Morte de um gentleman

_(Barão da Torre de Pêro Palha)_

Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vão

acabando os homens...

Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes,

destros, gentis, bem educados.

Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a

disciplina social, para a harmonia das classes, para a ordem que não

póde deixar de ser a base do respeito que as diversas categorias se

devem umas ás outras.

Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e

que tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creança

que educamos a nosso geito...

O que ahi vae ficando já não são homens medidos pelo estalão que

outr'ora marcava a estatura moral. Como na Grecia antiga, foram-se

os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. Não tardará o tempo

em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio,

quero dizer, aos heroes da decadencia. Se não ha melhor!

Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso

tem desapparecido a pouco e pouco. Até vae desapparecendo tambem um typo

que parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de

trovador: fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da

idade-media. Era o _gentleman_, que sabia montar a cavallo, bater-se em

duello, fallar ás damas, dançar uma valsa, entrar n'um salão. Era o

_gentleman_, que punha o chapeu na cabeça diante de um insolente, e que

o tirava quando á portinhola de uma carruagem cumprimentava uma senhora.

Era o _gentleman_, que não parecia ridiculo quando vestia uma calça de

ganga e calçava umas luvas côr de açafrão. Era o _gentleman_... Morreu

outro dia um; desconfio que foi o ultimo...

Chamava-se Hugo Owen, barão da Torre de Pêro Palha.

Não fez discursos, não fez leis, não escreveu livros, não compoz óperas,

mas conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus

contemporaneos.

Por que? Porque foi um _gentleman_. Eis tudo...

Seu pai, um inglez de distincção, militara ao serviço de Portugal no

tempo em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a

liberdade.

Casára, ficára entre nós; e o filho, direito como um pinheiro novo,

esvelto e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente

a cavallo no séquito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria,

em seu ajudante de campo.

Zuniram-lhe as balas do cêrco do Porto por cima da cabeça, ouviu de

perto o estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da

polvora.

Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que

havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os

vencidos presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas

em Portugal. Quanto se enganaram tambem!...

Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era

rico, forte, alegre, feliz.

Mas a roda da fortuna encravára-se um dia; parou de subito. A esposa de

Hugo Owen morrêra deixando-lhe filhos pequeninos. No coração do viuvo

fez-se um vácuo profundo, enorme. E aqui começa a serie das suas

desgraças, quaes poucos homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se

azedar a ponto de parecer malcreado e sem se mostrar desgostoso ao

extremo de querer descalçar as luvas para sovar a humanidade.

Pois se o fizesse, teria tido razões de sobra para isso...

As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos pés, a fatalidade andava

inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado

chicaneiro que não pensa senão em urdir uma rêde de rabulices para

embaraçar a parte contraria.

Um dia, Hugo Owen assistia á agonia de um filho, que a morte viera

surprehender prematuramente.

O coração do pae despedaçava-se atormentado contra esse leito, como a

vaga contra os rochedos.

Havia já na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo

longinquo do luar de além-tumulo.

Os irmãos soluçavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o

leito, disfarçava a sua dôr murmurando palavras carinhosas, de uma

grande ternura dolorida, sobre a cabeça do moribundo.

N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma

valsa de Strauss, sente-se dançar ruidosamente, pular, conversar, tinir

loiças e cristaes.

Está-se em plena _soirée_, e a festa parece prolongar-se pela

noite dentro, attingir a madrugada.

É no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia, é a

dois passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar

arraiaes.

Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam

divertindo? Certamente que não. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a

o destino guardado para esmagar o coração do barão da Torre de Pêro Palha.

Uma sua irmã, Fanny Owen, morreu na flôr dos annos, sacrificada a um

drama conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello

Branco, _No Bom Jesus do Monte_.

Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam á autopsia, assim o

affirmaram sob juramento.

Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo

Owen, estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo.

--Quem está ali doente? perguntou.

--É o sr....

Era o marido de sua irmã, o marido que tão allucinadamente a aggravára,

que vinha morrer a dois passos de distancia do barão da Torre de Pêro

Palha!

E, como estas, outras mil contrariedades e coincidencias, que o

destino baralhava para o atormentar, expressamente...

Eu conheço a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais

intimo e recondito. Sómente não estou auctorisado a contal-a. Conheço-a,

porque elle me confiou um dia as suas memorias, que se conservam

inéditas; paginas que elle escrevia com a verdade e o respeito de um

homem que se julga já diante de Deus contando o que soffreu entre os

homens.

