Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao
Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu
estava carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do
Barreiro, uma grande corda de agua principiára a cahir. Corremos todos
para as carruagens;--foi um verdadeiro _sauve qui peut_.
O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada.
Eu sentia-me somnolento, cabeceava. Na estação de... (sejamos discretos)
sentindo correr uma vidraça na carruagem immediata, espertei. Uma voz,
n'um tom agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a
cabrinha?
O chefe da estação, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente
para a carruagem d'onde a voz partira. Havia ficado visivelmente
aborrecido, mas continuára fazendo o seu serviço. De instante a
instante, ao passo que a voz repetia--E a cabrinha?--elle resmungava.
Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento
em que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E
a cabrinha?
O que se passou não sei, mas n'uma das estações seguintes procurei
occasião de perguntar ao meu visinho, que se apeiára, o que aquillo
queria dizer.
O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me.
Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimação, que lhe dava
magnifico leite para o almoço. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com
a dona, mostrava-se pouco affeiçoada ao dono. Um dia, por um motivo
qualquer, a mulher do chefe da estação teve de ausentar-se; o marido
ficou, desempenhando as funcções do seu cargo.
Quando chegou a hora do almoço, o chefe tratou de chamar a cabrinha para
mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a
tomar o seu café sem leite. Não gostou, e tratou de afagar a cabra para
que ella se mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro
dia a mesma comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores
maneiras, e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz.
O pobre homem deu tratos á imaginação para resolver o problema, em que
elle e a cabra entravam como factores.
O que havia de fazer? Demais a mais o café sem leite estava-lhe fazendo
mal ao estomago, e a cabra não promettia tornar-se mais amavel do que
até ahi se havia mostrado.
Depois que os comboyos passavam, elle fechava a porta da estação, e dois
pensamentos atrozes o preoccupavam: a mulher e a cabra.
O que havia de fazer? pensava e tornava a pensar.
Até que uma noite teve uma idéa luminosa, salvadora. Adormeceu mais
tranquillamente, saboreando mentalmente a delicia de tornar a almoçar
café com leite.
Pela manhã, quando acordou, vestiu um vestido da mulher, poz na cabeça
um lenço d'ella. Foi chamar a cabra, e a cabra veiu immediatamente,
fazendo-lhe festa.
Estava resolvida a difficuldade, a cabra deixava-se mungir; o bom homem
endoidecia de contentamento.
N'isto, um silvo terrivel ouve-se a pequena distancia. Era o comboyo,
mas em que occasião, santo Deus!
O pobre chefe estava vestido de mulher, de saia e lenço. Um dilemma
implacavel se lhe apresentava: apparecer tal como estava ou faltar.
Mas faltar seria um delicto muito grave, um motivo para demissão. N'isto
o comboyo chegava... E o chefe da estação apparecia na plataforma,
mascarado de mulher, a dar ordens no desempenho do seu cargo.
Os passageiros riram a bom rir. O caso divulgou-se, espalhou-se ao
longe, e agora é raro o dia em que passe um comboyo sem que alguem
pergunte ao chefe da estação noticias da cabrinha...
* * * * *
--Já não ha salteadores no Alemtejo! dizia eu para um dos meus
companheiros de viagem. Que falta que me faz um assalto, de que eu
precisava escapar... para o contar depois!
E elle referia-me casos tenebrosos de antigos salteadores alemtejanos,
do José da Costa e do _Chapeu de ferro_, dois faccinoras, dois monstros,
que viveram n'um tempo em que ainda se podia ser litterato.
O José da Costa fôra ha doze ou quinze annos o terror das terras
interpostas a Alcochete e Setubal. Desertor de lanceiros, andava a
monte, zombando das auctoridades e da policia. Era um heroe terrivel, um
homem sanguinario, uma lenda viva. Uma noite, encontrára o caseiro
da quinta de Algeruz, e mandára-o apeiar do cavallo que montava.
O caseiro obedecera immediatamente, e o faccinora dissera-lhe,
passando-lhe a mão pela cara:
--Anda lá, anda, segue teu caminho.
O caseiro cavalgou de novo, dispunha-se a partir, quando José da Costa
lhe tornou a dizer:
--Apeia-te outra vez.
E passando-lhe a mão pela cara:
--Ajoelha-te.
O caseiro ajoelhou.
--Por esta vez, vae-te embora.
O caseiro montou, e José da Costa, deitando a mão ás redeas do cavallo,
exclamou:
--Apeia-te, e ajoelha.
E pondo-lhe a mão na cabeça e nas faces:
--Vae com Deus ou com o diabo!
O caseiro estava muito disposto a partir protegido por qualquer dos
dois, quando o José da Costa lhe apostrophou:
--Torna a descer, que to mando eu.
E o caseiro desceu do cavallo.
--Ajoelha.
E o caseiro ajoelhou.
--Monta agora.
E o caseiro montou.
E depois, vendo-o em cima do cavallo, atirou-o a terra com um tiro.
--Coitado! disse, tornando a passar-lhe a mão pela cabeça
inanimada, já devias estar cançado de montar e desmontar!
De uma vez, José da Costa teve seus dares e tomares com um hespanhol
pimpão. Travou-se a lucta braço a braço, e o faccinora parecia não levar
a melhor.
De repente, José da Costa grita para o hespanhol:
--Olha quem ahi vem! Foge!
Não vinha ninguem. O hespanhol, voltou-se e o faccinora feriu-o pelas
costas.
Foi na venda de Algeruz que José da Costa poude ser preso.
Fecharam-lhe a porta á traição, cercaram a casa, e foram buscar a
Setubal uma força militar, de que foi commandante o governador Cunha, ha
annos fallecido.
Mas dentro da taberna haviam ficado trez ou quatro homens, que não
poderam sahir a tempo, e o José da Costa, vendo-se apanhado no laço,
ia-os esfaquendo para saciar a sede de sangue.
Os feridos gritavam de dentro, o povo gritava de fóra, a força havia
chegado, estava de armas mettidas á cara, e de repente, por uma das
janellas da casa, uma coisa saltára para a charneca. Mas os soldados,
percebendo o que era, não descarregaram.
José da Cosa havia atirado para fóra um cortiço, fingindo que era elle
proprio que saltava, na esperança de que os soldados disparassem,
e elle podesse fugir entretanto, são e salvo.
Então, baldados todos os recursos, entregou-se á prisão.
O _Chapéu de ferro_ infestava ahi por 1860 e tantos as circumvisinhanças
de Beja.
Uma vez matara um homem n'um _monte_, como quem diz um casal, e obrigára
a mulher da victima a aparar-lhe o sangue n'um alguidar.
Dois rapazitos, e um d'elles é hoje um cavalheiro altamente collocado,
sahiam, em férias, de Beja para a sua terra natal.
Um homem de grandes barbas espessas appareceu-lhes na charneca.
--Quem são vocês? perguntou-lhes.
--Somos estudantes.
--E eu, sabem quem eu sou?
--Não sabemos.
--Pois eu sou o _Chapéu de ferro_.
--O _Chapéu de ferro_! exclamaram horrorisados.
--Sim, eu sou o _Chapéu de ferro_, e deixo-os ir em paz. Talvez
_quizessem_ que eu os matasse, dois creançolas!