De manhã cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado,
estupido, de quem acaba de accordar.
Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios.
Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi
n'uma praia que eu descobri que certa dama, aliás formosa, tinha uma
orelha maior que a outra... de manhã!
Dar-se-ia o caso que, depois de feita a _toilette_, a orelha mais
pequena crescesse ou a maior diminuisse?
Certamente que não. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao
cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar
salvava a situação: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha,
que a natureza fizera subir.
* * * * *
Em questões de _toilette_, o meio termo não é admissivel: ou tudo ou
nada. Ou a _toilette_ esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado
original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho
é o meio termo: a folha de figueira. Para vestir... é pouco; para
despir... é muito.
Ha porém uma coisa peior do que vestir um fato de banho: é querer
sophismal-o.
Certas damas, quando chegam á praia, conseguem dar na vista pela
perfeição plastica das suas curvas. Ao entrar na agua, vestidas para o
banho, perdem as curvas. Não perderam; deixaram-n'as na barraca. Este
sophisma deploravel revela a carencia de um bom argumento. Argumento ou
augmento. O eufemismo é o mesmo. Mas só a praia consegue revelar um
segredo, de que, quando muito, apenas se suspeitava...
* * * * *
Andam pessoas a enganar-nos durante onze mezes em cada anno.
Suppomol-as polidas, eruditas, francas, estimaveis.
Em Lisboa, quando as encontravamos na rua, trocavam comnosco um
_shake-hand_, tinham um dito amavel ou sentencioso, pareciam-nos
cordealmente expansivas.
Nas praias, á sombra de um _chalet_ ou de uma arvore, durante duas horas
de conversação, desmascaram-se. Dia a dia, podemos fazer o inventario
das suas idéas, dos seus sentimentos, das suas opiniões. E, ao cabo de
um mez de estação balnear, averiguamos que:
Fulano, que vae á missa em Lisboa, não crê em Deus.
Sicrano, que tinha fóros de erudito, apenas lê a _Revista dos dois mundos_.
Beltrano, que parecia fallar-nos com o coração nas mãos, não fazia outra
coisa senão metter-nos os pés nas algibeiras.
* * * * *
Em Lisboa, accusa-se o Gremio e a Havaneza de terem má lingua.
Pobre Havaneza! pobre Gremio! pagam as favas injustamente.
A maledicencia habitual d'esses dois pontos, de reunião tem apenas um
caracter pessoal. Eu explico. Ordinariamente, falla-se só do sujeito que
passou ou do sujeito que saiu.
A maledicencia das praias estende-se á geração, chega ao pae, passa ao
avô, alcança ás vezes o bisavó. É retrospectiva. Por exemplo:
--Quem é aquelle sujeito que vem acolá?
--Pois não conhece! É fulano.
--Não conheço.
--Ha de lembrar-se com certeza do caso da herança do Gutierres. Foi
muito fallado.
--Lembro-me, sim.
--Pois este é que falsificou o testamento.
--Este! E anda vestido de branco,--como as virgens!
--É de familia...
--O fato branco?
--Não. A alma negra. O pae foi negreiro.
--Já vem mais de traz, isso.
--Por quê?
--O avô enriqueceu no tempo dos francezes, dando assalto ás casas dos
visinhos que tinham fugido.
O sujeito aproxima-se, dois ou tres levantam-se para abraçal-o; mas a
esse tempo, que foi pouco, já lhe está desenterrada a familia até ao avô.
O vagar faz colhéres, diz o povo. Nas praias, o vagar faz exhumações
tremendas. Não ha bisavô que esteja seguro na sepultura.
* * * * *
Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa,
para se dar importancia a uma mosca, é preciso que ella haja sido
audaciosa até o ponto de escolher para suicidar-se o nosso prato de
sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias, as moscas
matam. Teem dentes; são carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a
gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas
pelos banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de
troça umas com as outras.
Só nas praias é que o europeu consegue ser victima das moscas. E
fallarmos nós com horror das moscas de Africa! As moscas saloias são
muito peiores!
* * * * *
Em Lisboa, os criados passam ás vezes um anno inteiro sem partir loiça.
Mas, chegando ás praias, os seus dedos parecem debeis como vimes.
Quebram hoje um copo, ámanhã um prato, escacam, em quinze dias, metade
da loiça do senhorio.
Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de
loja em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado.
--Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma chavena!
--É vulgar.
--Quebrar é vulgar; mas a chavena é que o não era.
--Como assim?!
--Quando eu vim, a senhoria disse-me: «Peço a v. ex.ª todo o cuidado com
esta chavena, que era a chavena do papá.»
--Como o sabre da _Grã-duqueza_!
--Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de nós
tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loiça. Mas o meu criado ousou
limpal-a hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta á procura de uma
chavena, que possa continuar a ser, na tradição da casa, a _chavena do
papá_!
* * * * *
Nada ha que me dê tanto a impressão do communismo como um club de praia.
É de todos, sem pertencer a ninguem.
Cada um que vem chegando pensa que o club é seu. A primeira cousa de que
se apossa é... o piano. O piano passa a ser, não um instrumento de
musica, mas um escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um
negro, cujos dentes são muito brancos... Açoutam-n'o com as mãos, e não
protesta; dão-lhe pontapés no pedal, e não se desconjunta. Familias
inteiras vão affirmar no teclado os seus direitos de socio. A mãe toca a
_Norma_, que é uma opera do seu tempo, a filha perpetra a
_Carmen_; o filho executa os _Fados_--com a mão direita.
O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a não deixal-os lêr por
mais ninguem.
As primeiras senhoras que á noite chegam ao club parecem tomar gosto á
grandeza da sala...
O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem á
porta a contemplal-as... de longe.
Mas, como isso não acontece, as que já estão de posse da sala,
preparam-se para o ataque, assestam as suas baterias.
É o _lorgnon_...
É o sorriso sardonico...
É o ditinho picante...
Tudo isto entra em fogo ao mesmo tempo.
Depois, as que acabam de chegar, fazem causa commum com as que já tinham
chegado e, preparadas para o combate, ficam á espera das que hão de
chegar ainda...
* * * * *
Ha sempre nas praias uma menina que recita.
De pé, quasi sempre vestida de branco, recita versos azues. Quero dizer,
versos ethereamente romanticos. Em quanto ella recita, a mãe põe
os olhos no chão. As outras senhoras põem o leque diante da cara.
Algumas vezes, a menina engana-se, falta-lhe a memoria. Nem para traz
nem para deante.
Então lança mão de um recurso supremo: desmaia.
--Um medico! Não está ahi um medico?
N'uma praia estão sempre quatro medicos, pelo menos.
Vem um.
--Isto não é nada, passa já.
Mas o irmão mais novo da menina desmaiada foi, a correr, buscar a casa o
_Almanach das Senhoras_.
E, reanimada por este auxilio, a menina continua a recitação, ficando o
irmão mais novo mettido atraz do piano,--servindo de ponto á mana.
* * * * *
Tambem ha sempre uma menina que tem album.
Pede, a torto e a direito, uns versos, um desenho, uma melodia.
Póde imaginar-se o valor do album dizendo que são os poetas que
desenham, são os pintores que fazem versos, são os que sabem fazer
desenhos ou versos que escrevem a melodia.
Em conclusão: ninguem quer perder n'um album o melhor do seu
talento...