I
Cahiu um nevão na serra.
Desde a cumiada ao val
Alveja rútila a terra.
Não houve nevão egual!
O ar gelado, cortante,
Passa sobre as povoações
Ceifando como um montante,
Rugindo como os leões.
Arvores sêcas, esguias
Olham para o ceu, talvez
A soluçar elegias,
Carpindo a sua nudez.
Cheias de fome, as manadas
Sobre as campinas despidas
Só róem urzes queimadas
E raizes ressequidas.
A fome, a doença, a morte
Assentaram arraiaes
Junto ao casal e á corte,
Levando gente e animaes.
Famintas, as alcateas
Vem de noite ao povoado.
Tremem de medo as aldeas,
Ouvindo o lobo esfaimado...
E desde o alto da serra
Abre a neve o seu lençol.
O que seria da terra
Sem ter um raio de sol?!