Encontrei nas memorias do barão o material preciso para urdir dez

romances sem dar tratos á imaginação. Em cada capitulo havia um drama de

lagrimas. Li o manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiança

que o barão depositava em mim, fechei-o profundamente commovido e

sepultei no fundo do meu coração o segredo das suas revelações, tão

pungentes e dilacerantes.

Ás vezes, quando conversava com o barão da Torre de Pêro Palha debaixo

da Arcada ou á porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignação,

espantava-me a sua paciencia, a correcção sempre distincta das suas

palavras e das suas maneiras.

E todavia elle estava tão pobre, que mal poderia esperdiçar um charuto...

Os que o não conheciam de perto, poderiam suppôl-o um homem feliz.

Com o seu ar elegante, o seu casaco curto, as suas calças largas, um

pouco á _hussard_ (essas calças tradicionaes dos _gentlemen_ do seu

tempo: nunca o Manuel Browne e os outros vestiram calças que não fossem

á _hussard_), as suas polainas brancas, a sua bengala de castão de

prata, as suas lunetas de oiro, as suas suissas grisalhas, elle tinha o

aspecto de um homem feliz, que houvesse accordado ao meio-dia depois de

ter passado a noite n'um baile onde perpetrára a sua ultima valsa, onde

queimára o ultimo cartucho do seu paiol amoroso.

E todavia talvez tivesse almoçado, de pé, dois ovos _à la coque_, apenas...

Tambem me assombrava n'este homem, cuja morte deploro, n'este homem que

tinha corrido e visto tanto mundo, n'este homem que tanto havia soffrido

e aprendido, a boa fé, a ingenuidade com que parecia acreditar todas as

esperanças que lhe davam, todas as promessas que lhe faziam, o ar de

candura com que tantas vezes procurou o seu nome no _Diario do Governo_.

Seria um defeito de intelligencia? Não era, com certeza. Era apenas um

aspecto da sua individualidade de _gentleman_. Conhecendo que a vida

estava por pouco, não queria desfazer n'um momento a obra de toda a sua

existencia, sahir do mundo desmanchando-se n'um gesto tão plebeu como

expressivo. Procurava illudir-se por mais algum tempo... pouco!

E, de resto, elle tinha razão.

Quando já não podia viver com as mulheres, com quem viveria elle se

tivesse rompido com os homens?

Era esta decerto a sua ideia.

Não queria isolar-se pelo resentimento, pelo azedume, pelo despeito,

sentindo-se a dois passos da solidão eterna do tumulo.

Fôra um homem de sociedade, sabia o que era a lisonja, a mentira, a

falsidade cortez e amavel. Devia conhecel-as á legua. Mas assim como nos

salões tinha fingido acredital-as, reduzido á pobreza fingia tambem

dar-lhes credito.

O enganal-o por cortezia podia ser um motivo para que elle continuasse a

não ter dinheiro na bolsa, mas não era um motivo para que recusasse um

_shake-hand_ á pessoa que o enganava segundo as boas praxes do codigo do

bom tom.

--Para a semana será... dizia elle.

Passava uma semana, um mez, um anno.

--Então?...

--Tem havido difficuldades... Mas estão aplanadas... Agora vae.

E não ia!

Elle é que, fingindo esperar sempre alguma coisa que lhe consolasse os

ultimos dias da vida, foi para o Porto, já muito doente, cheio de dôres

e de desillusões, e de casa de uma filha querida, que lhe recolheu

piedosamente o derradeiro suspiro, foi para a cemiterio de Agramonte,

onde finalmente descansa...

O _Diario do Governo_ perdeu um leitor, a sociedade portugueza perdeu um

dos seus _gentlemen_, talvez o ultimo, seus filhos perderam um pae

extremosissimo, e eu perdi um amigo tão dedicado, que me confiava os

segredos dolorosos de toda a sua vida, dando-me a lêr o manuscripto das

suas memorias inéditas.

Pobre barão! Outros, que começaram mais tarde a frequentar a sociedade,

chegaram depressa ao galarim, tão depressa que, na allucinação do

triumpho, nem já o conheciam. Mas elle é que conhecia toda a gente: um

_shake-hand_ para a direita, um sorriso para a esquerda, parecia andar

fazendo as suas visitas de despedida antes de partir para a eternidade.

E para que ninguem podesse ficar aggravado com o muito que elle tinha

soffrido, perdoava a todos...

Morreu como viveu: um _gentleman_.

Manhãs de Cascaes · 第 26 / 75 题