O carnaval...
Já contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de
Estarreja.
Mas vou reedital-a, para que se torne tão conhecida quanto o merece a
mais interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa
tem produzido, desde que a caraça é caraça.
Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patuscão, vivia no solar de
um fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos
meninos da casa.
De vez em quando vinha a Lisboa a pretexto de visitar o irmão e
sobrinhos do fidalgo de Estarreja. Agradava-lhe essa patuscada, que o
distraía da monotonia das arvores e da vida da aldeia.
Assim foi que um anno, pelo carnaval, elle disse ao fidalgo:
--Meu senhor, se v. ex.ª se não oppozer, vou a Lisboa pregar uma partida
real a seu mano e sobrinhos.
--Então que intenta você fazer, ó Felix?
--Uma partida de carnaval, que passo a expôr a V. ex.ª Ámanhã de manhã
tomo o comboio descendente. Chego a Lisboa das oito para as nove horas
da noite. O mano de v. ex.ª é certo, com toda a sua familia, n'um
camarote da Trindade, segundo o costume. Logo que eu chegar, vou
hospedar-me no _Hotel Alliance_ para me lavar e descançar. Á meia noite
pouco mais ou menos, mando um criado do hotel alugar um dominó preto ao
Cruz da rua Larga de S. Roque. Dirijo-me em seguida ao theatro da
Trindade, vou direito ao camarote onde estiver a familia de v. ex.ª e
proponho-me intrigal-a, com casos certos, durante uma boa hora. Quando
eu lhe fallar de certas coisas, toda a familia arderá em curiosidade,
dará tratos á imaginação para descobrir quem eu seja. Mas não poderão
lembrar-se de mim por me supporem em Estarreja. Á saida do theatro
tomarei as minhas precauções para não ser seguido nem conhecido. De
manhã metto-me outra vez no comboio, e á noite estarei aqui a ceiar e a
rir do caso com v. ex.ª É ou não é, ex.^mo senhor, uma partida real?
--Pyramidal! meu caro Felix Telles. Applaudo com enthusiasmo. Vá
deitar-se, visto que tem de fazer madrugada. Mas que boa partida!
Eh! eh! ria o morgado, esfregando as mãos de contente.
Foi dali o fidalgo para o seu escriptorio e, a rir comsigo mesmo,
redigiu o seguinte telegramma:
«Felix Telles chega ahi hoje noite para intrigar-te theatro Trindade.
Dominó preto, alugado Cruz. Vai Hotel Alliance. Prepara-te para ataque.
Segredo.»
Depois chamou o seu criado particular, disse-lhe que logo pela manhã
fosse ao telegrapho expedir aquelle telegramma, recommendando-lhe a mais
completa reserva.
No comboio descendente, Felix Telles tomava effectivamente logar n'uma
carruagem de primeira classe, e saboreava mentalmente o prazer da sua
aventura.
Entretanto o irmão do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o
telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe:
--Esta noite estarás em Santa Apolonia á chegada do comboio. N'uma
carruagem, que segundo o costume será de primeira classe, hade vir o sr.
Felix Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja.
Se tomar um trem, toma tu outro. Deve apeiar-se á porta do Hotel
Alliance. Ahi, logo que chegue ou pouco depois, dará ordem ao criado
para que lhe vá buscar ao guarda-roupa do Cruz, na rua Larga de
S. Roque, um dominó preto. Esperarás os acontecimentos parado em frente
do hotel. Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem
de dominó preto. Esse homem será o sr. Felix Telles. Logo que elle saia,
tomar-lhe-has dianteira, correrás ao theatro da Trindade. Encostados á
casa do bengaleiro estarão os meninos e, quando o sr. Felix Telles
entrar, dir-lhes-has: É este. Entendeste:
--Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex.ª certo de que saberei dar
conta do recado.
--Muito bem.
No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de
papel branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: «_Sou o
Felix Telles de Estarreja._» E riam estrepitosamente, com aquelle grande
bom humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos
passam...
O criado do visconde desempenhou-se da sua missão de confiança ás mil
maravilhas.
Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando já os filhos do
visconde, postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe
nas costas a grande tira de papel branco.
Esta operação, aliás difficil, foi feita com perfeita delicadeza.
