Referiram ha tempos os jornaes que se tinha levantado na côrte de Berlim
uma grave questão de etiqueta,--grave como todas as questões d'este
genero, incluindo a do _Hyssope_.
A actual imperatriz, que prima por uma extrema simplicidade de vestidos
e maneiras, pedira ao imperador seu marido que dispensasse, nas grandes
solemnidades do palacio, os vestidos roçagantes, as longas _traines_
cadentes.
A condessa Waldersee, que tem auctoridade em questões de etiqueta,
reforçou com a sua opinião o pedido da imperatriz.
Mas Guilherme II não annuiu, e as extensas caudas de setim e velludo
continuarão a arrastar-se, sobre os tapetes da côrte allemã, longamente,
apparatosamente...
Á bocca pequena dizia-se em Berlim que no pedido da imperatriz havia o
que quer que fosse de vaidade feminina, porque, tendo uns pés
pequenissimos, não desejava que lh'os empanasse o vestido.
O imperador, conhecendo a intenção reservada da imperatriz,
entrincheirára-se na recusa, porque, não obstante as suas aventuras
d'amor, Guilherme II, como todo o marido que se prese, entende que deve
ser elle o unico a ter o direito de admirar as perfeições plasticas de
sua mulher.
Pelo que respeita aos pés femininos, dividem-se as opiniões. Os leitores
sabem-n'o tão bem como eu.
Entendem uns que os pés da mulher são tão pouco para admirar como a
haste de uma rosa. Todas as attenções se fixam na belleza da corolla, no
colorido das petalas. É a rosa fresca e bella? É isso o que se quer.
Tenha a mulher as graças do semblante, que os pés, que ficam lá muito
para baixo, escapam á vista, sejam grandes ou pequenos.
Outros porém, e estes são decerto em maior numero, adoram os pés
caprichosamente pequeninos, miniaturados a buril como por um gravador
que houvesse cegado depois de os ter feito...
Os que são d'este parecer defendem-se com a tradição da estatuaria
classica, com as lendas graciosas da bella plastica antiga, em que a
mulher, não raras vezes, apparece divinisada pela pequenez do pé.
Recordam a historia da _Cendrillon_, a nossa _Gata borralheira_, que
perdeu o chapim pelo qual um principe galante a mandára procurar até
que, encontrando-a, só descansou quando poude desposal-a.
Citam a tradição da formosa Rhodopis a quem, estando ella no banho, uma
aguia empolgou uma das sandalias, que deixou cahir no terraço do palacio
real de Memphis, onde o rei, apanhando-a, tratou de descobrir, desde
essa hora, o pequenino pé de que pela sandalia ficára enamorado.
É, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em
anecdota historica, como julga Husson.
Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que
sempre celebrou as mulheres de pés pequenos. E adduzem exemplos:
Tendes o pé pequenino,
Do tamanho d'um vintem:
Podia calçar de prata
Quem tão pequeno pé tem.
A verdade é que o arsenal de defesa dos que assim pensam está
copiosamente abastecido de citações e referencias, a que esses taes
poderão recorrer para seu triumpho.
Na écloga segunda de Bernardim Ribeiro,--de que os seus biographos tanto
se têem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta--é
tambem pelo pé de Joanna que o pastor Jano se deixa fascinar amorosamente.
Jano anda guardando o seu rebanho quando vê aproximar-se Joanna que,
vestida de branco, se entretém colhendo flôres. Elle occulta-se
espreitando-a. Colhidas as flôres,
Joanna, as abas erguidas,
Entrar pela agua ordenou;
E assentando-se, então
As çapatas descalçou,
E, pondo-as sobre o chão.
Por dentro d'agua entrou,
E a Jano pelo coração.
Ah! que é preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo,
pela infancia poetica da alma portugueza, tão simples, tão sincera e ao
mesmo passo tão docil, para não morrer de apoplexia fulminante ao
soar-lhe nos ouvidos este plebeu vocabulo _çapatas_, tão grosseiro e
saloio, como elle nos sôa hoje!
Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo não tem roubado a doçura,
essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar
deliciosamente as suas trovas com as boninas do coração namorado,
parecer-nos-ha, se o não avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a
gabar as çapatas amarellas da moça do prior!
Mas o pastor Jano não teve mão em si que não sahisse do escondrijo ao
encontro da bella zagalla. Ella, como Galatéa, esquivou-se fugindo:
Muito perto estava o casal
Onde vivia o pai d'ella,
Que fez ir mais longe o mal.
