Os antipodas

Ha pessoas tão infelizes, que julgam que a sua propria infelicidade não

terá fim.

Ha melancolicos para quem a esperança não accende um unico raio de sol,

tão entranhadamente elles se entregam á melancolia.

Ha pobretões que desanimam de ser remediados algum dia, tão pouca fé

lhes vivifica o coração.

É para todos estes que eu escrevo hoje, mandando-lhes n'uma anecdota um

ensinamento moral, que póde, por um momento ao menos, arrancal-os aos

seus pensamentos sombrios, tiral-os, por um instante que seja, do

inferno da sua desesperança e entremostrar-lhes o ceu...

O padre-mestre Fanhões tambem se arrepellava, teimosamente incredulo,

quando o seu collega Liborio pretendia demonstrar-lhe que na

esphera terrestre havia habitantes que, em relação aos de meridianos e

parallelos oppostos, se chamavam antipodas, porque se achavam collocados

de modo que os pés de uns estavam voltados contra os pés de outros.

Padre-mestre Fanhões não o podia crêr e desgostava-se d'isso, visto que

toda a gente acreditava na existencia dos antipodas, menos elle.

--Não me fio! dizia de si para comsigo. Como é possivel que, estando nós

n'um hemispherio de cabeça para cima, possa haver gente que se equilibre

de cabeça para baixo no outro hemispherio?!

Por mais que matutasse no caso, acabava sempre por dar razão a si

proprio, e negal-a ao collega Liborio.

--Ora imaginem, insistia elle, uma laranja, porque a terra tem

approximadamente, segundo se diz, a fórma de uma laranja. Ponho a

laranja sobre um prato e colloco-lhe facilmente na casca da metade

superior um ou dois grãos de milho; mas se quizer collocal-os na metade

inferior, claro está que não terei meio de segural-os. Cairão por força!

Pois com os habitantes da terra ha de dar-se a mesma cousa. Que nos

aguentemos de cabeça para cima, percebe-se; mas que haja outros que se

aguentem de cabeça para baixo, não me entra no miolo. O Liborio é um

asno, que acredita em todos os carapetões!

E o padre-mestre, ensinando o seu latim aos rapazes, interrompia-se

muitas vezes para dizer-lhes a proposito de cousa nenhuma:

--Nos antipodas é que eu não acredito! Não póde ser!

Os rapazes davam-lhe razão, não só porque n'essas occasiões o

padre-mestre os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles

proprios não tinham grande convicção na tal historia dos antipodas,

gente que devia viver pendurada pelos pés, em permanente gymnastica.

Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente

pessoa, um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e

dos preceitos da Bulla da Santa Cruzada.

Ás sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes já

contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia.

Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher á tenda nas

quintas-feiras de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do

capote. Dava-o a vêr á criada.

--Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser!

--Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pôl-o a dessalgar no poço.

Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poço

até ao meio dia seguinte.

Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhões se encontrava n'esses

dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o

eterno thema, a eterna teima dos antipodas.

--Que não! que não podiam existir! exclamava decisivamente o padre-mestre.

Não havia argumento convincente que o Liborio não empregasse; mas o

padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questão dizendo:

--Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira é que tenho ámanhã

bacalhau para o jantar; a segunda é que essa tal historia dos antipodas

não tem pés nem cabeça.

Ora succedia que na sexta-feira pela manhã, quando a Gertrudes ia tirar

o bacalhau do poço, o encontrava sempre reduzido a menos de metade;

estava ratado, comido.

O que seria, o que não seria?!

--É gato que desce pela corda, alvitrava o padre.

--Isto não é dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes.

E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que não podia ser gato de

casa, porque o não tinham, e não podia ser gato de fóra, porque os muros

do quintal eram muito altos, e estavam eriçados de cacos de garrafa.

--Será elle rato de agua, ó Gertrudes?!

--Nada, sr. padre-mestre, isto menos póde ser dente de rato.

--Olha, dente de coelho é que é com toda a certeza, porque por mais que

a gente puxe pelo miôlo não sabemos o que seja!

A Gertrudes achava mais uma vez graça a este dito do padre-mestre,

sempre repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau

do poço, encontrava-o roido em metade.

Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau

e, graças a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras.

Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o

padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam pé-ante-pé

ao quintal, e, içando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas.

Se lhes dessem uma ceia de _foie-gras_ talvez não gostassem tanto. O

bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que

servia de aperitivo a chalaça de o irem buscar ao poço com o sobresalto

de ratoneiros que temem ser presentidos.

