EMILIA

_(Minha irmã.)_

Nunca tu azas tiveras,

Que te elevassem ao ceu.

Nunca tu voar poderas

Co'as azas que Deus te deu.

Por mais que tu procuraste

Reprimir-lhe o ancioso vôo,

Eras tão debil! cansaste.

Deus quiz o anjo, e levou-o.

Tinha reflexos tão doces

O teu olhar doce e brando,

Que logo pensei que fosses

Lirio que veio voando

D'essa translucida esphera,

Tão cristalina e tão alta,

Onde a eterna primavera

Sentiria a tua falta.

Então as flôres celestes

Chorando saudosamente

Vestiram lutuosas vestes,

Feitas de seda somente.

E, debruçadas nas sépalas,

Choraram pranto divino

Sobre o justilho de pétalas,

Polvilhado de ouro fino.

Deus viu-as tristes, chorosas.

Nos seus ethéreos jardins,

E chorou co'as suas rosas,

Teve dó dos seus jasmins.

E como o pranto divino

Tambem, como pranto, queima,

Deus co'a sua voz, um hymno,

Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»

E as azas, mal escutaram

A celeste melodia,

Obedeceram, voaram,

Qual d'ellas mais voaria.

Quando esse lirio nevado

Chegou de novo ao empireo,

Ia triste e maguado,

Deus estranhou o seu lirio!

E o que o lirio não dissera

Tudo Deus adivinhou.

Voando á celeste esphera,

Chorára emquanto voou.

As flôres do azul sorriam,

Os lirios do ceu cantavam,

Meus olhos já te não viam,

Meiga creança, e choravam.

Nunca tu azas tiveras,

Que te elevassem ao ceu

Nunca tu voar poderas

Co'as azas que Deus te deu.

24--2--87.

Manhãs de Cascaes · 第 37 / 75 题