As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa
gargalhada, que Felix Telles não percebeu. E logo muitas vozes,
umas accentuadamente masculinas, outras feminilmente esganiçadas,
começaram a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto o dominó preto
passava:
--Olha o _Felix Telles de Estarreja_!
O homem estremeceu dentro do seu dominó, debaixo da sua mascara.
E sujeitos de chapeu de côco, creanças de bisnaga em punho,
_pastorinhas_ vestidas de gaze côr de rosa, _vivandeiras_ de cantil a
tiracollo, caíam sobre elle com o peso d'uma troça implacavel.
--Olha o _Felix Telles de Estarreja_!
Elle voltava-se para surprehender o denunciante em flagrante delicto de
bisbilhotice, não conhecia ninguem, suava, tressuava, perguntava a si
proprio se teria enlouquecido, e então os esguichos, as gargalhadas, os
gritos recrudesciam n'um _crescendo_ atroador.
De repente, no salão, o visconde, de braços abertos, um riso
epigrammatico nos labios, postado deante do dominó, saudava-o com a
terrivel apostrophe, que se repercutia nos eccos da sala:
--Ó Felix Telles, que diabo de lembrança foi a sua!
E elle, o Felix Telles, desesperado, hydrophobo, apopletico,
respondeu-lhe na sua voz natural, cheio de raiva, de colera:
--Ora deixe-me, que não sou eu!
E saiu, saiu acompanhado até á porta do theatro por este grito terrivel,
insistente, perseguidor:
--Tu és o _Felix Telles de Estarreja_!
E no conjuncto de todas essas vozes irritantemente causticas, atrozmente
mordentes, elle distinguiu perfeitamente as vozes dos filhos do visconde
que gritavam:
--Ó Felix Telles, venha cá!...
Entrando no _Hotel Alliance_, Felix Telles despiu de repellão o dominó,
deixou-o ficar sobre o tapete do quarto, disse brutalmente ao criado que
se fosse embora, que o deixasse em paz, que o chamasse a tempo de sair
no comboio da manhã, e que se não esquecesse de mandar entregar depois o
dominó ao Cruz, com mais dez tostões que elle deixaria sobre a banquinha.
Pela manhã, pagou rapidamente a sua conta, pousou sobre a banquinha os
dez tostões para o Cruz, e saiu.
Quando á noite chegou a Estarreja, já um telegramma do visconde para o
irmão o havia precedido.
--Então? perguntou-lhe o morgado o mais seriamente que poude.
--Então! respondeu Felix Telles. Aquillo é ainda uma aldeia peior do que
Estarreja! toda a gente me conheceu logo que lá cheguei!
--Não é possivel!
--Tão possivel como eu ter ouvido gritar de todos os lados, a todas as
pessoas, que aquelle dominó preto era o Felix Telles de Estarreja!
--Conhecel-o-íam pelo andar?
--Eu sei lá, sr. morgado! Conheceram-me por tudo, não se ouvia senão o
meu nome n'uma berrata que me ensurdecia!
Trez dias depois, o morgado chamava ao seu escriptorio o Felix Telles e
perguntava-lhe:
--Onde foi que você despiu o dominó preto?
--No _Hotel Alliance_.
--E não viu no dominó preto alguma cousa branca?
--Só se fosse o forro... Mas não reparei.
--Pois eu lhe posso dar algumas explicações, que façam luz sobre o caso.
Felix Telles esbugalhava os olhos attento, curioso.
--Não viu um papel branco pregado nas costas do dominó preto?
--Não vi!
--Aqui o tem, pois--dizia o morgado desdobrando cautelosamente uma tira
de papel enrugado, rasgado, que o visconde mandára pedir ao _Hotel
Alliance_ e lhe tinha remettido pelo correio.
E elevando-o á altura dos olhos de Felix Telles, mostrou-lh'o.
--_Sou o Felix Telles de Estarreja_! dizia o papel.
O pobre homem estava passado, assombrado.
--Mas então!... exclamou elle caindo em si.
E o morgado respondeu-lhe com uma gargalhada estrondosa, ao mesmo tempo
que todas as pessoas da casa acudiam á porta do escriptorio a rir, a
rir...