O chapeu

Perguntaram a uma tricana do norte para que servia o chapelinho, do

tamanho de uma avellã, que coroava os seus fartos cabellos negros.

--Ora essa! exclamou ella ironica e desdenhosamente. Serve para pôr e

tirar...

Realmente, é para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu

tamanho e o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo

masculino, que de responsabilidades andam ligadas ao simples facto de

pôr e tirar o chapeu!...

Custa pouco isso, tiral-o ou pôl-o, coisa é que se faz n'um momento, e

comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pôr o

chapeu quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pôr.

Não é so no theatro, durante os espectaculos, que pôr ou tirar o chapeu

é um facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no

theatro, visto que se está entre uma sociedade menos numerosa, dá isso

mais nas vistas, e se um espectador conserva o chapeu na cabeça, depois

do panno subir, todos os outros começam a gritar: Peu! peu! Se o tira,

mas parece reconsiderar tornando a pol-o, como que tem isso o proposito

de querer irritar os outros espectadores, e então sobe de ponto a

gritaria dos que mandam desbarretar o insolente.

Ha já muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um

camarote de segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas,

bem comidos e bem bebidos,--bem bebidos, sobretudo.

Não se lembraram ou não quizeram tirar o chapeu, e o publico

indignou-se, começou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se

descobrissem.

Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos,

então jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartição

no ministerio das obras publicas,--o pobre Moita que tão desgraçado morreu!

Pareceu-lhe boa occasião de tirar partido do conflicto, e foi bater á

porta do camarote dos patuscos.

--Quem é? perguntaram de dentro.

--A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos.

Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um

representante da lei, exclamou:

--Isto que se está passando é uma pouca vergonha! Pagaram ou não pagaram

os senhores o seu camarote?

--Pagamos, sim, senhor.

--Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que não offendam a

moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabeça como não ter. Isso não

offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade é proteger os direitos

de cada um, disse e saiu com a mesma seriedade.

Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabeça

e despiram os casacos.

Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da platéa e dos outro

camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira

auctoridade teve de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, não

podendo dizer ao certo se a embriaguez lhes haveria feito vêr a

auctoridade em duplicado ou se neste paiz tudo andava tão fóra dos

eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar pôr o chapeu, outra

para o mandar tirar...

N'alguns espectaculos tem acontecido que o publico se arroga o

direito de mandar pôr ou tirar o chapeu, sem se importar com a

intervenção das auctoridades, e sem que mesmo as auctoridades se atrevam

a intervir.

N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O

publico, logo que elle entrou, começou a gritar-lhe em côro:

--Que quite el sombrero!

O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto

começou o publico a gritar, sempre em côro:

--Que ponga el sombrero!

E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitação, teve que pôr o

chapeu, para depois o tornar a tirar, para ter que o pôr outra vez e

para ter que tiral-o de novo...

Na rua ha maior liberdade de acção, o facto de pôr ou tirar o chapeu

escapa ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade

de acção, ha maior responsabilidade no facto em relação á pessoa a quem

é dirigido.

Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para

outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou

na cabeça, ficaram separadas moralmente duas pessoas.

Tirar o chapeu fóra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos,

póde ter consequencias analogas, como se tome esse acto por

troça, por baixesa de caracter ou por desconsideração.

Tiral-o á mesma pessoa umas vezes, e não o tirar outras vezes, é caso

para a pessoa, que umas vezes é cumprimentada e outras não, pensar no

que deve fazer.

Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me

cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, ámanhã não, se me cumprimenta

aqui e não me cumprimenta acolá, porque está acompanhada de melhor ou de

peior sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo,

que me diverte proporcionando-me occasião de trautear esta popularissima

trova:

Quando eu quiz, não quizeste,

Tiveste opinião;

Agora queres, não quero,

Tenho minha presumpção.

O chapeu impõe deveres de normal cortezia, a que é preciso attender sem

exagero para mais ou para menos.

Nada ha tão aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu póde

incorrer estando fóra da cabeça quando devia conservar-se no seu logar.

Um estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de

chapeu na mão por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de

desespero:--«Muito me incommoda a gratidão!»

Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes:

... e de Lisboa se sêa

Que todos lá são honrados,

Que de pessoa a pessoa

Se fallam desbarretados.

Mas Francisco Manuel de Mello poz á cortezia dos lisboetas seus justos

limites quando disse:

Um fallar com tanto geito,

Um ditinho de repente.

Que affeiçôa:

_Um ter em tudo respeito_,

Ai! mate-me Deus com a gente

De Lisboa.

Ter em tudo respeito,--eis a questão. É como se dissesse: ter conta em

tudo. Respeito por os outros e por nós mesmos, até no cumprimentar!

Ha pessoas que caem no defeito contrario áquelle, e que em vez e gastar

a aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam. É pouco. Se um

só dedo podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sábia

natureza não nos haveria dado cinco dedos em cada mão.

Quando a gente, não sendo militar, se vê cumprimentada d'esse modo,

dá-lhe vontade de responder ao dedo com o braço todo,--para se mostrar

generosa!

O presidente de não sei que estado americano, passeiava um dia na praça

publica, vestido á paisana, com o seu ajudante de campo ao lado.

Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o

chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou

que elle cumprimentára de mais para um escravo. Voltou-se e disse:

--Não quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que eu!

Isto percebe-se, e é logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, não

é cumprimentar, é vexar, porque se lembra á pessoa cumprimentada a sua

inferioridade.

Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar sómente meia dóse de

cumprimento:--é exigir que lhe dispensem dóse dobrada.

Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mão as pessoas que lhe

fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem

repugnou vêr outro desbarretado deante do fidalgo, que o não mandava

cobrir. Chegou ao pé dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto,

e disse-lhe:

--Póde pôr o chapeu na cabeça, que este senhor dá licença.

Se algum dos dois devia agradecer não era o desbarretado, mas o fidalgo,

porque estava fazendo peior figura...

Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso.

Chega a gente a sentir-se enjoada de vêr um sujeito que cumprimenta a

torto e a direito para dentro de todos os trens que passam--ha n'isto

verdadeiros especialistas--e que se agarra a um cabello para ter o

pretexto de se tornar _snob_ dos machuchos.

Mas não enjôa por certo menos vêr outros sujeitos que põem todo o seu

orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu é a

continuação do firmamento.

Acima d'elles, só Deus, e ás vezes nem Deus... que não conhecem!

De tudo quanto completa a _toilette_ do homem é com certeza o chapeu o

que lhe impõe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta

mais dos outros homens, o que o póde definir melhor na sua

individualidade moral, o que o póde tornar mais estimavel e o que tambem

o póde comprometter mais.

E tudo isto por que?

Porque o chapeu, como disse a tricana do norte, serve para pôr e para

tirar.

E em saber pôl-o a tempo e tiral-o a proposito é que está o buzilis.

Pouco importa que o chapeu seja pequeno e a cabeça grande, que o chapeu

seja grande e a cabeça pequena. Não está n'isso a harmonia entre o homem

e o chapeu, mas sim no uso conveniente ou inconveniente que

d'elle se faz.

Quando a gente, ao sair de casa, põe o chapeu na cabeça, é como se

pozesse ao sol o forro de si mesmo,--as suas ideias, os seus

sentimentos, a sua educação, o seu caracter.

Ha chapeus que vão dizendo de cima da cabeça: «Cá vae este tolo, que não

conhece os conhecidos».

Ha outros chapeus que, aborrecidos da roda-viva em que andam, parecem

gritar a cada momento: «Cá vae este tolo, que até conhece os

desconhecidos!»

Ainda ha outros chapeus que parecem muito contentes do acerto com que

são tratados pelo dono, e em cuja copa a gente cuida lêr esta divisa:

«Nem de mais, nem de menos».

Já repararam em que o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e feitio,

parece variar de peso em certas occasiões e, especialmente, de pessoa

para pessoa?

O mesmo chapeu, se a gente está de animo opprimido, parece pesar mais

que de costume.

Um pretendente, fallando uma vez com Antonio Rodrigues Sampaio, começou

por dizer-lhe, visto que n'esse momento lhe parecia ser de chumbo a aba

do chapeu:

--Muito custa, sr. conselheiro, andar a gente por aqui de chapeu na mão!

E Sampaio, que tinha soffrido e trabalhado como poucos, respondeu

de prompto obrigando-o a cobrir-se:

--Pois ponha-o na cabeça, e diga o que quer.

Dois sujeitos compram chapeu da mesma fórma e no mesmo chapeleiro.

A um d'elles o chapeu como que brinca sobre a cabeça, inclinando-se

requebrado n'um bolero permanente. É que a cabeça anda alegre e

communica ao chapeu, que se sente leve, a vontade de foliar.

A outro o chapeu vae-lhe descendo insensivelmente até ás orelhas, dando

mostras de querer enterrar-se por desgostoso. É que a cabeça pegou-lhe

as scismas em que anda martellando no silencio do espirito.

Tão certo é, meus senhores, que o chapeu revela o homem:--o chapeu é o

estylo de toda a gente, incluindo a que não tem estylo.

Manhãs de Cascaes · 第 57 / 75 题