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J. Marques de Carvalho
Contos do Norte
Belem do Pará
Editor--Alfredo Augusto Silva--Editor
TYPOGRAPHIA ELZEVIRIANA
1907
Obras de MARQUES de CARVALHO
IX
CONTOS DO NORTE
DO MESMO AUCTOR
O Sonho do Monarcha Opusculo
Lavas Opusculo
Paulino de Brito Opusculo
Hortencia 1 volume
O Livro de Judith 1 volume
Contos Paraenses 1 volume
Entre as nymphéas 1 volume
A Carteira d'um diplomata (1.ª serie) 1 volume
EM PREPARAÇÃO
Um livro alegre
J. Marques de Carvalho
Contos do Norte
2.ª EDIÇÃO
Belem do Pará
Editor--Alfredo Augusto Silva--Editor
TYPOGRAPHIA ELZEVIRIANA
1907
A JOSÉ MARQUES BRAGA
UMA HOMENAGEM
_Meu caro Marques Braga_,
Este livro é, na quasi totalidade, uma homenagem ao povo paraense. O
escriptor que traçou os contos seguintes não occulta o pendor do seu
espirito pela vida seminomade dos conterraneos, que tão sobriamente
vegetam no coração das florestas. Viajar sempre com elles pelos
buliçosos rios amazonicos, extendido no paneiro de popa da embarcação
indigena, abertas as velas ao sopro galerno do vivificante marajoara,
seria a realisação d'um sonho,--bello sonho de retrocesso á existencia
primitiva, se quizerem, mas de intensa consolação moral.
Quando o caboclo, armado do longo varejão por elle mesmo talhado no
matto, impelle a canôa para o leito da correnteza, fazendo-se ao largo,
não pensem que leva cuidados no espirito ou maguas no coração: a
_cidade_ é para elle um agrupamento complexo de sêres transviados, o
antro onde formigam incomprehensiveis falsificações da natureza. Elle
afasta-se contente com o cigarro ao canto da bôcca, uma jucunda
satisfacção nos recessos da alma. Partindo para o _sitio_, para a roça,
o caboclo é o triumphador das selvas, o zombador dos preconceitos,
resignado ás inclemencias dos homens,--que as da natureza são-lhe
familiares e já insensiveis talvez. E quando, ao meio do rio, desdobra
as velas á viração, inunda-se-lhe o cerebro de uma ineffavel volupia,
todo o encanto da liberdade dilue-se no seu espirito, deliciosamente
infiltrado. Bastam-lhe os horisontes alcançados com o olhar tranquillo.
O vapor avistado ao longe, o qual, repleto de passageiros, attinge-o em
poucas voltas de helice e o ultrapassa rapidamente,--pensaes acaso que o
incommoda ou lhe provoca rebelliões de impotente desespero? O caboclo
despreza esses recursos da navegação dos brancos. O que o enthusiasma é
justamente a sua canôa, onde foi creado, onde seus filhos vieram á vida
e onde á luz do sol paraense fechou os olhos á velha mulher engelhada e
querida, que o amammentara com o seu leite maternal. Esse batelzinho,
tão fragil e tão veleiro, é o enlevo das suas contemplações de
fatalista, tugurio e vehiculo, ganha-pão e leito de amores simples.
Toda a singeleza da vida, com pequenas aspirações e nenhum rancor, ali
se condensa entre as pranchas do casco e os pannos das vélas,--mortalha
e tumba, em caso de necessidade.
A canôa é o caboclo, chova ou faça sol, cantem nas ramarias da margem as
aves da floresta ou regouguem sobre o pequeno mastro as imprecações do
temporal: acolhe-os o caboclo com egual socego de alma, a mesma
indifferente resignação, que é o symptoma do mais valoroso espirito
resistente e da mais acrisolada bondade nativa.
A agua é a grande fascinadora, na Amazonia. Existirão realmente as
yaras?
Teu velho amigo,
MARQUES DE CARVALHO.
REPRESALIAS
REPRESALIAS
Não muito distante de Salinas, a dois passos do mar,--o caboclo Antonio
edificara a sua palhoça. A areia das dunas extendia-se-lhe á porta,
corria em declive para a agua, formando alaranjado estendal, da côr da
madresylva morena.
Mas a floresta, que entestava com a habitação, ensombrava todo o
recinto. Galhos seculares espalhavam-se em docel por cima do ubim do
tecto. Ali, quando o vento do largo sacudia o arvoredo, em noites de
plenílunio, o canto do sabiá tinha modulações saudosissimas, como se
fôra cantilena de creanças.
Maré cheia, poucos passos separavam a porta da cabana do logar onde a
areia sorvia o rendilhado das escumas. E do copiar do Antonio ouvia-se
então perfeitamente o embate do marulho no flanco da canôa atada ao
velho poste de acapú, que uma cruz rematava.
* * * * *
Havia muito que ali habitavam Antonio e o filho. Elles proprios tinham
construido a casa de sapé, com os recursos encontrados na matta.
D'antes, moravam em Salinas, onde o caboclo era pescador e dos mais
afreguezados.
Um drama terrivel, porém, induzira-os a deixar a localidade, procurando
no silencio e isolamento da costa despovoada o consolo de uma grande dôr
commum.
Uma tarde de temporal, a companheira de Antonio tivera a velleidade de
tomar banho no oceano. Montanhas de agua corriam do largo, urravam
furiosas ao chegar á praia, no desespero com que rebentavam na areia. O
ceu todo estava negro, acolchoado de nuvens: coriscos fuzilavam
incessantemente e a chuva, levada pela ventania, transformava-se em
nevoeiro subtil e frio.
Vizinhos, que tinham visto a mulher encaminhar-se para o mar,
perguntaram-lhe se estava louca. Ella, porém, dissera que velhos amigos
não brigam.
--E sei nadar muito bem, concluiu, senhora de si propria.
Equivocara-se. Comquanto não se afastasse senão uns quarenta ou
cincoenta metros, uma onda maior enlaçou-a fragorosa, suspendeu-a como
um argueiro, levou-a para longe. De terra viram-n'a erguida na crista da
vaga. Debatia-se valente, bracejava com energia, em direcção á praia.
Mas um grito resoou no grupo de espectadores transidos. Antonio,
palpitante de pavor, apontava para o mar. Ao longe, em direcção á
cabocla, levantara-se outra onda enorme, que vinha correndo
vertiginosamente. Comprehendeu-o a rapariga: redobrou de esforços, afim
de alcançar o littoral antes que a formidavel serrania d'agua a
envolvesse.
Esta, no entanto, corria célere, cachoeirando. E, n'um momento, alcançou
a infeliz, arrastou-a para a praia, onde rebentou n'um estrepito
medonho.
Toda a gente, que a curiosidade fizera acercar-se até á agua, tinha
fugido, gritando desesperada. Ao voltarem-se, quebrara-se a vaga. Mas a
pobre cabocla fôra cuspida na areia com violencia, jazia morta, o peito
pisado, um fio de sangue escorrendo da bocca entreaberta.
Correu Antonio a tiral-a para a terra, beijando-a com frenesi. Não podia
crer que houvesse morrido a mãe do seu filho. Quando, após instantes de
vãos esforços para a reanimar, comprehendeu afinal a terrivel desgraça,
escapou-se-lhe do peito um grito rouco de angustia e o desgraçado
desmaiou, caindo de bruços sobre o cadaver.
* * * * *
Teve o caboclo profundo sentimento. E não perdoou ao mar,--ao mar que
elle tanto amara,--a infidelidade inesperada, a incrivel e covarde
traição.
Reuniu os amigos, enterrou o cadaver no cemiterio da villa. Quando
passava o feretro na praia, ao dia seguinte, ainda o mar sacudia as
vagas alterosas, sob o ceu pardacento.
Regressando a casa, tomara Antonio a resolução de retirar-se de Salinas.
Assim fez, de facto: em menos de uma semana vendeu os poucos moveis,
entrouxou a roupa, alguns objectos necessarios á alimentação e uma
espingarda; e, embarcando na canôa com o filho, levantou ferro, içou a
vela e partiu.
Nem elle mesmo sabia para onde devera ir. Deixou-se levar pelo vento,
prolongando a costa. Ao cahir da tarde, como avistasse uma enseada,
aportou;--saltaram a terra.
Essa noite, dormiram-n'a ao ar livre. Mas o caboclo, deixando a
embarcação, fechara o punho erguido, proferindo uma ameaça ao mar.
Rompera este o pacto tacito que entre ambos existira, roubara-lhe a
companheira idolatrada. Pois ali mesmo jurava, invocando o testemunho
das estrellas e a memoria da inolvidavel ausente,--que havia de
vingar-se. Elle e o filho nada mais fariam do que investigar o
horisonte, buscando surprehender qualquer signal, pedindo soccorro, das
embarcações que naufragassem. E haviam de roubar ao mar tantas quantas
victimas podessem,--tantas vidas quantas eram as penas que lhes ralavam
o coração. Essa seria a vingança d'um marido e d'um filho inconsolaveis.
* * * * *
Annos fazia que ali moravam, na casa por elles proprios construida com
os materiaes tirados á floresta proxima. Cada noite, vinham para fóra,
extendiam-se na areia, silenciosos e pensativos, esquadrinhando o largo
com o olhar affeito á escuridão.
Desesperava-os, entretanto, a monotonia da existencia. Parece que a
sorte zombava-lhes das intenções. Jamais haviam podido realizar o
intento da primeira victoria,--o almejado triumpho, que embriagasse como
a cachaça. Calmo ordinariamente, o mar enorme tinha uma impassibilidade
irritante. Barcos de pescadores deslisavam ao longe, similhavam grandes
gaivotas brancas, esfrolando a vaga com as azas. Vapores passavam
também, ora os costeiros, ora os vastos paquetes do sul:--uma navegação
precisa, em dias determinados, quasi á mesma hora.
* * * * *
Uma noite, porém, a tempestade, que desde a tardinha ribombara ao longe,
approximou-se dominadoramente.
A cabana dos caboclos era a cada instante illuminada pelo clarão dos
relampagos, estremecia na vibração de cavernosos trovões.
A espaços, segundos após uma fulguração mais accentuada, retinia o raio,
na matta vizinha. E os dois irreconciliaveis inimigos do oceano
entreolhavam-se mudos, com uma pequena chamma de esperança rebrilhando
ao fundo das pupillas irrequietas. Seria aquella a noite reservada para
a satisfacção da primeira desforra? O coração dizia-lhes que sim.
De subito, no silencio relativo que se estabelecera entre um relampago e
um trovão, pareceu a Antonio ouvir um grito longinquo,--som quasi
imperceptivel, talvez phantasia do seu vehemente desejo.
--Não ouviste? perguntou baixinho, n'um offego.
O rapazito conservou-se calado, mas parecia prestar attenção.
--Ha de ser coruja, explicou ao cabo d'um instante.
Mas outro grito ouviu-se então, d'esta feita mais accentuado. Não havia
duvida, alguém pedia soccorro.
--É obra! exclamou Antonio.
--Parêsque sim, disse o rapaz.
E, levantando-se, correram para fóra.
* * * * *
Ahi, a chuva caía violentamente. Negro o ceu, negro o mar,--tornavam-se
a cada instante d'uma lividez violacea, com o lampejo dos relampagos.
Ondas debatiam-se em tropel, vinham quebrar-se na praia com extranha
furia. Mas os mais pavorosos estrondos eram os da insondavel floresta
virgem, sinistro consorcio do cair da agua nas ramarias, do soluço dos
galhos agitados e dos gritos indefinidos de toda a sorte de animaes
surprehendidos pela tormenta, desalojados dos poisos, atacados nas tocas
esconsas.
No primeiro momento, nada viram os dois caboclos; cegava-os
deslumbradoramente o palpitar dos relampagos. Comtudo, seus olhos
expertos breve triumpharam das trevas ululantes. E ao cabo de curta
concentração, voltados para o largo, enxergaram a pouca distancia da
linha da agua um vulto negro, que ora subia a admiraveis alturas, ora
desabava rapido ao seio de profundos valles movediços.
Novo grito, indistincto a quem não tivesse a pratica da vida maritima,
scindiu o espaço, pedindo soccorro. Não havia hesitar. Antonio,
impossibilitado de cruzar a vista com o filho, tomou-lhe um braço,
apertou-o nervosamente. Comprehendeu-o o rapaz. Era aquella a hora da
famosa represalia!
Atiraram-se os dois ao mar, despidas n'um momento as simples calças de
dril azul, sem uma indecisão. Eil-os que nadam, com extraordinarios
esforços, em direcção ao negro vulto oscillante além, á flôr das ondas
indomaveis. Guia-os uma alegria enorme,--o enthusiasmo entôa risonhos
hymnos ao fundo de suas almas singelas.
Para Antonio, esse é o momento da inebriante desforra. Vae vingar-se do
oceano! Vae vingar-se do oceano!
--Coragem, curumim! grita ao filho, sem ser ouvido.
E nadam os dois, nadam corajosos, avançando com difficuldade, mas,
apezar de tudo, avançando sempre.
* * * * *
Chegaram emfim ao ponto desejado. Era uma pequena canôa, fundeada sem
duvida antes da tormenta.
Pae e filho saltaram para dentro da embarcação, quasi inteiramente
alagada. Á pôpa, sobre o paneiro já tomado pela agua, estava um homem
extendido.
Hirto, esperou um relampago e indicou por acenos--pois falar seria
inutil esforço em meio áquelle barulho macabro dos elementos--que o
mastro, partido pelo raio, caíra sobre elle, quebrando-lhe uma perna. E
á luz de outro relampago, demonstrou a desconfiança de que a embarcação
estivesse prestes a sossobrar. Com effeito, a agua subia sempre.
Já Antonio tomara-o nos braços, colhendo-o de encontro ao coração.
Firmou-o mais á esquerda, gritou-lhe ao ouvido que não fizesse o menor
movimento e, galgando a borda, atirou-se ao mar, seguido do rapaz.
Eil-os agora que nadam jubilosa, difficultosamente para a costa. É ainda
maior, se possivel, a alegria dos caboclos. Vingaram-se do inimigo,
furtando-lhe uma prêza... Que ventura!
Não é tarde, entretanto, para o hymno definitivo do triumpho: o mar sabe
disputar-lhes a victoria, porque, emquanto a tormenta, no seu auge
agora, desencandeia pelo espaço uma estrepitosa arrogancia, o oceano
sacode o negro dorso, incha alterosas serranias e atira-os á direita e á
esquerda, como tabocas pôdres.
Antonio é valente, Antonio conhece o valor do adversario, porém não o
teme: bem maior é a gloria, n'essas condições de desegualdade de forças.
Está fatigadissimo, que não é pequena façanha affrontar a furia das
ondas, em occasião de temporal, trazendo nos braços um corpo humano. Mas
a memoria da saudosa companheira perdida em identica situação é um
consolo e uma animação. Essa bemdita memoria faz o milagre de o alentar
mais efficazmente do que um bom trago de canna. E o forte caboclo, sem
saber ao certo a que distancia da praia se encontra, sente-se de repente
atirado sobre a areia, abraçado ao seu protegido.
Já está de pé, illeso. Fulge-lhe no peito illimitado contentamento. Sem
olhar para traz, abaixa-se, toma nos braços a prêza roubada ao mar e
parte a correr para a cabana, murmurando na ancia de precipitados
offegos:
--Ven... ci, ca... na... lha!
Porém a lucta foi renhida e longa; mal atirou á sua propria rêde o corpo
desmaiado do naufrago, caiu por terra, sem sentidos.
* * * * *
Voltando a si, ao amanhecer, Antonio levantou-se estremunhado. Após um
esforço mental,--no primeiro instante de nada se recordara,--lembrou-se
da lucta com o oceano e da sua victoriosa consequencia, a salvação de um
homem. Este ahi estava, extendido na rêde, dormindo. Ouvia-o resonar
compassadamente. Seu filho teria velado por ambos...
O caboclo percorreu com a vista o pequeno aposento, mais illuminado pelo
indeciso alvor do que pela tenue luz da candeia de andiroba,
bruxoleante. Onde estaria o pequeno? foi a interrogação que fez a si
proprio. Havia de ter saido... Prestou attento ouvido aos murmurios do
exterior. Uma grande calma devera ter substituido o impeto desordenado
da tormenta, porque o mar tinha agora ondulações regularissimas,
denunciadas pelo prolongado arrastar das vagasinhas preguiçosas. A
floresta jazia entorpecida, sem um silvo de passaro, como reconcentrada
na volupia do grande banho da noite.
Demorados minutos quedou-se assim aquelle homem, immovel no solo, junto
á rêde do desconhecido. Sua attenção, affeita á vida na costa, seguia,
pelos arruidos que atravessavam as paredes da cabana, o vae-vem da onda
socegada. Ao cabo de longo tempo de applicação, tornou a lembrar-se do
filho, que não voltara. Teria ido arriscar um tiro por perto, no
matto?...
Ergueu-se então Antonio, foi espreitar o rosto do naufrago, que dormia
sempre, mergulhado n'um grande somno febril, com a perna
assustadoramente inchada.
Quando levantava a cabeça, Antonio fixou o olhar n'um ponto da parede e
teve um calafrio: pendente de um prego, estava a espingarda e este facto
arredava a hypothese de ter ido o pequeno á caça. Mas então, por onde
andava elle?
Terrivel suspeita ergueu-se-lhe ao fundo do espirito, confrangendo-lhe o
coração. Se tivesse morrido?... Era impossivel! O rapaz ia voltar, com
certeza. Entretanto, não ficou tranquillo, embora tratasse de
distrair-se, preparando um cigarro e apagando a candeia. Lá estava um
pezar desassocegado, agachado no recondito do coração.
Veiu apressado para fóra. Seus olhos percorreram a praia, n'um relance:
tudo deserto. Nas dunas mais proximas da floresta, a vegetação rasteira
havia sido lavada e sorria na brandura do seu verde tenro. Á beira do
matto, as grandes arvores retorciam immoveis os sombrios musculos
nodosos, todos embebidos d'agua. E no firmamento esfumado, poucas nuvens
se destacavam, tingindo-se de côr de rosa.
Voltou-se Antonio para o mar. As aguas tinham um espreguiçamento suave.
Do barco que naufragara á vespera nada mais se via: ou fôra a pique, ou
o temporal o arrastara a qualquer ponto longinquo da costa.
Signal do rapaz absolutamente não havia. Na areia, banhada pela chuva
até mui tarde, tinham-se desfeito as pegadas de Antonio, recolhendo com
o naufrago. Mas então, se o filho tivesse dormido na cabana e só pela
manhã saísse, o chão pisado de fresco havia de indicar a direcção por
elle tomada. E a verificação de que o solo estava todo liso, por egual,
foi concludente para o caboclo.
Duas lágrymas, ardentes quaes malaguetas, queimaram-lhe as palpebras e
um soluço estrangulou-lhe na garganta a emissão de um improperio feroz.
Ainda appellando para uma esperança fortuita, deitou o infeliz a correr
ás tontas de um a outro lado, chamando o filho em grandes gritos.
Respondiam-lhe os echos da floresta, demoradamente. E o oceano, sem
perturbar-se, arrastava as ondas languidas, que formavam rendas
espumosas, sobre a finissima areia da côr da madresylva morena.
A subitas, estarreceu o caboclo. Além, junto á linha da agua, muito
distante do sitio onde se achava, lobrigaram seus olhos de pae um vulto
extranho e logo o coração bradou-lhe que era o cadaver do curumim.
Antonio poz-se a correr--a voar--para o sitio a que o presentimento o
compellia.
* * * * *
Não é um pezar o que leva esse homem no coração: é um mundo de
angustias, um turbilhão de agonias. Ensopada, a areia facilita-lhe a
carreira, pela resistencia que lhe offerece aos pés descalços. E cada
pegada, um instante calcada no solo, fórma, bem depressa, uma pequena
poça que reflecte na sua superficie, sobrepondo-os, o verde claro da
vegetação das dunas e o rosado suavissimo das nuvens, tocadas de sol.
Uma distancia insignificante separa-o já do vulto que tão lugubremente o
attrae. E o desgraçado reconhece logo o cadaver do filho.
Mais alguns passos vacillantes e Antonio cae a soluçar sobre o corpo da
creança afogada. E o seu pranto, as lamentações que profere, têm menos a
expressão de um desespero, do que da confissão da propria impotencia, na
lucta inutil de represalias que havia travado com o oceano.
UM EXGOTTADO
UM EXGOTTADO
O pobre Heitor foi levado á sepultura n'uma triste e chuvosa manhã de
abril. Como não tivesse bens que deixassem aberta a possibilidade de um
galanteio posthumo, nas folhas d'um testamento, acompanhou-o até Santa
Isabel apenas o bom compadre Fernandes, o inestimavel enfermeiro nos
poucos e longos dias de soffrimento.
O largo circulo de seus amigos eximiu-se do incommodo da viagem a bond,
desculpando-se com o mau tempo, quando, mais tarde, um ou outro
defrontava com o paciente Fernandes.
* * * * *
Não obstante, aquelle infeliz fôra, na vida, um moirejador notavel. Toda
a cidade conhecia-lhe o nome. Fizera-o á custa de muitos annos de
improbo trabalho, n'uma repartição movimentada e importante. Quando
fechava o serviço official, não era para casa que ia o Heitor: tomava o
caminho do diario onde collaborava e que lhe devia grande parte de seus
melhores exitos.
Quantas noites não passou elle em claro, n'uma superexcitação agridoce,
obsidiado pela idéa d'um artigo sensacional, enthusiasmado por uma nova
secção, enervado na improficua procura d'um termo proprio, d'um vocabulo
justo, que exacta e completamente interpretasse o seu pensamento!
Mas era mais do que um jornalista, o Heitor: era um litterato de
vocação. Seu anhelo mais vehemente consistia na publicação d'um livro,
novella ou contos, que fôsse a definitiva consagração do seu nome de
escriptor. Muito joven, fizera nas lettras uma estréa banal, quando
estudante. Lançara, como tantos, um manifesto politico em verso e
commettera sonetos como toda a gente os perpetra, aos 20 annos. Porém
depressa lhe disse o bom senso não serem os versos o seu forte e Heitor
dedicou-se á prosa. Tivera, ao principio, um estylo guindado, quasi
gongorico: influencia de Camillo Castello Branco, que o impressionara
violentamente. Fez-se pesquizador de vocabulos raros e tentou remoçar,
com honras de neologismos, termos venerandamente archaicos. Seu
criterio, entretanto, aconselhou-o com brandura a emancipar-se de
alheias influencias, a mostrar-se nú ao publico, sem artificios de
linguagem. Foi-lhe salutar a propria observação: a fórma tornou-se mais
simples, a expressão mais singela, a idéa mais clara.
Succedia que voltava alta noite do trabalho, fatigadissimo, os olhos
avermelhados, o cerebro ôco e pesado; e, na vehemencia de seu amor ás
lettras, assim mesmo sentava-se á mesa, a rabiscar tiras consecutivas, a
esmo, com desespero.
Davam-se, então, alternadamente, grandes, desencontradas luctas
n'aquelle espirito. Vinham-lhe ás vezes, á lembrança do exito de um
livro novo, reviviscentes enthusiasmos. O clangoroso clarim da emulação
retinia-lhe aos ouvidos, animadoramente. Sentia-se Heitor capaz de
grandes commettimentos, fazia projectos e planos de romances,--uma
edição de luxo, á Guillaume, com gravuras artisticas, executadas em
Paris.
Era um dos seus sonhos mais persistentes um livro amazonico, todo cheio
de vinhetas com paizagens nossas, que interpretassem, nas linhas do
desenho, as perspectivas que o texto havia de pintar ainda mais
eloquentemente do que o lapis. Á idéa d'essas illustrações, seu espirito
alcandorava-se em grandes esperanças. Todo o corpo vibrava-lhe de emoção
artistica, pregosando os applausos incondicionaes de seus conterraneos.
E projectava d'uma assentada dois romances e tres ou quatro contos.
Preparava-se para escrever, limpava a penna, dispunha meticulosamente o
papel deante de si e... fitava o tecto, á espreita da primeira palavra,
como se tivesse de agarral-a de surpresa; mas a phrase tornava-se
arredia, occultava-se n'um borborinho de pensamentos e o tempo fugia, na
desanimada esterilidade de Heitor.
Chegavam-lhe depois á memoria as ruidosas ovações feitas a outros
escriptores, a acceitação de seus livros, a popularidade de seus nomes
em todo o paiz. Tentava, n'um esforço de energia, vencer a
improductividade, forçar a idéa; tornava a molhar a penna, endireitava o
papel: tudo era inutil. Estava escripto que nada poderia fazer.
Deitava-se então, n'um desanimo, soprava a luz; ficava na escuridão da
sua soledade, os olhos escancarados, com um offego de raiva a seccar-lhe
a guela. Era justamente isso a sua arrelia. Uma vez deitado, tinha, logo
depois, a intelligencia lucidissima: organisava as idéas, formulava
phrases mentalmente, alinhava periodos inteiros. E, n'uma crispação,
conhecia--presentia--que, se escrevesse assim, teria garantido o agrado
publico, que é o vestibulo da immortalidade para o escriptor. Saltava ás
pressas para o chão, accendia a vela, atirava-se á mesa:--mas o
encantamento quebrava-se, permanecendo ali apenas o homem de lettras
impotente, o jornalista exgottado, o funccionario embrutecido, que
longas horas de trabalho material impossibilitaram para as lucubrações
artisticas. Vinham-lhe então vibrantes assomos de tremulas
desesperações. Infeliz Heitor!
* * * * *
Uma feita, lembrou-se de buscar na historia antiga assumpto para uma
novella. Naturalmente, o clarão deslumbrante da Grecia chamava-lhe a
intelligente attenção e Heitor deliberou logo que a vida hellenica da
éra premessianica seria a preferida da sua penna. Sem grande esforço,
presentiu que série de quadros impressionadores poderiam inspirar-lhe os
requintes d'aquella civilisação assombrosa, mesmo em suas desabridas
paixões carnaes, em seus vicios triumphantes. E que bellas perspectivas
havia de esboçar, na phrase curta e incisiva a que insensivelmente
affeiçoara-se-lhe o estylo!
Assumptos não lhe faltavam. Toda a serie de lendarias hetairas,--Thais,
Sapho, Aspasia,--prestar-lhe-ia ensejo para admiraveis paginas. E
sonhava então fazer obra nova, fazer obra sua, propriamente do seu
cerebro. Queria divorciar-se de intenções preconcebidas, seguir trilha
não arroteada ainda. Sua novella seria em todos os sentidos
original,--que não fôssem imputar-lhe a pecha de imitador dos Flauberts,
dos Anatoles France, dos Pierres Loüys.
Excellentemente educado, encontrara Heitor em consecutivas viagens
optima occasião para illustrar-se. Seu espirito, em assumptos d'arte,
possuia um admiravel senso esthetico, que a contemplação dos grandes
trabalhos geniaes de todas as epochas havia creado e corrigido. Sonhara,
de prompto, fazer illustrar o seu volume com silhuetas de Carlos Aguiar,
paizagens de De Angelis e deliciosos molhos de flôres de Julieta França.
Havia de enchel-o de illuminuras, deliciosamente. Seria um livro
amoroso, toda a nudez do amor hellenico trescalando vivida volupia no
texto e fulgurando em vinhetas, n'uma exuberancia de corpos juvenis,
como harmonioso hymno á Forma immortal. E todas estas idéas vinham-lhe
ao cerebro sem baixa concupiscencia, antes por enthusiasmo artistico,
elevado e regenerador.
Entretanto, nada fazia. Quedava-se horas inteiras sentado á secretária,
já pensativo, já distraido, rabiscando palavras ermas de senso, ao
acaso. E que não havia modo de surprehender a idéa matriz, fundil-a na
primeira phrase, definitiva e triumphal. Todos os periodos pareciam-lhe
inserviveis, sem nervos. Tocava-os com a vista, sopesava-os com o
espirito: eram expressões molles como enguias, que escorregavam-lhe dos
sentidos e caíam n'uma laxidão para o olvido, seguidas da saudade
dolorosa d'aquelle impotente sonhador.
* * * * *
Quando adoeceu, Heitor presentiu que estava tudo acabado. Ia morrer.
Subiram-lhe então as lagrymas ás palpebras, rolaram pelas faces como
pesadas, ardentes perolas em fusão: lamentava o passado, arrependia-se
de tantos annos de transigencia com a inercia. Dizia-lhe a consciencia
que era de sua culpa, se tão pequena bagagem litteraria legava á
Amazonia,--embalde o infeliz, para desculpar-se a si proprio, estivesse
no direito de invocar a absorvente tyrannia da existencia, a ingratidão
universal. E, em poucos dias, então, cobriu-se-lhe de cans a desgrenhada
cabeça scismadora.
No instante em que expirou, esboçava Heitor um meio sorriso translucido:
dir-se-ia estar a ver perpassarem ainda as frótas d'Alexandre, mar Jonio
a fóra, ao som dos instrumentos musicos de cortezãs sagradas, erectas á
prôa e á pôpa, adoravelmente nuas.
CONTO DO NATAL
CONTO DO NATAL
O velho padre Jacintho estava já abroquelado na dupla coiraça da virtude
e da edade. Não havia cara bonita de mulher nova que lhe attraisse um
olhar mais demorado, assim como não existia peccado, venial ou mortal,
cuja denuncia pudesse conturbal-o. Tinha o sacerdote ouvidos castos para
quantos delictos lhe segredavam as beatas, atravez da lamina de folha
esburacada do confissionario.
E era sempre com a mais tranquilla meiguice, toda paternal, que
monotonamente prescrevia um Padre-Nosso e uma Avè-Maria como penitencia
ás mais reincidentes peccadoras.
Trinta annos de pastoreio de ovelhas espirituaes haviam-lhe dado, com a
calma imperturbavel, o anesthesico da sensualidade.
D'entre as suas mais assiduas confessadas distinguia-se, pelo ameno
rosto e fervorosa devoção, uma joven mulatinha, filha d'um fazendeiro da
comarca de Chaves. Era um primor, a Maricota, requestada por muitas
leguas em torno, na cálida terra marajoara, onde o amor bebe roborantes
philtros aperitivos, na doce emanação das gordas pastagens restolhadas.
Ninguém mais attenta do que ella aos deveres do culto catholico e ao
cumprimento de suas obrigações domesticas: «rapariga da ponta»,
consagrava-a a opinião da comarca, pelo orgão competentissimo do
conspicuo juiz de direito.
Quando chegou dezembro, Maricota combinara com o vaqueiro Antonio, seu
namorado de infancia, que a fosse pedir em casamento no dia de Natal.
Tinha fé na data, que havia de angariar-lhe maior mésse de venturas; e
ainda em obediencia á inclinação religiosa, abalou campos a fóra, até á
residencia do clerigo, a quem confiou a tarefa de formular perante seus
progenitores o pedido sacramental em nome do rapaz.
Ao tremulo pastor d'almas agradou aquella incumbencia intencional, como
lisongeira homenagem á sua dupla auctoridade de confessor e velho amigo
da familia.
Que fosse com Deus e ficasse certa de que, no dia de Natal, pela tarde,
lá estaria a representar o maganão.
* * * * *
Á porta da casa principal da fazenda, á beira-rio, em Marajó. Tarde
assoalhada pomposamente, na magnificencia vencedora do grande astro a
descambar pelo espaço translucido. Chovera uma hora antes e o céu, azul
e brunido, estava ermo de nuvens. Dos campos infinitos, muito verdes ao
perto, gradativamente azulados á medida que a vista buscava o horizonte,
subiam olores adocicados, o bom cheiro dos fortes pastos ensopados
d'agua. E do lado dos estabulos, era um retintim jovial de cavaquinhos e
violas, o ardente sapateio das danças campesinas.
Toda a familia da Maricota, sentada no copiar em derredor da secular
mangueira frondosa da esquerda, palestrava contente, ouvindo as boas
chalaças inoffensivas do sacerdote.
Os dois noivos--noivos desde meia hora antes--conversavam a alguns
passos de distancia do grupo principal. Para o vaqueiro, esse instante
era o mais feliz da vida. Pulava-lhe o coração desencontrado no peito
arfante, rebrilhavam-lhe as pupillas, que reflectiam a imagem, sempre
meiga e adorada, da sua querida Maricota. Parecia-lhe que a voz da
rapariga, n'esse primeiro colloquio já realizado com o assenso da
familia, e por isso dotado de um sabor novo, possuia inflexões
desconhecidas, entonações extranhas, um avelludado espesso como o
refresco do assahy.
Á moça, entretanto, como que um pensamento fixo a preoccupava. Duas
vezes já, deixara sem resposta, ou respondera demoradamente, a uma
apaixonada interrogação do noivo, ternamente segredada em tremulo
balbucio de emoção.
Notou-o o velho padre, ao observal-os de longe. Erguendo a voz,
perguntou-lhe n'um sorriso:
--Que tens, filha? Em que pensas?
E a Maricota, levantando-se de ao pé do noivo, acercou-se da familia e:
--Penso, explicou, que por ser hoje dia de Natal, o sr. padre bem
poderia obter para mim a graça de ficar sempre «virgem antes do parto,
no parto e depois do parto»...
E voltando-se para o vaqueiro, a sorrir--innocente ou maliciosa? ninguem
poderia reconhecel-o, no meio da estupefacção geral,--accrescentou:
--Não deves zangar-te com isso; Jesus foi filho de Deus, e São José não
deu o cavaco!
A NETA DA CABOCLA DE OURÉM
A NETA DA CABOCLA DE OURÉM
D'entre as raparigas que, ha dois annos, se divertiam nos agapes
venusinos de Belém, distinguia-se, pela seductora graça de toda a sua
pessôa, uma joven cabocla, de feições correctas e penetrantes, de
irressistivel olhar, todo malicia e promessas de prazer. Chamavam-lhe os
intimos--a Paquinha, pelo apimentado dos saracoteios, nas danças
nacionaes.
Esta personagem viera para Belém alguns mezes antes. Seu passado, bem
poucos o conheciam; sabia-se vagamente que, nascida em Ourém, fôra
creada pela avó, humilde tapuia cujo nome a chronica desdenhara
registrar. Morrera-lhe a mãe ás poucas horas do puerperio difficil. Até
á adolescencia, a vida tinha deslisado sem peripecias notaveis, na
insipidez lacustre do logarejo. Um dia, porém, suas graças fascinaram o
escrivão de um dos vapores da linha:--deixou-se a rapariga raptar, em
triste madrugada de chuva. O seductor, passado o primeiro enlêvo, na
capital, diminuiu os mantimentos na dispensa; mas, a pretexto de ciumes,
entrou de espancal-a com vigor. Por um momento, resignou-se a neta da
cabocla de Ourém; todavia, foi curta a passiva submissão. Lembrou-se dos
mimos perdidos, no carinhoso lar da avó e fugiu da casa do embarcadiço,
disposta a voltar para junto da velhinha.
