para caracterisar as _nuances_
da coloração dos cachos. Faziam, diz elle, «collares de pedraria as
uvas, segundo os tempos, e as côres d'ellas: já topasios, já rubis,
primeiro esmeraldas.»
Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas estão verdes quando a rapoza
lhes não póde chegar. É uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da
rapoza e das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se não póde alcançar.
--Ser ministro! diz um pretendente á pasta. Que massada!
E do lado algum malicioso observa a meia voz:
--Estão verdes, não prestam...
Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que só por ahi resta algum
cacho guardado como um mimo.
Perdem-se no ar, por esse paiz fóra, as ultimas canções das vindimas. No
Douro, a região do vinho, a vindima é ainda uma festa, apesar da
phylloxera. Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razão para isso,
porque a vindima representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a
vindima corre triste e silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das
uvas.
Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasça entre
canções ou sem ellas. O que se quer é que alegre e aqueça... no
inverno;--porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos.