Ao pé da cerca.
A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era
moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um
perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr
de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não
penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle
deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,--de
musselina branca,--finamente bordado, não deixava ver toda a graça do
talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a
creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco
á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde
o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do
mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que
rematavam em folhos de renda.
Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver
todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu
dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos
cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez
um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde
ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os
olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a
folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.
Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave,
como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della,
mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por
vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe
parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar
por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos
primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a
desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock,
a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais
aereo, transparente, ideial.
Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas,
não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa
creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas
grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto
é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse
pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça
escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu
curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.
A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo
da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim
aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração
juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,--seria
abusar dos direitos do estylo,--mas uma hora, uma hora lhe parecia, com
certeza.
A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a
mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com
outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os
olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades
de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado,
mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um
sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso,
tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro
e umas aspirações á vida elegante,--nelle a inveja era quasi um
sentimento desculpavel.
A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão,
vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que,
descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão
afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella
estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro
fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que
esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no
rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena
ou de tristeza.
Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser
visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que
lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles
grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas
pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas
de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles
communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade
tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao
mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á
intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver
collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia
mulher.
Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é
que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições
de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca
entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.
A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor
e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o
jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura
do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que
tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de
Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando
Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para
que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:
--Guiomar!
A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada
para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A
impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que
lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado
aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo
instante murmurasse em tom de súpplica:
--Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza:
apagou-se de todo.
Guiomar,--sabemos agora que era este o seu nome,--olhou séria e
quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes
minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração
palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em
demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais.
Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais
piedade que affecto, murmurou:
--Está perdoado.
Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,--apertou
não é bem dito,--em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que
podia e devia naquella situação.
E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer
nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle
tão amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o
silencio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar
de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a
mais acerba que elle podia ouvir:
--Ha dous annos que nos não vemos, creio eu?
--Ha dous annos, murmurou Estevão abafando um suspiro.
--Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome....
--Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tía...
--Não a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do collegio,
logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da
baroneza, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, allegando que eu
já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.
--De certo, assentiu Estevão.--Minha tia é que não deixou nem podia
deixar de ensinar; acabou no officio.
--Acabou?
--Morreu.
--Ah!
--Morreu ha cerca de um anno.
--Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes
de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que
aprendi..., Está admirando esta flor?
Estevão, apanhado em flagrante delicto de admiração, não da flor mas da
mão que a sustinha,--uma deliciosa mão, que devia ser por força a que
se perdeu da Venus de Milo, Estevão balbuciou:
--Com effeito, é linda!
--Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a
estas cousas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu officio.
Aquelle natural acanhamento da primeira occasião foi desapparecendo aos
poucos, e a conversa veiu a ser, não tão familiar, como outr'ora, mas
em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo,
uma differença entre os dous: elle, sem embargo do desembaraço,
sentia-se abalado e commovido; ella, porém, vencido o sobresalto do
principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave,
risonha ás vezes, mas de um risonho á flor do rosto, que não lhe
alterava a serenidade e compostura.
O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e
descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar
por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetação em
derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma
egual aurora nas almas. Estas é que deviam falar alli a sua lingua
dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida,
que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos
volontaria nos labios de Estevão.
Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza,
nem calor.
Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre
si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturaes, ainda que podiam
ser calculadas naquella situação. A Guiomar que elle conhecera e amara
era o embryão da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito;
faltava-lhe outr'ora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do
desenho.
A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo
para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a
primeira a dizer-lh'o.
--O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos
aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o
que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a
falar com un estranho neste _déshabillé_ tão pouco elegante...
--Elegantissimo, pelo contrario.
--O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu
o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu
passeio pela chacara.
--Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou
Estevão.
--É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço.
E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo:
--Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o.
Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se
respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos,
admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado,
resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a
dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo
caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.
Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que
ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém,
passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão
retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos,
cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por
cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação:
--Entro num drama ou saio de uma comedia?