Conspiração.
A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca,
mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até
gracejadora; mas o abatimento de Estevão era tão mal disfarçado, que de
duas uma,--ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,--ou aquillo
era apenas um arrufo serio, que o moço não podia ou não queria esconder
de olhos extranhos. Isto é o que a baroneza pensou. O que ella concluiu
foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,--do
unico senho da sua velhice.
Jorge não percebeu a verdadeira razão porque a tia lhe dissera ser
necessário conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e
Estevão,--mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista.
A entrevista não pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli
até tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as
noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante.
A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no
rosto,--tantas vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nú.
Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh!
sobretudo de boa vontade, porque é mister havel-a, e muita, para vir
até aqui, e seguir até o fim, uma historia, como esta, em que o autor
mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns
sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa
não se animaria a fazer;--não será preciso declarar ao leitor, dizia
eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe
cravavam no peito ao nosso Estevão. Elle não podia suppol-a abatida;
mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia
nelle, isto, sim, imaginava que sería. Mas nada disso foi, e o pobre
rapaz saiu dalli mais cedo do que pensára e quizera sair.
Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria
e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os
cabellos desfeitos, os pésinhos mettidos nas chinellas de setim preto,
as mãos no regaço e os olhos vagando de objecto em objecto, como se
reproduzissem fóra as attitudes interiores do pensamento, alli não
só elle a adoraria de joelhos, mas até poderia suppor que alguma
preoccupação lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle
proprio.
Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar não tinha um
coração tão mau, que lhe não doessem as maguas de um homem que
acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as
causas daquella preoccupação, a verdade é que ella durou muito tempo.
Guiomar passou da poltrona á janella, que abriu toda, para contemplar
a noite,--o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno,
sim, eterno, leitora minha, que é a mais dasconsoladora lição que nos
poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ancias, paixões
insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e
passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda
como a morte.
Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto sequer; ella
era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração, vivia
em plena aurora. Que lhe importava,--ou quem lhe chegara a fazer
comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente
e do futuro e,--tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições
que lh'o enchiam,--tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento,
ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber;
provavelmente havia-o esquecido.
A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram
accordal-a, na fórma do costume, para o matinal passeio com a madrinha.
Guiomar sacrificava tudo á dedicação filial de que ja dera tantas
provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi
differente do dos outros dias.
Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a
uma visita. A baroneza ficou só; Jorge não a deixou ficar só por muito
tempo, porque chegou dahi a pouco.
A baroneza não perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho
interpellou-o directamente:
--Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.
Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era
tão ingenuo que corasse, nem tão apaixonado que lhe tremesse a voz.
Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu
singellamente:
--Não me atrevia a falar-lhe destas cousas...
--Porque não?--interrompeu a baroneza; são assumptos que se podem
tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de nós. É então verdade o
que me disse Mrs. Oswald?
--É.
--Amas deveras, ou...
--Deveras. Recuaria, se visse que uma alliança entre nós ficava mal ao
lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja...
--Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baroneza.
--Justamente; não pode haver melhor titulo.
--Tem ainda outro, continuou a baroneza; é uma alma angélica e pura.
Henriqueta não teve melhor coração nem mais amor aos seus. Além disso,
a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna não
fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente é de uma
belleza pouco commum...
--Rara, titia, póde dizer que é de uma belleza rara, acudiu Jorge,
e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que não era a
gravidade de costume.
--Já vês, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao
amor e á mão de um homem, como tu.
A baroneza tinha um coração ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias;
comtudo, ha occasiões em que o mais recto espirito emprega, como por
instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito
aquella união do sobrinho com a afilhada, que não confiava só do amor;
procurava interessar-lhe tambem o amor proprio.
Jorge curvou-se com affectada modestia.
--Um homem, como eu,--disse elle--vale pouco por si mesmo; o valor que
tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das
santas qualidades que a adornam...
--Só uma, Jorge, só uma qualidade santissima: é a de amal-os, a ti e
a ella. Por isso foi immenso o gôsto que senti quando Mrs. Oswald me
disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de
ver a vocês unidos e felizes, morreria contente.
--Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida.
--Julgas impossivel o casamento?
--Impossivel, não; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a
vontade della é indispensavel, tão indispensavel como duvidosa.
