Chegou o inimigo.
Ouvi hontem o seu clarim vibrante resoar sobre a minha cabeça em som de
guerra.
Era a guarda avançada do grande exercito alado do verão, hunos do ar que
invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as
nossas precauções e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino áspide,
agudo como um punhal.
--Ah! disse eu. É o primeiro mosquito que chega!
E estremeci de horror.
É que se ha animal n'este mundo que me incommode, que seja incompativel
comigo, esse animal é o mosquito,--o pequeno mosquito, um dos mais
sanguinarios inimigos da humanidade.
Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas
paredes estavam revestidas de uma estranha pintura,--arabescos de
sangue, o sangue da victima, o sangue d'elle, o desgraçado!
--Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu
tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, não podendo repellir a aggressão,
porque essa praga de mosquitos vem aos centos, adoptei a estrategia de
os deixar cevarem-se á vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e
inertes. Então sôa a hora da minha vingança, pego n'um sapato e atiro-me
a elles como S. Thiago aos mouros. Pá! pá! sapatada para a direita,
sapatada para a esquerda, aqui se esborracha um, ali se estampa outro, a
parede salpicada de sangue parece um crivo, um mappa, e é assim que eu,
durante um mez, tenho conseguido ornamentar o meu quarto com esta
estranha decoração, arabescos de sangue roubado ás minhas proprias
veias. O que está ali na parede sou eu, depois de ter atravessado pelo
interior de um mosquito. Centenas d'elles me teem sugado, com o meu
sangue teem vitalisado os seus orgãos sonoros, porque cada mosquito traz
ás costas uma fanfarra estrondosa, que nos ensurdece com o tinido dos
seus metaes. Tenho n'aquella parede o meu sangue, e tenho no meu corpo a
minha anemia: o traço de união entre aquillo, que é a parede, e
isto, que sou eu, é o mosquito.
Ha banhista que prefere dormir na praia, sobre um banco de pau, ou mesmo
sobre a areia, a dormir em casa sob a tyrannia dos mosquitos.
Um sujeito encontrei eu já, que, accordando de madrugada meio devorado
pelos mosquitos, sahiu para o meio da rua,--com o resto do corpo que
elles lhe tinham deixado de fartos.
Logo que amanheceu e a primeira tenda da praia se abriu, elle correu a
escrever sobre o balcão a seguinte carta ao senhorio, que era um dos
pescadores mais ricos da terra:
«Illmo. sr. José Peixeiro:--Sendo v. s.ª um dos homens mais
considerados d'esta localidade, regedor de facto e barão em perspectiva,
muito me admira que commettesse a burla de arrendar a sua casa a duas
familias ao mesmo tempo. Quando me entregou a chave da porta, fez-me
suppôr que não havia lá dentro mais inquilinos. Com effeito, assim me
quiz parecer quando entrei, porque a unica pessoa, e essa inoffensiva,
que encontrei, foi o cavalleiro D. Fuas Roupinho a pique de despenhar-se
do rochedo da Nazareth. É realmente um quadro muito bonito, que, longe
de me incommodar, me deleitaria. Aposentei a minha familia, a minha
mulher e os meus filhos, e eu preferi para meu uso o quarto onde se acha
o quadro do _Milagre da Nazareth_, porque sou amador, e falla-se mesmo
em mim para inspector da Academia de Bellas Artes. Deitamo-nos. Eis
senão quando, outra familia de inquilinos surge como por encantamento.
Primeiro appareceu o pae, depois a mãe, depois os meninos, depois as
meninas, depois os meninos dos meninos, depois as meninas das meninas,
depois os bisnetos, depois os tresnetos, depois os tetranetos, uma
alluvião de individuos, uma phalange, um exercito e, sem respeito nenhum
pelo nosso somno, começaram a conversar em voz alta, o pae com a mãe, os
manos com as manas, os tios com os sobrinhos, os primos com as primas.
Calei-me a vêr no que aquillo parava. Mas não parou. Depois toda essa
magna caterva teve vontade de ceiar, foi á dispensa, foi á cosinha, e
como não encontrasse nada para comer, resolveu comer a minha familia
inteira. Participo-lhe, pois, que estamos comidos,--duas vezes: pelo
senhor e por elles, os outros inquilinos do meu predio. Resolvi portanto
mudar de casa para um banco da praia, que está á sua disposição, se nos
quizer dar a honra da sua visita. Quanto á sua casa, ahi lhe mando as
chaves, para que o sr. vá lá dormir esta noite com a sua familia, a fim
de verificar se as minhas informações são verdadeiras ou não.»
O sr. José Peixeiro respondeu immediatamente:
«Lá irei á noite vêr essa pouca vergonha, e se fôr como diz eu cá estou
para obrar como regedor.»
Então o pobre queixoso julgou dever prestar mais um esclarecimento
importante á digna auctoridade parochial:
«Illmo. sr. José Peixeiro.--Tenho por conveniente informal-o de que na
minha carta anterior faltou um _note bene_, que vae agora.
Os inquilinos a que me refiro são os mosquitos.