Na rua, teve a impressão de achar-se n'um labyrintho: era a primeira vez
que sahia, em tamanho povoado; a casaria chegou a fazer-lhe medo, perdeu
o geito de andar: lagrymas fluiram-lhe dos grandes olhos negros,
desconsoladamente. Ao quebrar uma esquina, esbarrou em apressado
transeunte, pediu-lhe orientação para o caminho do porto. Acolhida com
sympathia, contou-lhe a sua curta historia; n'aquella noite, jantou bem,
bebeu champagne pela vez primeira--e resolveu ficar na cidade.
O convivio com este novo amante durou apenas uma semana: pobres ambos,
que tinham a lucrar na associação de duas miserias? Mudou-se para um
hotel.
Em poucos dias, tornou-se conhecidissima. A ingenuidade natural dos seus
modos, a lhaneza dos ademanes, a propria incorrecção com que se
expressava, constituiam outros tantos aperitivos da concupiscencia de
seus protectores. Conquistar-lhe as preferencias, um bom sorriso, ao
menos, era afan em que se empenhavam dois terços da população viril de
Belém. Tenham paciencia os dissimulados paes de familia; aqui lhes
delato a fraqueza: muitos dos que me lêm, andaram com o espirito captivo
de extranha preoccupação, por causa da heroina d'este conto. E não
poucos commendadores, dos mais adiposos e conspicuos, tiveram noitadas
de insomnia, flatulencias insidiosas,--ruminando a reluctancia da moça
em acceitar-lhes as tentadoras propostas. Paquinha comprazia-se menos em
viciosas intimidades do que no revoluteio das valsas; e a inebriante
effervescencia de uma taça de champagne, em jucundo banquete,
offerecia-lhe maior attracção do que as promessas de installações do
luxo, que por experiencia sabia dever serem sempre ephemeras, tão
fugidio é o capricho dos homens.
Por causa d'esta anomalia, tinha frequentes discussões com as amigas,
pessoas praticas, absolutamente divorciadas do seu modo de encarar a
vida. Choviam-lhe nos ouvidos os mais ponderaveis conselhos:--que não
fôsse tola em desprezar com leviandade os ensejos de fazer-se
independente, para preferir adoradores adventicios, optimos rapazes, é
certo, porém cujos recursos não poderiam bastar ás exigencias do seu
trato. Encolhia a hetaira os bellos, roliços hombros morenos. Ella era
assim mesmo: fôssem lá contrafazer-lhe a natureza! E novas razões
brotavam ainda á flôr dos labios das solicitas conselheiras e já ella,
gingando, a pensar no baile proximo, cantarolava uma copla de modinha,
na suprema lascivia de sua juvenil formosura.
Tal era a neta da cabocla de Ourém.
* * * * *
Similhante despreoccupação, entretanto, devia de achar um termo.
Paquinha, um dia, amou. Despertando, manhã alta, no amplo, macio leito
do seu excellente _chálet_, á estrada São Jeronymo, foi com uma pontinha
de descontentamento que verificou a ausencia de Julio, o seu companheiro
da vespera. Porque, esse dissabor, se o mancebo ficara de partir pela
madrugada, sem a accordar? Nem ella propria, ao principio, soube definir
bem o traiçoeiro mal-estar; e apenas quando lhe notou a insidia, foi que
desconfiou do novo sentimento, esboçado por uma saudade melancholica.
Ergueu-se contrariada, de mau humor. Nem mesmo o banho, saturado d'ervas
cheirosas, conseguiu tranquillizar-lhe os nervos. Almoçou pouco e, em
toda a tarde, conservou-se reclusa, auscultando a alma. De um natural
ingenuo, admirava-se da surpresa d'aquelle affecto incipiente. Discutiu
probabilidades de outras causas,--ainda inclinada a não attribuir a uma
origem passional a sua preoccupação. Mas atraz de quantos argumentos a
volição lhe inspirasse, via sempre o perfil do mancebo que a
impressionara,--sorridente perfil, cujo maior encanto residia, certo,
n'um ar de meiguice e ternura, que não estava acostumada a ver no rosto,
simplesmente luxurioso, de seus habituaes convivas. Sentiu como se no
palacio dos seus sonhos se houvesse rasgado uma grande janella, toda
ornada de flôres odoriferas. Por lá entrava a luz, a bemdita luz de um
sol de felicidade; e entravam tambem auras bemfazejas, varrendo-lhe o
intimo do coração. Á rapariga, então, acudiam aspirações novas, uma
ancia, até ali desconhecida, empós do idéal,--tudo mal definido ainda,
porém já pregosado com intima volupia. Como era bom aquillo, apezar de
dar-lhe um todo-nada de incomprehensivel soffrimento moral! Seria isso o
amor?
Quando anoiteceu, tornou ao banheiro, para a copiosa ablução vesperal.
Jorrando na larga piscina de marmore, a agua cantava branda melopéa, que
fazia pensar nas yaras. Frascos de vinagres caros aromatizavam de
essencias o ar humido. E o amplo espelho do fundo,--a um canto do qual
De Angelis, o pintor sacro-mundano, traçara, com o seu pincel malicioso,
uma adoravel nudez de caboclinha com feições de archanjo,--expandia a
polida superficie, como n'um enorme bocejo de impaciencia, á espera
d'ess'outra nudez animada, que estava para vir confiar-lhe as suas mais
capitosas intimidades.
Despiu-se Paquinha, qual um automato. As mãos, errantes, desabotoavam e
deslaçavam, sem segurança; o espirito, alheado, vagava longe,
contornando de osculos mentaes a imagem ausente de Julio. Só a sensação
da agua fria trouxe Paquinha á realidade. Com certeza, amava ao rapaz.
E, alfim convencida, disposta tambem a conquistal-o, entregou-se, com
redobrada attenção, ao preparo de todos os artificios da galanteria
feminil. O espelho, deante do qual, ao sahir do banho, patenteou o corpo
inteiro, n'um brando arrepio mádido, mostrava-lhe com fidelidade os
requintes da mais triumphante belleza. Pois era preciso realçar taes
dotes, empregal-os com arte, com uma ascendencia discreta, para a
realização da conquista projectada. E, n'um derradeiro olhar,
satisfeito, ás proprias fórmas,--olhar encerrando beijos,--Paquinha teve
a convicção da victoria próxima.