--Duvidosa! Estás certo disso?
Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo,
mas um pouco fóra da impassibilidade usual. A ideia do casamento
apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia
francamente lhe propuzesse alliança.
--Estás certo disso? repetiu a baroneza.
--Certo não; mas ha toda a razão para a duvida. Guiomar sabe que eu
gósto della; e comtudo não me dá o menor signal de corresponder aos
meus sentimentos.
Jorge expos longamente todas as razões que tinha para crer que a
vontade de Guiomar não correspondia á delle; referiu-lhe, com a maior
exacção e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa
prova daquillo que dizia. A baroneza não ouvia tudo com egual attenção.
Quando elle acabou:
--Guiomar será muito vexada,--disse ella--e ás vezes, e por isso mesmo,
tem essas apparencias frias. Nada impede, porém, a que venha a amar-te,
se é que ja te não ama. Ha nella certa altivez natural, que póde
explicar também essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o
amor de alguem que julgasse levantal-a até si.
--Isso, talvez...
--Mas esse sentimento, que póde ser e é honroso, não é de certo
invencivel.
Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos
labios pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De quando em
quando não ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos
voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de
Guiomar começava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe
dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras
da situação. Demais, até que ponto a baroneza conjecturava ou revelava?
Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no coração da moça.
Estas reflexões fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e
a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. Até aquelle dia havia
elle limitado toda a sua acção a alguns olhares, e raras palavras de
comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação; pareceu-lhe
chegado o ensejo de sair daquella paz armada.
Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na «saleta de trabalho,»
euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente--saleta de
conversação entremeada de _crochet._ Mrs. Oswald vinha com ella; ambas
riam alegremente de não sei que episodio visto no caminho. Jorge
erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar,--apertou-a
deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar não pareceu
afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu á madrinha as
lembranças que lhe mandavam e dispoz-se a sair.
Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na
contemplação de toda aquella nobre figura, agora mais bella que
d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliança ha muito sonhada.
Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde
se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria
pela millionesima vez a comparação da Venus e dos seus seus infalliveis
amorinhos; comparação detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de
moça, se alguma cousa pagã lhe podia ser chamada, seria antes Diana
convertida ao Evangelho.
Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe
nervo e resolução, e o quadro do casamento começou a desenhar-se-lhe no
espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez.
Até alli deixara-se elle ir á feição das aguas; agora via a necessidade
e a possibilidade de abicar á riba feliz do matrimonio.
As duvidas de Estevão não lhe saltearam o espirito; apenas chegou a
casa travou da penna, e lançou na folha branca e lustrosa de seu papel
uma confissão elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres
vezes, primeiro que a désse por prompta. Acabada a redacção final,
transcreveu aquella prosa do coração na mais nitida folha que havia em
casa,--dobrou o metteu-o na algibeira.
De noite foi á casa da tia. Achou as senhoras á volta de uma meza;
Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente
publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia
tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição
Constable, de Edimburgo.
Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas só interromper, porque a
leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella
filial tarefa. Veiu o chá, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza
deu por findo o serão, ainda que o livro estava quasi findo.
--Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.
A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou
aquella dedicação do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de
somno.
--Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o
livro commigo.
--Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.
E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até á porta do
quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge
egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito
que entender á ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois;
o certo é que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina
marcada, não com a fita que lá estava pendente, mas com um pedacinho de
papel.
O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros de
altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimensões, bem podia ser
que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade próxima.
X
A revelação.
Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu
Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples
papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava
tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A
primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.
O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la
pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui
provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até
agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente
no rosto os movimentos do coração.
--Mais um, pensou ella; este porém...
E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade
fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.
A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer
ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor.
Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas
linhas:
«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes
condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo
escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que
lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia,
que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.
«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo menos
adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a
presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar
este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a,
não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O
remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios.
«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, medroso
e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria, ao menos
conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia responder-lhe;
falo, porque uma força interior me manda falar, como trasborda o rio,
como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do
mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão que lhe peço,
ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me faz viver e
consumir.--Jorge.»
Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra
de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como
antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o
homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e
continuou o romance.
Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou
a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve
remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas
reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge.
Paixão não era,--não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo;
mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira,
via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto,
o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a
baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a?
Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes
interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de
si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados
o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.
Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o
mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde
dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor
de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que
emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes
por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via
tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem
por isso achava menos temeraria aquella confissão.
A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa
o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez
á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não
havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão
deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas
comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca
compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava
certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de
pelejar.
Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os
olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas,
mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles
o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma
sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era
pena de o não poder amar,--ou ainda melhor--era lastima de que tal
coração não fora casado a outro espirito.
Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou
também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em
que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme
e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém
não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher
flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada
disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas
na alma as lembranças da terra.
Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se
lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão
do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu
bater de manso á porta.
--Quem é? perguntou.
--Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.
A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um
vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns
segundos. Guiomar assustada perguntou:
--Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?
--Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a
senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu
quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei
que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza
deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,--pelo
que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...
--Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar
cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento
subito.
--Deveras!
--Li outra cousa, continuou a moça; li este papel.
Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou
qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.
--Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa.
--De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e
obedientes.
--Leia o nome.
Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe
apresentava.
--Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...
--Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que
costumava falar.
Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com
um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando
a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do
espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e
sentou-se perto da moça.
--Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom
mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas
naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada
mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu
mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem.
Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a
quem sou grata. Posso ter feito mal...
--Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a
senhora nada tem que ver.
Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a
sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe
sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e
atar, mas a moça seccamente a repelliu:
--Deixe, deixe...
E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois
a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se
contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs.
Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o
periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava,
rompeu emfim o silencio.
--Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor.
Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,--nem lhe peço,--o que
eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de
ordem...
Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar,
mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz;
fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres
da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum
interesse vil,--pecuniario,--a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a
absolvia,--não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise
penosa, mas também,--bom é notal-o outra vez,--porque a condição da
ingleza naquella casa era relativamente inferior.
A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente
os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo
aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer.
--A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que
o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado.
Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade
habitual. A mudança foi,--não súbita,--mas um pouco mais rapida do
que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as
impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques
de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que
revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada.
--Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas
chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante
carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu
coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos:
sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca.
--Oh! decerto!
--Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por
que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de
irmãos, nada mais.
--Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um
doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu
tenho pena!
--Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na
ingleza.
--Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o
que tenho visto, e creio que é muito.
--Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.
A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra
não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes
termos:
--Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me
fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...
Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa.
Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com
o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os
dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:
--A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a
falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente,
a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber
dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter
estimavel...
--Oh! excellente! um moço excellente!
E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um
sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a
fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que
a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste
modo:
--Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.
--O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?
A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou
anciosa a revelação,--se revelação era,--que lhe ia fazer Mrs. Oswald.
Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo
mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem
ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual:
--D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que
se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe
digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se
vier, e se viesse seria uma grande fortuna...
--Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia.
--Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que
para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.
--Como assim? disse Guiomar.
--Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu
mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A
senhora...
--Está certa disso?
--Certissima.
--Não creio, não vejo nada que...
--Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem
fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...
--Fale.
--Pois bem,--continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem
podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo
daquella casa, que toda dormia,--pois bem, eu lhe direi que por ella
mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr.
Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella
me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava
que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas
palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu seria
completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de ser a
minha campanha.»
--Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.
--Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era
impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas
a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.
Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda
olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae
toda absorvida em pensamentos intimos.
--Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente
falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle
favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa...
Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste
mundo.
--De certo, murmurou Guiomar.
Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente.
Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da
ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a
lerem na alma uma da outra.
Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser
sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o
leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que
chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices,
tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo
é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das
flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,--embora, sem
prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina.
Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa,
como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o
cavalleiro.
O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se
effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação
não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas
admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e
examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu
porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle
della, que de todo a desmascararia.
--Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que
sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz
do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e
verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...
--Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.
--Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda
naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald
deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio
faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza
se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe
dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe
recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.
E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto.
Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo,
e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da
noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os
braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe
do peito, longo, ruidoso, magoado,--o primeiro que o leitor lhe ouve
desde que a conhece--e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão
doloridas,--ia dizer tão lacrimosas,--vinham ellas:
--Oh meus sonhos! meus sonhos!
Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto
lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os
ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle
desanimo, menos ainda desespero.