Padre-mestre dava em doido, o caso já o ia intrigando tanto como a

historia dos antipodas.

Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim,

e contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau.

--O que será? perguntou candidamente o padre-mestre.

--Ao certo não sei, respondeu o estudante. Mas talvez...

--Talvez?

--Pode muito bem ser que o comam os antipodas.

--Lá vens tu com a fabula dos antipodas! Não creias n'isso, rapaz!

--Ó sr. padre-mestre, pois se todos os sabios dizem que sim, por que

rasão havemos nós de pôr em duvida o que elles affirmam! De mais a mais

vossa senhoria tem meio de averiguar a verdade. Sexta-feira pela manhã

debruce-se no poço, ponha-se á espreita, que talvez os apanhe com a boca

na botija.

--No bacalhau é que tu queres dizer...

--Sim, senhor, no bacalhau.

--Pois olha que hei de tomar o teu conselho. Na sexta-feira eu proprio

irei tirar o bacalhau do poço para desenganar-me.

Póde calcular-se o que os estudantes ririam uns com os outros á espera

da sexta-feira, que n'aquella semana parecia não chegar nunca, tão

anciosamente elles a esperavam.

Mas, arrastadamente, a sexta-feira chegou, e o padre-mestre foi em

pessoa buscar o bacalhau.

Ao debruçar-se no poço, deu um grande grito.

A Gertrudes correu á janella:

--O que é, sr. padre-mestre? perguntou

--Eu vi um homem no fundo do poço, respondeu elle assaralhopado. E assim

que me endireitei para gritar, fugiu.

--Atire-lhe uma pedra, sr. padre-mestre, aconselhou um dos estudantes,

que tambem tinham acudido.

O padre-mestre pegou n'um calhau e atirou-o para o fundo do poço. A

agua turvou-se, de modo que, por mais que elle se debruçasse

espreitando, não tornou a vêr homem nenhum,--isto é, não podia vêr-se a

si proprio.

--E o bacalhau está inteiro? perguntou outro rapaz

--Vamos vêr isso.

O padre-mestre deu-se pressa em içar a corda.

Faltava metade ao bacalhau.

--Ora agora, sr. padre-mestre, disse-lhe o estudante que primeiro o

havia aconselhado, já vossa senhoria não póde duvidar da existencia dos

antipodas, porque os viu.

--E é verdade que vi um!

--Mas o que fez elle quando vossa senhoria appareceu á beira do poço?

--Ora o que faz um gatuno quando alguem o apanha com a boca na botija?

--No bacalhau, sr. padre-mestre, emendou o estudante.

--No bacalhau ou na botija. Fugiu! Pois o que havia elle de fazer, o

patife?!

--Vossa senhoria reparou se elle trazia casaco?

--Trazia, sim, lá isso ainda eu pude vêr.

--Está provado então que os antipodas vestem como nós. E vossa senhoria

que não queria acreditar n'elles!

--É verdade! Ninguem póde dizer: d'esta agua não beberei. Vou confessar

o meu erro ao collega Liborio.

E foi. O collega Liborio estava na aula a ensinar geographia aos rapazes.

O padre-mestre chamou por elle em altos berros. O Liborio veiu á porta

vêr que afflicção era aquella. Era o padre-mestre, que lhe gritou:

--Não ha duvida, não senhor; Você tem razão n'aquillo dos antipodas!

--Porque, ó padre-mestre?

--Porque eu vi um.

--Viu um!

--Vi-o com estes que a terra hade comer.

--E onde é que o viu?

--No fundo do meu poço!

Assim é em tudo o mais.

Por muito escura que seja a vida, e basta que seja tão negra como o

fundo de um poço, por mais teimosa na sua descrença que seja uma alma, e

basta que o seja tanto como a do padre-mestre Fanhões, chega

sempre um dia em que se vê ou se cuida vêr aquillo que jámais se

reputava visivel: realidade ou illusão.

Melhor é que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o

padre-mestre. Mas se fôr illusão, isso basta ás vezes, n'um mundo em que

a maior parte das cousas são illusorias, para sentir a alma menos

propensa á duvida e ao desalento.

O padre-mestre julgou vêr um antipoda, e morreu na fé de que elles

existiam,--por isso. O collega Liborio, em vez de vêr os antipodas no

fundo do poço, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por

se ter convencido mais depressa logrou ter maior convicção de que o

padre-mestre desde aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por

caminhos diversos. Mas, com quanto um se atrazasse na jornada, ambos

chegaram, e o essencial na vida é chegar... alguma vez!

Manhãs de Cascaes · 第 59 / 75 题