_(Minha irmã.)_
Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu.
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.
Por mais que tu procuraste
Reprimir-lhe o ancioso vôo,
Eras tão debil! cansaste.
Deus quiz o anjo, e levou-o.
Tinha reflexos tão doces
O teu olhar doce e brando,
Que logo pensei que fosses
Lirio que veio voando
D'essa translucida esphera,
Tão cristalina e tão alta,
Onde a eterna primavera
Sentiria a tua falta.
Então as flôres celestes
Chorando saudosamente
Vestiram lutuosas vestes,
Feitas de seda somente.
E, debruçadas nas sépalas,
Choraram pranto divino
Sobre o justilho de pétalas,
Polvilhado de ouro fino.
Deus viu-as tristes, chorosas.
Nos seus ethéreos jardins,
E chorou co'as suas rosas,
Teve dó dos seus jasmins.
E como o pranto divino
Tambem, como pranto, queima,
Deus co'a sua voz, um hymno,
Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»
E as azas, mal escutaram
A celeste melodia,
Obedeceram, voaram,
Qual d'ellas mais voaria.
Quando esse lirio nevado
Chegou de novo ao empireo,
Ia triste e maguado,
Deus estranhou o seu lirio!
E o que o lirio não dissera
Tudo Deus adivinhou.
Voando á celeste esphera,
Chorára emquanto voou.
As flôres do azul sorriam,
Os lirios do ceu cantavam,
Meus olhos já te não viam,
Meiga creança, e choravam.
Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.
24--2--87.