XIX

Conclusão.

Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo

foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o

colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal,

mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem

entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor

extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda

mais do que elle, e tão feliz um como outro.

A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle

caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu

tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam

objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam,

porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se

porventura as havia,--era tambem applauso e do melhor. Quanto ao

caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que

Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de

que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim

respondeu:

--Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca

vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me

pouco; eu quizera saber a sua.

--A minha é que é um anjo.

Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava

aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,--porque

não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs.

O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma

cousa,--aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos

anteriores.

--Se não sabe o que sou,--continuou Guiomar,--eu mesmo o direi, para

que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se

a um demonio, suppondo que é um anjo...

--Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.

--Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou

muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero

que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes

caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se

é possível encontrar tanto defeito junto.

Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve

quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a

fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.

O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do

estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que

o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor

benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se

mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou

que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas

collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações

humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia

o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as

folhas do arvoredo.

A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar

achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que

animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista;

parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do

fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó

humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a

alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma

rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria

aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar

matinal.

De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as

que eram della,--della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira

e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de

suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de

folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para

envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de

grandeza humana.

O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão

a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o

mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas,

em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella

celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam

namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella

foi encontrar o seus;--e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem

os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por

ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores

alheias.

Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe

em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia

tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve

foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora

comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não

perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis

semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus

planos.

Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,--talvez ainda mais, porque

era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas.

Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que

ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores

nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da

ingleza.

O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando

viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe

podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra

de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.

Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco

distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa

grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso

topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa

desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle.

Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão

remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de

Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver

o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos--voluptuosidade da dor,

em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os

indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e

naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não

o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe

corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que

lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.

Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada;

detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada,

escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle

concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não

pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar

dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um

remorso.

Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um

devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo

negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como

podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a

ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no

nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um

ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma

cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois,

e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro

da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos,

ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda

vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do

interior, ignora-se.

O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar

acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como

elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que

é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar

confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da

sua vontade.

--Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que,

assentado, a escutava.

--Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter

percebido que sou uma e outra cousa.

--A ambição não é defeito.

--Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la

vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em

você, que ha de ser para mim uma força nova.

--Oh! sim! exclamou Guiomar.

E com um modo gracioso continuou:

--Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?

--O lustre do meu nome, respondeu elle.

Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas

suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas

ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se

aquella luva tivesse sido feita para aquella mão.

A Mao e A Luva · 第 29 / 31 题