Escolhamos alguns dos typos que avultam na galeria das praias, para
fixarmos n'elles a nossa attenção por um momento.
_O fallador_--É o discursador de cada praia, o homem que conta anecdotas
e que sabe da vida alheia. Tem corda para toda a época balnear.
Levanta-se pela manhã a fallar, vai conversar para a praia dos banhos
logo que se levanta, e á noite é o ultimo a sair do club.
--Meus amigos, diz elle, alli na Arruda aconteceu-me uma vez uma partida
de estalo. Imaginem que um rapaz do meu tempo, vendo-me apeiar da
diligencia, se lembrou de dizer aos da terra que eu era o homem mais
rico de Portugal. D'alli a pouco choviam-me no _hotel_ memoriaes,
requerimentos, bilhetes de visita. Um tal foi propôr-me um negocio que
devia render cincoenta por cento. Outro queria vender-me uma
quinta phylloxerada. E um pai de familia pretendia que eu lhe desposasse
a filha... no caso de ser solteiro. Via-me embaraçado com tantos pedidos
e propostas. De modo que tive de escrever para um meu amigo de Lisboa
pedindo-lhe que me dissesse em telegramma; «Falliu Rio Janeiro casa
Antunes & C.ª Paciencia e resignação.»
Eu li este telegramma na botica da terra, onde me foi entregue, e
exclamei fingindo desmaiar: «Estou arruinado!»
Acreditaram. Nunca mais ninguem me procurou para saber a resposta que eu
daria aos memoriaes e aos requerimentos.
D'alli a instantes:
--Em Maçãs de D. Maria tambem me aconteceu um caso muito ratão. Eu tinha
ido lá para arrematar uma quinta, que devia ir á praça n'esse dia. Mas,
por qualquer motivo, não se realisou a arrematação. Logo souberam,
porém, ao que eu ia. Á noite, armaram um bailarico, e convidaram-me para
assistir. Houve descantes em minha honra. Mas no dia seguinte,
realisava-se a festa de um santo qualquer e vieram dizer-me que eu tinha
de pagar a missa e o sermão, porque era costume da terra que toda a
pessoa que alli fosse pela primeira vez, e recebesse a honra de um
bailarico, fizesse á sua custa a festa d'aquelle santo.
No club, á noite:
--Uma vez, na Narazeth, lembramo-nos de ir todos para o club vestidos
com o fato do banho. Imaginem que risota?!
--Mas as senhoras? O que disseram as senhoras a isso? pergunta alguem,
do lado.
_O fallador_ não se atrapalha:
--Ah! as senhoras não foram n'essa noite ao club...
_O silencioso_--Ouve tudo calado, mascando no seu charuto. Não aventa
uma ideia, não arrisca uma opinião. Não quer conhecer ninguem. Os outros
banhistas que se riem do _fallador_, riem-se igualmente do _silencioso_.
Ao cabo de vinte dias de praia, o _silencioso_ aventura-se a proferir
uma palavra ou duas. Em vez de levar apenas a mão ao chapeu, rompe neste
excesso de eloquencia: «Muito bons dias» ou «Muito boas noites». Cinco
dias depois, já cumprimenta um ou outro pelo seu nome. E no fim do mez,
quando parecia resolvido a fallar, vae-se embora!
Uma vez, n'uma praia, appareceu um _silencioso_ d'estes. Havia um
_fallador_, que embirrava muito com elle. Era natural.
--Eu hei de obrigar a fallar este diabo...
Fazia-lhe uma pergunta, e o homem contentava-se com encolher os hombros.
--Não importa! Eu hei de obrigar a fallar este diabo... dizia o
_fallador_ assim que o _silencioso_ voltava costas.
--O cavalheiro toma banhos?
O _silencioso_ meneiava affirmativamente ou negativamente a cabeça.
Desesperado, o _fallador_, estando certo dia a contar uma das suas
muitas historias, fingiu-se distraido, e pisou o outro.
--Que bruto! exclamou o _silencioso_.
--Mas... fallou! gritou cheio de jubilo o _fallador_.
O _generoso_--Vá, rapazes, lembrem-se vocês d'alguma festa, e contem
commigo. Póde-se tirar partido de tanta coisa! Querem um arraial? Eu dou
o fogo de vistas. Querem uma regata? Eu dou os premios. Querem uma
burricada? Eu dou os burros.
--Não os ha, diz alguem, do lado.
--Qual não ha! Tudo são difficuldades! Já não ha rapazes!...
--O que não ha são burros.
--Burros! ha sim, sr. Eu encarrego-me de os mandar vir pelo caminho de
ferro ou, se tanto fôr preciso, pelo telegrapho. Onde ha dinheiro, ha tudo.
O _sovina_--Andam ahi a fazer uma subscripção? Tem graça! Quem
encommendou o sermão, que o pague. Eu nunca na minha vida dei dez réis
para divertir os outros. Pelo contrario, o que eu quero é que os outros
me divirtam a mim. Agora uma _soirée_! Não vou a parte nenhuma para
tomar chá. Tomo-o em minha casa quando quero. De mais a mais uma
_soirée_ com bolos saloios, que quebram os dentes á gente! E chá de
herva cidreira ainda por cima! No chá não se admitte meio termo: ou bom
ou nada. Eu não gosto senão do Hyson. E depois dá cá dez tostões! Ora
que tal está a maroteira! Queriam dançar? Dançassem a sêcco. Quanto mais
leve se está, melhor se dança!
O _pai extremoso_--É a primeira vez que o cavalheiro vem a esta praia?
--Sim, sr.; é a primeira vez.
--Então hade conhecer poucas senhoras?
--Muito poucas.
--É uma contrariedade para quem gosta de dançar. O cavalheiro dança?
--Gosto muito.
--Pois bem, esta noite queira procurar-me no club, que eu o apresentarei
a tres ou quatro senhoras.
--Oh! mil vezes obrigado.
--Se me não custa nada!
Á noite, no club, o _pai extremoso_ procede ás promettidas apresentações.
--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Engracia.
E passando em claro apenas uma cadeira:
--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Cecilia.
E duas cadeiras mais adeante:
--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Conceição.
Depois, filando o apresentado pela lapella do frack:
--Agora já o cavalheiro tem muito com quem dançar. Para o caso, porém,
de querer variar um pouco, apresento-lhe ainda a minha Mimi, que tem
apenas nove annos, mas que gosta muito de dançar. Aprendeu com o Justino
Soares, e elle disse-me quando viemos para cá: «Esta menina ha de vir a
dançar ainda melhor que as irmãs!»
O _pai indiferente_.--Passo.
O filho mais novo, chegando-se ao pé da mesa do voltarete:
--Manda dizer a mamã se faz favor de ir á sala para arranjar um par para
a mana. Ella ainda não dançou.
--Diz á mamã que vou já.
D'ahi a pouco volta o pequeno:
--Faz favor de lá ir, que se vai dançar uma quadrilha.
--Peço licença.
--Que diz o papá?
--Que já lá vou.
--Então eu espero pelo papá.
--Isto não tem discussão possivel: cinco matadores.
--Venha d'ahi, papá.
--Dois de licença, cinco de matadores, dois de cinco primeiras: nove.
--Olhe, papá, já começou a quadrilha!
--Quando se dançar outra, vem chamar-me.
O _commodista_--Meninas, olhem que já são dez horas.
--Ámanhã é dia santo, papá.
--Ó Jeremias! deixa dançar as pequenas mais um bocado...
--Perde-se todo o effeito dos banhos com estas noitadas!
--É só mais um bocado...
--Nada! nada! já estou com muito somno.
--Vê se o espalhas.
--A Rosa já deve ter feito o chá.
--És massador!
--Ai que deixei a janella do quarto aberta, e entram os mosquitos! Vamos
lá depressa...
O _sucio_--Eu cá sou de feição. Não gostei nunca de desmanchar prazeres.
Podem dançar á vontade, que eu vou vêr jogar.
E vae para a rua conversar com as raparigas do povo, que espreitam á
porta do club.
Uma hora depois, volta á sala.
--Então, ainda querem dançar mais?
--Só mais uma valsa.
--Pois sim! Eu cá não quero ser desmancha-prazeres. Vou lêr os jornaes,
que remedio!
E torna para a porta do club a conversar com as raparigas do povo.
--Ó Melôa, já te vaes embora?
--Já, sim, sr., e não tenho medo dos ladrões.
--Pois fazes mal. Espera ahi, que eu acompanho-te. Sempre é bom
acautelar...
O _indigena da praia_--Quem diabo serão os patuscos, que andam a tocar
trompa a esta hora?! Estava no melhor do meu somno! Corja de patifes!
_Os da trompa_--Sopra-lhe ahi com força para accordares o Diamantino,
que me vendeu um fato de banho por mais seis tostões. Patife!
V
Casos...
Conta-se a anecdota de certo prelado de uma diocese do Alemtejo, homem
de lettras afamado, que viveu no tempo do marquez de Pombal e que, em
estando entregue aos seus trabalhos litterarios, de nada mais queria saber.
Um anno, pelo tempo das boas-festas, estava o bispo sentado á banca, no
seu vasto escriptorio--um salão do paço episcopal--quando um diocesano
entrou para cumprimental-o.
O prelado não deu tento da entrada do homem, tanto era o interesse que
lhe merecia o assumpto de que estava tratando.
--Sr. bispo! apostrophou timidamente o recem-chegado.
O bispo não ouviu.
--Sr. bispo! tornou a exclamar o visitante.
Nada! O bispo não ouvia.
Então, muito compromettido, o visitante resolveu-se a empurrar uma
cadeira para fazer barulho.
O bispo voltou de subito a cabeça. Viu-o, e perguntou:
--O que é que quer?
--Eu vinha visitar v. ex.ª
E o bispo, continuando a escrever, respondeu:
--Pois visite, visite.
* * * * *
O curso do quinto anno de direito estava simulando audiencias, como é
costume, fazendo um estudante de juiz, outro de escrivão do processo,
outro de official de diligencias, etc.
Constituiu-se o tribunal, e o professor da cadeira disse ao estudante
que representava de juiz:
--Ha sussurro na sala. O que faz o sr. juiz?
--Toco a campainha, e recommendo silencio ao auditorio.
Mas o professor insistiu:
--Continua o sussurro. O que faz o sr. juiz?
--Torno a tocar a campainha, e de novo recommendo silencio.
--Mas supponha que não basta isso. O sussurro continua.
--N'esse caso, direi: Official, tome nota das pessoas que estão fazendo
sussurro, para serem autuadas.
--Mas o sussurro redobra.
E o estudante, já muito atarantado, exclama:
--Redobra!
--Sim, senhor,--o sussurro redobra.
O estudante pensa um momento...
--Então, insiste o professor, o que fazia o sr. juiz?
--Eu? Eu fazia isto: punha o chapeu na cabeça e dizia: Está levantada a
sessão.
Riu o professor, riu todo o curso, e o estudante salvou-se da entalação
d'aquelle dia,--por ter tido uma idéa e um chapeu.
* * * * *
Havia um grande capitalista, que, por ter um sobrinho muito
extravagante, já lhe não queria dar vintem.
Um dia appareceu-lhe o sobrinho annunciando que ia partir para os
Estados Unidos, onde poderia vender melhor do que em Portugal, dizia
elle, o segredo de uma invenção maravilhosa.
O tio, picado de curiosidade, quiz saber no que consistia a maravilhosa
invenção. Recusa do sobrinho. Insistencia do tio. Finalmente, o
sobrinho revelou o seu segredo: tinha descoberto o processo de fazer
oiro. O tio, tão rico como ambicioso, resolve comprar-lhe o segredo por
seis contos de réis. O sobrinho, simulando alguma difficuldade, acaba
por vender-lhe a receita, que o tio paga immediatamente. Concluida a
transacção, despedem-se, mas, já no fundo da escada, diz o sobrinho ao tio:
--Ah! esquecia-me uma coisa, meu tio. Para que a receita dê resultado
satisfatorio, é preciso que o tio, quando quizer fazer oiro, não se
lembre do _elephante branco_.
E saiu com o dinheiro na algibeira.
O tio tratou de montar o seu laboratorio, e de realisar a receita. Mas,
por mais que quizesse affastar do seu espirito a idéa do _elephante
branco_, essa terrivel idéa acudia-lhe sempre, pelo que jámais conseguiu
tirar da compra que fizera o resultado que esperava...
* * * * *
Não sei quando, nem mesmo onde, existiam dois esposos, que se
enriqueceram... de filhos. A boa fortuna parecia apostada em querer que
elles esgotassem todos os nomes do _Flos sanctorum_.
Começaram pelos vulgares. Os primeiros filhos chamaram-se Manuel,
Joaquim, Antonio, João. Depois passaram a escolher nomes
romanticos: Arthur, Laura, Beatriz, Egberto. Por ultimo, tiveram
que lançar mão dos nomes mais esquisitos e arrevesados: Cunegundes,
Tecla, Mafalda, Thimoteo.
Um dia, quando já era difficil saber a conta de todos os filhos, e
acertar-lhes de prompto com os nomes, saiu o pae a passeio e, longe de
casa, encontrou na rua uma creança que chorava, escondendo o rosto entre
as mãos.
Apiedou-se, dirigiu-se á creança, levantou-lhe a cabeça, achou que tinha
uns olhos bonitos, e disse-lhe:
--O que fazes tu por aqui, meu menino!
--Ando perdido.
--Pobre creança! Sabes quem é a tua familia?
--Não estou bem certo d'isso, meu sr.
--Tens fome?
--Muita, muita.
--E frio?
--Muito frio...
--Está bem, anda d'ahi comigo.
Onde ia elle levar a creança? Ora! onde é que o negociante feliz vai
depositar os seus lucros? No Banco. Pois o Banco onde esse feliz casado
enthesourava todos os lucros da sua prosperidade conjugal era... a sua
propria casa,--o seu lar.
Chega elle, muito contente, com a creança pela mão.
--Querida mulher! disse ao entrar em casa. Trago-te mais uma creança...
--Outra?!
--Sim, filha, tu és bondosa, compassiva, has de comprehender o impulso
do meu coração.
--O que queres dizer?
--Quero dizer que encontrei na rua, abandonada, esta pobre creança, que
não sabe ao certo quem são os seus pais e onde moram.
E o pequeno, escondendo o rosto choroso entre as mãos, arquejava,
soluçava...
--Vendo-o, pensei commigo mesmo: Onde cabem vinte, podem caber vinte e
um. Eis aqui está o que eu pensei, e trouxe-o commigo.
--Que Deus nos ajude, homem! mas já estávamos tão sobrecarregados!
--Quando tinhamos apenas seis filhos já diziamos isso mesmo! E comtudo
tem havido logar para todos, nenhum d'elles ainda morreu de fome.
--Pois bem! fique o pequeno.
A creança conservava-se ao canto da casa, soluçando, arquejando.
--Disseste que era bonito o pequeno?
--Olha para elle, e verás os lindos olhos que tem!
--Levanta a cabeça, meu menino.
A creança não se mexia. Arquejava, soluçava.
Então foi preciso levantar-lhe a cabeça quasi á força.
--Ora esta! exclama a dona da casa.
--O que é?! pergunta o marido.
--É o nosso Augusto!
Eram tantos, que já nem o pai os conhecia!
* * * * *
Sabem o que é muito difficil no carnaval?
É encontrar um companheiro que nos não incommode e que nos não contrarie.
Ah! isso é que é muito difficil!
Eu apenas conheço um caso em que certo amigo meu poude encontrar o
melhor dos companheiros para um baile de mascaras.
Esse companheiro era um general, que parecia excellentemente disposto:
alto, forte, com um bello bigode branco, e algum brilho ainda nos olhos.
O meu amigo convidou-o para irem a um baile de mascaras. Acceitou logo.
Foram.
Uma vez no baile de mascaras, o meu amigo sentou-se junto a duas
mulheres mascaradas. O general tambem. O meu amigo fallava-lhes. Ellas
respondiam. Só o general estava calado, parecendo comtudo
excellentemente disposto.
Convidou-as o meu amigo para irem ceiar todos juntos. O general não
oppôz a menor resistencia.
--Pois sim! vamos lá ceiar, disse elle.
Foram ceiar.
As mulheres tiraram a mascara. O meu amigo disse a uma das mulheres que
gostava muito d'ella, o general não disse nada á outra.
Comeram. O general comeu tambem. No fim da ceia, queimaram todos quatro
as suas cigarrilhas. O general parecia excellentemente disposto.
Desabotoou o collete, repotreou-se na cadeira, accendeu segunda cigarrilha.
Veiu a conta. O meu amigo quiz pagar toda a despeza; o general não
consentiu, quiz pagar tambem a sua parte.
Sairam.
O meu amigo, voltando-se para o general, disse-lhe:
--E agora?
O general, parecendo sempre muito bem disposto, inclinou-se ao ouvido do
meu amigo, e disse-lhe:
--Olhe, meu caro, eu já não tenho condição nenhuma para gostar de um
baile de mascaras.
E o meu amigo, sem se desconcertar, sem se surprehender, offereceu o
braço direito a uma das mulheres, o braço esquerdo á outra, e disse ao
general, que continuava a parecer muito bem disposto:
--Boa noite, general.
* * * * *
Certo estudante, tendo faltado ás aulas, apresentou uma certidão de
doença, falsa.
O medico que a passára era uzeiro e vezeiro em justificar a cabula dos
estudantes, que lhe pagavam a justificação.
Do alto da cathedra, o professor, tendo relanceado os olhos á
assignatura da certidão, perguntou:
--Ó sr. Fulano! se estivesse doente chamava este medico para o tratar?
O estudante respondeu com promptidão e firmeza:
--Não, senhor.
* * * * *
Tinha Antonio Feliciano de Castilho ido ao Rio de Janeiro, e fôra
recebido em audiencia particular pelo imperador D. Pedro II.
A conversação versou, como era natural, sobre assumptos litterarios.
Castilho havia sido prevenido de que o imperador, por amor á discussão
com homens notaveis, gostava de que elles o contrariassem nas suas
opiniões.
Assim avisado, se o imperador dizia que tal objecto era branco,
Castilho sustentava que esse mesmo objecto era preto.
O sr. D. Pedro II estava delirante de alegria, e propositadamente
prolongava a conversação.
Veiu a ponto fallarem de versos alexandrinos.
O imperador declarou que não gostava do verso alexandrino, de que, como
se sabe, Castilho era enthusiasta.
--Ser-me-ha licito, disse Castilho, perguntar a vossa magestade os
fundamentos da sua opinião?
--Acho o alexandrino--replicou D. Pedro II, um metro inutil, por isso
que é composto de dois versos de seis syllabas. Digam francamente que
fazem versos de seis syllabas, e escusam de baptisar cada parelha de
seis syllabas com o pomposo nome de alexandrinos.
Castilho replicou:
--O que faz vossa magestade quando tem sêde?
O imperador sorriu-se, e respondeu:
--Bebo agua.
--Ora muito bem! tornou Castilho, mas se vossa magestade beber agua por
dois copinhos, não fica tão satisfeito como tendo-a bebido de um só
trago por um copasio enorme.
* * * * *
Um homem que se dava excellentemente com a mulher, e que tinha trez
filhas muito bonitas e trez filhos muito espertos, não podia soffrer a
sogra,--como quasi sempre acontece.
Um dia, ella adoeceu gravemente, muito gravemente. Foi preciso chamar o
medico que, depois de lhe vêr a lingua e tomar o pulso, torceu o nariz.
--Isto não está bom! disse o medico.
--O que se ha de fazer então?
--Deitar-lhe bichas, já, immediatamente.
Mandou-se, sem perda de tempo, buscar as bichas, muitas bichas.
O bom do genro assistiu á chegada das bichas, viu-as deitar, chegou
mesmo a perguntar se ellas tinham feito bem o seu dever: morder na sogra.
Á noite, no club, dizia elle:
--Assisti hoje a um combate de feras.
--Como assim?!
--Vi deitar duas duzias de bichas em minha sogra...
* * * * *
Certo professor de medicina perguntava a um estudante:
--Por que é que no tratamento das feridas se emprega o panno de linho
velho?
O estudante procurou qualquer razão, e disse-a.
--Não, sr., replicou o cathedratico.
O estudante tratou de procurar outra razão.
Observação do professor:
--Tambem não.
O estudante dá ainda tratos á cabeça para descobrir uma terceira razão.
Então o professor resolve-se a fazer luz no assumpto:
--Por duas razões, e nenhuma d'ellas o sr. foi capaz de descobrir! 1.ª
Porque o panno de linho velho é mais barato. 2.ª Porque o panno de linho
novo é mais caro.
* * * * *
Eu estava uma vez no escriptorio de um advogado meu amigo, homem de
lettras, jornalista principalmente, que me pedira que esperasse emquanto
elle acabava de escrever um artigo de fundo.
A penna rangia vertiginosamente sobre o papel.
Eis senão quando entra um saloio.
--Que é? perguntou o advogado escrevendo sempre.
O saloio respondeu:
--Vinha consultar v. ex.ª sobre uma pequena questão.
--Vá dizendo.
O saloio olhou para o advogado, olhou para mim e olhou para um espelho
que havia no escriptorio. Estava embaraçado, duvidoso de expôr o seu
assumpto sem que o advogado se prestasse a dar-lhe toda a attenção.
--Vá dizendo, repetiu o advogado.
--Sr. dr.: Ha na minha terra uma mulher de má lingua, que traz todo o
logar embrulhado. Por causa d'ella lavram inimisades de familia,
questões entre casados, o diabo! Mas de cara a cara ella não se mette
com ninguem; é só por traz da cortina. Veiu para lá ha tres annos,
comprou uma casita, e trabalha de tecedeira. Mas o que ella tece melhor
são intrigas. Por sua causa estou de mal com meu sogro e com meu
cunhado. Eu e outros mais da freguezia queremos pôl-a fóra do logar, mas
não sabemos a quem havemos de requerer...
E calou-se. O advogado continuava escrevendo.
--Não sabemos a quem havemos de requerer... repetiu o saloio.
O advogado não respondeu.
--Sr. dr., perguntou o saloio, a quem havemos nós de requerer?
O advogado nem palavra.
Mas o saloio não desistiu. Aproximou-se da banca, e tornou a perguntar
curvando-se até quasi juntar a sua cabeça com a do advogado:
--A quem havemos nós de requerer, sr. dr.?
--A D. Miguel, respondeu o advogado continuando sempre a escrever.
* * * * *
Quem conhecia bem a formiga era um certo lavrador do Alemtejo, cujo
celleiro as formigas tinham invadido como praga damninha.
Elle consultou todos os chimicos afamados para que lhe vendessem um
ingrediente que as matasse.
A droga que lhe receitou o boticario da sua terra, não deu resultado.
Veiu de proposito a Lisboa, conversou sobre o assumpto com os mais
conspicuos pharmaceuticos da capital.
--Faça isto.
--Faça aquillo.
--Faça aquell'outro.
Nada deu resultado. Um dia, na charneca, aconselhou-se com um pastor.
Obrigados, pela solidão em que vivem, á observação da natureza e á
philosophia da experiencia, os pastores da charneca têem ás vezes
phrases conceituosas, alvitres sapientissimos.
O pastor deu-lhe um conselho, que valia mais do que as drogas dos
pharmaceuticos.
Chegado a casa, o lavrador pegou n'uma tira de papel, escreveu n'ella
algumas palavras, e foi pregal-a na porta do celleiro.
