_(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas sobreviventes
d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da Trindade.)_
Venho d'entre as ruinas e das chammas,
Onde tudo perdi. Sabeis a historia,
Que o vosso coração ainda contrista.
Perdoai a vaidade ao pobre artista...
Eu sonhava essa noite com a gloria.
Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!
Tive por ovação prantos, clamores.
Ossadas por cortejo. O incendio e a fama
Disputaram ali. Venceu a chamma.
Eram chammas o palco e os bastidores...
E ali n'essa sinistra apotheóse
Ficaram sepultados meus thesoiros,
Amigos que eu perdi,--tão dedicados!
Minha pobre familia,--os meus cuidados,
Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...
Sou agora a mim proprio quasi extranho,
Um viajante perdido no deserto,
N'esse infindo deserto da saudade.
Sinto ainda a desgraça muito perto...
Mas sinto ainda mais perto a caridade!
Se vivo, é só por ella. Em seu regaço
Choro o meu abandono, as minhas dôres.
Refunde-se a minha alma em muitas almas,
Vale um consolo o que não valem palmas...
Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!...