Este inverno promette uma _season_ verdadeiramente notavel: salas que
raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e
povoam-se; o presidente do conselho de ministros receberá ainda quatro
vezes durante os dois mezes proximos.
Fallemos principalmente das _soirées_ da presidencia, notaveis mais que
todas por serem o ponto de reunião dos grandes vultos da politica
portugueza na casa do primeiro entre os primeiros.
Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepções officiaes do paço,
nos actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio,
com a sua figura correcta e grave, terá avaliado apenas superficialmente
este homem de estado que tem, como nenhum outro, a consciencia
das funcções de que se acha investido e das situações em que se acha
collocado. É preciso, porém, avalial-o _chez lui_, tendo uma phrase
amavel para todas as pessoas que concorrem ás suas recepções, sabendo
fallar ás senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser
attencioso com todos, conversando litteratura com os escriptores,
politica com os homens de estado, accommodando-se com distincção a todos
os assumptos e a todas as idades, sem constrangimento e sem esforço.
Um estrangeiro, um viajante, um _touriste_ não encontraria decerto
melhor occasião para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do
que aquella que as _soirées_ do presidente do conselho lhe podem fornecer.
Aqui, um pouco curvado, o cabello levantado e branco, faces córadas, um
sorriso docemente ironico, deixando vêr atravez das suas lunetas uns
olhos penetrantes e expressivos, o ministro de Portugal em Madrid,
vice-presidente da camara dos pares, passa nas salas, sobraçando a
_claque_. É um erudito, um professor, um academico, que consome a maior
parte dos dias na Torre do Tombo a revolver o archivo. Para os
litteratos é o auctor de _Um anno na côrte_; para os academicos é o
auctor da _Historia da linha de demarcação que repartia o mundo entre
Portugal e Castella_, o recente annotador do _Roteiro de Lisboa a Goa_;
para os politicos é um estadista e um diplomata de primeira
ordem, é ainda o auctor dos _Perigos_; para os indifferentes é o sr.
Andrade Corvo.
Ali, debruçado sobre a meza do whist, na curvatura interessada dos
myopes, um homem magro e sêco, de uma magresa forte e resistente, pondo
ás vezes por cima dos oculos afumados o seu _lorgnon_, interroga o
parceiro com a sua voz mansamente timbrada: é o poeta do _Avè Cesar_ e
do _Pavilhão negro_, o dramaturgo dos _Primeiros amores de Bocage_, o
romancista dos _Bandeirantes_, orador, estadista, diplomata, academico,
é Mendes Leal, emfim.
Acolá, o ministro dos negocios estrangeiros, Antonio de Serpa Pimentel,
conversa animadamente, encostando o seu corpo franzino ao angulo de uma
meza, fazendo girar rapidamente o cordão da sua luneta, e sorrindo: eis
aqui um outro homem de estado que é ao mesmo passo um poeta, um
prosador, um critico e um academico.
Na sala de baile, a figura esvelta e forte de Thomaz Ribeiro destaca-se:
a gran-cruz escarlate, atravessada sobre o peito largo, anima-lhe o
busto: os cabellos grisalhos, como que ligeiramente empoados, têem por
vezes fulgurações instantaneas.
N'um _fauteuil_, Julio de Vilhena observa com os seus olhos
penetrantemente meridionaes, sorri com vivacidade aos que lhe vão
fallando, e retorce descuidadamente a guia esquerda do seu
pequeno bigode.
Hintze Ribeiro conversa n'um grupo de deputados sobre as discussões do
parlamento: anima-se fallando, e fixa a luneta, fitando o interlocutor.
O procurador geral da corôa e fazenda[1], alto e corpulento, conversa no
tom modesto e auctorisado que lhe é peculiar, dois jurisconsultos
distinctos ouvem-n'o com uma grande attenção respeitosa, como a um mestre.
Barjona de Freitas, baixo, nutrido, hombros largos, cabello preto e
luzidio, falla com Thomaz de Carvalho, que o ouve com o beiço inferior
um pouco descahido, e Bulhão Pato, pequeno e forte, o cabello branco,
faces morenas como as de um anduluz, aproxima-se, cofiando a pera.
E como n'esse momento uma valsa, de uma melodia suave, docemente
marulhada, se espraie pela sala, devem certamente acudir-lhe ao espirito
ardente os versos da _Paquita_:
Entrei no baile, quando a valsa rapida
Corria as salas em airosas voltas!
Das leves roupas, transparentes, soltas,
Que doce aroma se esparzia no ar!
Parei mirando aquellas frontes candidas,
Que se animavam de alegrias loucas.
Amor calando nas graciosas bocas,
Amor dizendo no inspirado olhar.
As primeiras valsistas de Lisboa, as de mais nobre nascimento e de mais
distincta elegancia, giravam com effeito em torno do salão, que parecia
ondular serenamente como um lago, encrespado por uma brisa ligeira.
Algumas cabeças, formosamente loiras como a de Daphne, pareciam
aureoladas por um diadema de oiro; outras, de bellos cabellos negros,
affiguravam-se radiadas de arabescos luminosos, como o azeviche batido
fortemente pela luz.
O visconde de S. Januario, de amplo peito arqueado, gran-cruz traçada,
cabeça altiva, conversava n'um grupo de senhoras; o duque de Palmella,
alto, suissas pretas, com a mão direita entalada entre o collete e a
gran-cruz, acabava de conversar com o duque de Loulé, que fôra fazer a
sua partida de whist para a sala da bibliotheca, onde o conde de Valbom
jogava emparceirado com o sr. Carlos Bento na mesma mesa em que tambem
era parceiro o distincto advogado Pinto Coelho.
Não haveria, pois, melhor occasião para poder observar os nossos homens
mais distinctos na politica, no fôro, na litteratura, na diplomacia, no
professorado, no commercio.
Muitos d'elles, se não a maior parte, são um nobre exemplo de coragem,
de perseverança e de gloria a todos quantos agora estreiam a sua
carreira. Á custa de um trabalho paciente e intrepido alcançaram,
por direito de conquista, a alta posição que hoje occupam. Soffreram,
combateram, luctaram, mas conseguiram honrar o seu berço, o seu nome, e
o seu paiz. Citemos ao acaso um nome, Mendes Leal, que atravessou todas
as commoções de uma existencia accidentada de mil incertezas, luctando
sempre, no theatro, na litteratura, na imprensa, na politica, mas
conseguindo vencer por um esforço heroico de que só os homens do seu
valor e da sua tempera são capazes.
Quantos d'elles, se não todos, têem sido injustamente accusados,
violentamente atacados, injuriados até! A consciencia do dever é, porém,
uma especie de muralha da China, onde os projectis da inveja e da
calumnia vão bater, refluindo de ricochete contra os que os arremessaram
com mão traiçoeira. É a compensação providencial destinada aos que
cumprem a sua missão. Os insignificantes, os invejosos, os inuteis,
aquelles que não comprehendem o seu destino, julgam que todos lh'o
roubaram, e por isso de todos dizem mal.
Aqui está, pois, levamente esboçada, uma pagina da _season_ lisbonense
em 1883.
[1] Conselheiro Martens Ferrão.