Legiões de formigas avançavam, pelo veso, em demanda das tulhas. Mas
logo que avistavam a porta, e liam o lettreiro, retrocediam como que
embuchadas.
No dia seguinte, a mesma coisa. O pastor tinha aconselhado um remedio
excellente.
O que escreveu o lavrador no papel? Esta simples phrase:
«_De hoje em deante, toda a formiga que entrar no meu celleiro ha de
pagar dez réis--por cabeça._»
Ora como as formigas são essencialmente avarentas, chegavam á porta do
celleiro, liam o papel, e desandavam para a toca, não sabendo ao certo
se o lavrador gracejaria ou fallaria verdade.
* * * * *
Um moço de fretes costumava ir confessar-se todos os annos, mas fazia a
sua chorata ao prior para não ter que pagar a _desarrisca_. De uma vez,
porque lhe parecesse que o prior se aborrecia com a choradeira, que era
fingida, andou a procurar entre os seus patacos um que tinha peor cara e
que por isso mesmo era mais duvidoso.
Foi confessar-se, muito contricto, com o pataco falso na algibeira.
Antes de receber Nosso Pae, pensando sempre em Deus e no pataco,
dirigiu-se para a sachristia.
--Sr. prior, disse elle, eu tenho abusado muito da bondade de v. s.ª
--Nem por isso, Ramon...
--Tenho, tenho, sr. prior, mas este anno não ha de ser assim.
E, dizendo, tirava vagarosamente da algibeira do collete o que quer que
fosse.
--Este anno, continuou, quero pagar a _desarrisca_. Se o sr. prior
estiver pelos autos, ficará o costume de eu pagar de dois em dois annos.
--Pois seja como quizeres.
E o moço de fretes, tirando o pataco da algibeira, pôl-o a um canto da
mesa em que o prior estava escrevendo no livro.
--É poucochinho, sr. prior, mas os annos vão muito bicudos...
--Não fallemos mais n'isso.
--Sempre chega para o rapé. Este pataquinho é para o rapé do sr. prior.
--Pois seja.
E o prior, voltando-se para o menino do côro, que estava perto,
disse-lhe imperativamente:
--Ó Zé Maria, vae-me ali defronte comprar um pataco de meio grosso.
O Zé Maria sahiu, a correr, e o moço de fretes, sempre muito
contricto, foi ajoelhar-se á mesa da communhão, esperando pelo prior.
Um instante depois, o menino do côro entrava na sachristia com o rapé e
com o pataco.
--Sr. prior, disse elle, não quizeram receber o pataco.
--Por quê?
--Porque é falso como Judas. Mas obrigaram-me a trazer o rapé por ser
para o sr. prior.
--Deixa lá vêr o pataco.
O prior pegou no dinheiro, levou-o á altura dos olhos, e riu-se.
Levantou-se, preparou-se para ir dar a communhão.
Chegando á egreja, descobriu o moço de fretes, que estava já com o
queixo muito embrulhado na toalha de rendas.
O prior foi distribuindo as sagradas particulas, mas quando chegou ao
gallego, introduziu-lhe o pataco na bocca,--delicadamente.
Habituado a grandes pesos, o penitente nem sequer se admirou de que
fosse tão pesada aquella estranha particula.
Mas quando quiz engulil-a, é que foram ellas!
E o prior, de pé, grave e solemne, esperava.
Bem voltas dava á lingua o gallego, mas não havia meio de engulir o pataco.
Até que, com alguma difficuldade, se resolveu a dizer:
--Não passa, sr. prior!
E o prior, sempre muito grave e solemne respondeu-lhe:
--Não passa, não. Já mandei comprar rapé, e não o quizeram acceitar.
* * * * *
--Por que é, perguntava um professor de agricultura, que as sementes
precisam ser enterradas na terra?
--Por isto... dizia um estudante.
--Por aquillo... respondia outro.
O professor zangou-se:
--Não, sr.! É preciso enterrar as sementes para os passaros as não
comerem.