Que Jano teve de vêl-a:
Mas o medo que causou,
Joanna partir-se assi,
Tanto as mãos lhe embaraçou,
Que a çapata esquerda, alli,
Com a pressa lhe ficou.
Agora é que o ridiculo da situação parece subir de ponto, porque o
pastor Jano--o proprio Bernardim talvez--corre a abraçar-se com a
çapata, a chorar sobre ella, çapatando os peitos. É textual.
Çapata, deixada aqui,
Para mal de outro mor mal,
Quem te deixou, leva a mi:
Que troca tão desegual!
Mas pois assim é, seja assi.
Foi, portanto, pelo pé de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado
para o abysmo do amor,--com a çapata na mão.
Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em
publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a çapata da bem-amada,
era um homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo.
A Academia, elegante como ella é, diria, se alguem lhe fallasse em
admitil-o socio correspondente:
--Que! O da çapata?! Não póde ser! Elle que mude para chapim.
Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum
influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta,
responderia sorrindo:
--Ora adeus! O deputado da çapata?! É lá possivel! Você quer matar o
governo pelo ridiculo!
Todavia a Academia Real curva-se--e n'este ponto curva-se bem--perante
Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez.
As gazetilhas em verso fariam uma troça de seiscentos diabos ao anonymo
que ouzasse mandar para o _Diario de Noticias_ o seguinte annuncio:
«Ha oito dias que estou beijando incessantemente a çapata que v. ex.ª
perdeu em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no
banho. A çapata entrou-me pelo coração, como V. ex.ª pela agua.»
Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim
Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o
pinta á volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse
que era o auctor do livro das saudades, os srs. redactores
levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para offerecer uma
cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar cansado, por
vir de longes terras.
Mas, á parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova
do bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do pé
feminino.
Parece-nos galante toda a conjunctura em que um pé de fada se descubra
aos nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o
tapete de um salão, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na
concha ardente das nossas mãos aduncas...
Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D.
Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixão dramatica do
marquez de Torres Novas, e «subindo ambos uma escada, em tempo que
andava pejada D. Guiomar, lhe lançou mão dos chapins para que tivesse
menos pena na subida.»
Gentil, não é?
Todas as delicadas galanterias que se façam aos pés de uma mulher,
suppõem que o que n'elles encantou foi a perfeição com que a natureza os
talhou no marmore.
Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, têem cantado os pés
femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca.
Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas
insignificantissimas amostras.
De um poeta antigo; Rodrigues Lobo:
As flôres, por onde passa,
Se os pés lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem côr
E de vergonha com graça.
Qualquer pégada que faça
Faz florescer a verdura,
Vai formosa e não segura.
Citarei apenas dois poetas modernos.
É conhecidissimo o bello pensamento de João de Deus:
O que te falta pois? os teus desejos
Quaes são? de que precisas?
Ah! não ser eu o marmore que pisas...
Calçava-te de beijos!
O soneto _A Borralheira_, de Luiz Guimarães, é dos mais scintillantes da
sua lyra ardente:
Meigos pés pequeninos, delicados
Como um duplo lilaz,--se os beija-flôres
Vos descobrissem entre as outras flôres,
Que seria de vós, pés adorados!
Como dois gemeos sylphos animados,
Vi-vos hontem pairar entre os fulgores
Do baile, ariscos, brancos, tentadores...
Mas, ai de mim!--como os mais pés calçados
«Calçados como os mais! que desacato!
Disse eu.--Vou já talhar-lhes um sapato
Leve, ideial, fantastico, secreto...»
Eil-o. Resta saber, anjo faceiro,
Se acertou na medida o sapateiro:
Mimosos pés, calçai este soneto.
A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que são como que
migalhas de philosophia, impõe-se ao nosso espirito na immensa variedade
de assumptos que podem impressional-o.
Ora os antigos diziam: _Ne quid nimis._ Nada que seja de mais. Eu fui
educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio
posso calçar um pé de mulher, acho que o proverbio é bom, e que o pé é
ainda melhor. Se não posso, quer-me parecer que os meus velhos
educadores me estão segredando em espirito com a auctoridade dos seus
cabellos brancos: «Ahi ha pé de mais e proverbio de menos.»
_Ne quid nimis_ ou, como dizem os francezes, _Rien de trop_... até nos
pés!