Loucura alegre

Conta-se que sobre uma pequena terra de provincia cahira, não sei

quando, uma chuva verdadeiramente original, tão original, que perderam o

juizo todos os que a apanharam.

E o caso é que toda a gente d'aquella terra a apanhou, com excepção de

um sabio que ali vivia voluntariamente exilado, entregue a leituras

profundas, a estudos d'alta sciencia.

No dia da chuva, o sabio não sahiu; não sahia nunca. Ficou, portanto, em

seu perfeito juizo.

A gente da terra vivia principalmente dos trabalhos da agricultura, em

pleno campo, de modo que a chuva cahiu-lhe em cheio sobre a cabeça, foi

como se lhe alagasse os miolos...

Tendo endoidecido todos, o sabio era como que o unico pharol de bom

senso que brilhava n'aquelle vasto mar de loucura.

Aconselhava os outros.

Procurava chamal-os á razão.

Dava-lhes conselhos acertados.

Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos.

Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros

haviam apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar

restabelecel-os de um momento para o outro era o mesmo que remar contra

a maré.

Começou o sabio a inquietar-se com a sua propria situação, que em

verdade nada tinha de agradavel.

Receiava elle proprio perder o juizo, que tão preciso lhe era, como se

estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos.

A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o

biffe do almoço ou as torradas para o chá.

De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as

torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogão,

azoinando o amo.

O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava

engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava

tirar da gaveta uma camisa engommada.

Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia

estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a queria

comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao longe, de maneira que a

terra cahira em descredito, sabia-se que todos lá estavam doidos.

Os proprios trabalhos scientificos do sabio, até ahi tão considerados,

principiaram a ser suspeitos de loucura. Já não havia quem os quizesse

lêr. A opinião publica é assim. Até então, como corresse fama de que era

aquelle um grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de

repente, com a mesma unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de

que elle podesse conservar inteiro o juizo vivendo no meio de doidos.

--O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio.

Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pôças de agua da chuva,

começou a analysar chimicamente a agua para vêr se descobria o segredo

daquella extranha epidemia de loucura.

Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como

qualquer outra.

--Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto é tão

extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razão!

E a criada continuava a bailar e a dançar quando elle lhe mandava fazer

o biffe ou as torradas.

E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as

botas.

Os seus caseiros não se entendiam com elle, nem elle com os seus caseiros.

O padeiro, pela manhã, trazia-lhe pedras duras em vez de pão fresco.

O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe

arroz quando elle lhe pedia assucar.

De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia

perder o juizo que até então havia conservado.

Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pôças de agua da

chuva, que ainda havia. Poz-se de cócoras, olhou em roda, e reconhecendo

mais uma vez que todos estavam doidos, metteu as mãos na pôça, encheu-as

de agua, e começou a encharcar a cabeça.

D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupação anterior

havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razão, já não

se affligia com a loucura dos outros.

Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado á noite pelo Colyseu

dos Recreios, vi uma enorme multidão de povo invadir as portas, disputar

a entrada, ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da

Geraldine.

--Então, dizia eu com os meus botões, tudo isso de reducções

imminentes é uma fabula! O paiz está rico e contente. Diz-se que ha

miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O que se vê é que as

industrias estão prosperas, o commercio florescente. Os operarios,

voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de comprar

bilhete para a _geral_. Vender uma colonia! para que? O que o povo quer

é que lhe vendam um bilhete do Colyseu! Os jornaes portuguezes e

extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes!

Toda essa gente, que ahi se agglomera ás portas, estende para o

camaroteiro uma _nota_, offerece-lhe dinheiro, tão rica está toda a gente!

E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botões:

--... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a

cabeça na pôça d'agua!

Mas no domingo fui passeiar á Avenida como para procurar a contra-prova

do espectaculo da vespera.

Oh! que alluvião de gente! que bulicio! que vida! que animação!

Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande

esplendor de equipagens brilhantes.

O dinheiro trotava em bellos cavallos _pur sang_; rodavam titulos e

brazões, _fortunas_ colossaes deslisavam a quatro soltas,

pomposamente.

E eu continuava perguntando aos meus botões:

--Santo Deus! onde é que está o ultimo sabio d'esta terra?!

E olhava para o chão esperando vêr que o ultimo sabio, posto de cócoras,

estivesse olhando para os outros e molhando a cabeça com frenesi.

Qual! não era para o chão que eu devia olhar.

Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira

acocorar-se á vista dos seus patricios.

Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia

olhar; não para o chão. O chão! esse, coitado, estava pisado, moido do

continuo attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens.

O sol, bellamente festivo, cahia em palpitações de luz sobre a Avenida.

O monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul

luminoso parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol.

Chalets elegantes alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade.

Predios magnificos, alguns sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros

novos á ilharga da Avenida nas terras outr'ora desertas e solitarias. As

antigas hortas desappareceram para dar logar a palacios novos.

Guardas-portões imponentes encostavam-se ás portas vendo de longe

o formigueiro dos trens que passavam rodando ao trote largo de cavallos

finos.

E por mais que eu olhasse para o chão nenhum sabio, de cócoras, tratava

de molhar a cabeça para não ter que chorar sobre tanta alegria!

Então, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para não ser

atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada

mais e nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia

delineado quando a morte o surprehendêra.

_A Valsa_: era o titulo do poema.

A acção leva pouco tempo a contar.

Meia duzia de velhos, que no seu tempo haviam sido grandes valsistas,

resolveram, a despeito do peso dos annos, reconquistar uma hora de

mocidade, dar um baile em que todos elles valsassem como antigamente,

embora fossem morrendo de cansaço no meio da sala.

Assim fizeram. Na noite do baile, eil-os que entram no salão,

correctamente barbeados, tão gentis, quanto a idade lhes permittia,

dentro das suas casacas muito justas e luzidias.

Uma valsa de Strauss fez ouvir as suas primeiras notas. Tudo ali parece

palpitar ao som da musica,--os velhos principalmente.

E, cingindo a cintura de bellas damas, todos elles principiam a valsar

com a intrepidez dos vinte annos.

A valsa não affrouxa nunca, e os velhos valsistas, extenuados,

principiam a cahir de cansaço, pallidos, mortos, um após outro, até que,

estendidos sobre o verniz do salão, teem por funeral o baile, por _De

profundis_ a valsa de Strauss, que parece não acabar nunca!

Era phantastico o poema, excentrico o poeta.

Mas, o caso é que me lembrei do poema da _Valsa_, que, ai do poeta!

ficou apenas em projecto.

Tudo aquillo que eu tinha visto, no sabbado e no domingo, era como a

valsa dos velhos extenuados, que, ao som da musica, iam cahindo mortos

n'uma atmosphera de alegria e n'uma allucinação de prazer, que os matou

sem os ter remoçado, que os esgotou sem os ter divertido!

Manhãs de Cascaes · 第 20 / 75 题