Em pouco tempo, quanta mudança n'essa mulher, já tão diversa da
primitiva neta da cabocla de Ourém!
* * * * *
A seducção começou n'aquella mesma noite, no baile da Rapioca. Ao magote
de mancebos que affluira á porta da sala, a solicitar valsas e polkas,
respondeu ella, sorrindo, estar já compromettida «para todas as danças».
E logo, com uma leve anciedade, os negros olhos tentadores de Paquinha
perscrutaram o aposento, procurando Julio.
Lá não estava o rapaz. Se tinha vindo? perguntou a um janota. Ante a
resposta negativa, pulou-lhe um sobresalto no coração, como se algo lhe
faltasse de subito na integridade da existencia moral.
Tornou-se notada a preocupação da rapariga, doidivanas proclamada em
todos os festivaes de Cythera. Não houve galanterio de admiradores que a
distrahisse da tristeza em que mergulhara. Nem os mais requebrados
maxixes conseguiram chamal-a ao salão de baile. Pedidos, supplicas,
ardentes appellos ao seu primitivo enthusiasmo choreographico, tudo foi
impotente.
--Que terá hoje a Paquinha? perguntavam uns aos outros os moços,
intrigados.
--Partes! diziam as demais mulheres, com sarcasmo.
Breve, porém, houve a explicação do caso. Julio acabava de chegar; a um
chamado da tentadora tapuia, enlaçou-a n'um orgulho, e o bello par fez
irrupção na sala, rodopiando ao som de um boston.
--Ah! disse em côro quasi toda a assistencia, comprehendendo.
--Temos novidade! exclamou um velhote careca, de barba ponteaguda e
olhinhos amendoados.
--Paixão, disque! motejou uma valsista esgrouviada.
Emtanto, Julio e Paquinha deslizavam com subida elegancia, ao rythmo da
musica, falando baixo, no aconchego de intensa ventura.
Terminada a valsa, a rapariga conduziu o cavalheiro para uma janella da
ante-sala. Na altura do sobrado, que sobrepujava os predios adjacentes,
brisas suavissimas corriam sob a luz serena do luar. Uma ternura sem
limites dilatou-lhe a alma enamorada. E ali, no afastamento, ao som d'um
preludio de quadrilha, Paquinha tomou uma das mãos de Julio e segredou,
com a emoção a sacudir-lhe a voz:
--Se eu te amasse?...
Estava o moço muito longe de prever similhante pergunta. De surpresa foi
a primeira impressão. Logo, porém, sorriu--jubilo ou ironia?--e
exclamou:
--Serias a mais justa e misericordiosa creatura da terra, meu amor!
--Vamo'-nos, então, repoz a caboclinha, sempre a meia-voz, gravemente.
Descendo a escada, Paquinha levava o coração repleto de alegria. Seu
rosto, transmudado pelo contentamento, exprimia deliciosas impressões.
Era ella quem seguia adeante, agarrada á mão direita do rapaz, com um ar
de triumpho, que lhe duplicava a belleza. Julio constituia a sua
presa,--a presa da alma apaixonada. Como era bom amar e ser amada!
Quando o mancebo accordou, na manhã seguinte, poderia attestar que a
suprema delicia é privilegio da vida terrena. D'aquella noite datou uma
existencia encantadora para ambos, no poetico _chálet_. Todos os
momentos que as occupações lhe davam de folga, passava-os Julio ao lado
da amante, n'um connubio que offerecia seducções paradisiacas.
O joven par desappareceu das agglomerações, isolou-se, para melhor fruir
o arroubo de uma prolongada intimidade sem testemunhas. Viveram ambos as
mais agradaveis horas que aos mortaes é dado gosar,--na tranquillidade
do ninho perfumoso, sem ambições além do proprio amor, em mutua
adoração. Descobria cada qual que o outro possuia inestimaveis meritos
e, com uma surpresa ingenua, confessavam reciprocamente que a mais
perfeita paridade de caracteres predestinava-os para uma eterna
comprehensão bemaventurada.
Era de vel-os, unidinhos e amorosos, nas doces noitadas de paixão,
quando a innata phantasia romantica os encaminhava para a farfalhante
penumbra do caramanchel, no jardim! Jasmineiros e eloendros desabotoavam
as redolentes flôres, que choviam como bençãos do céu propicio sobre o
enlace do joven par. Maior felicidade não podera Julio exigir na terra.
O primeiro mez de tal cohabitação foi, deveras, o mais afortunado que
jamais passou a neta da cabocla de Ourém.
* * * * *
Ao começar, porém, do segundo mez, entrou o amante de ser mais demorado
nas excursões ao centro da cidade. Desculpava-se com a exigencia dos
negocios,--difficuldades imprevistas, que cumpria vencer á força de
diligencias pessoaes. Apaixonada em extremo, Paquinha acreditava n'estas
razões, tanto mais quanto Julio, sempre delicado, nenhuma differença
sensivel apresentava no modo de a tratar.
Não obstante, passageiras distracções alheavam, ás vezes, o espirito do
rapaz. Tinha, em certos momentos, um como atrazo da memoria, demoras em
responder á companheira; esforçava-se, com remorsos, com pena da
victima, por vencer a preoccupação que traiçoeiramente o empolgava,
mesmo nas horas de intimos devaneios, nos braços da caboclinha. Mau
grado a energia com que luctava por afastar de si extranhos
pensamentos,--a idéa de outrem, a lembrança d'uma creatura idealmente
loira e divinamente bella, entrevista algumas tardes antes,
apoderava-se-lhe dos sentidos, com persistencia. E em pouco tempo, a
_intrusa_ estabeleceu-lhe na mente absoluto predominio. Foi uma
obsidiação desesperadora. Quando, á força de reagir contra a capitulação
involuntaria, buscava nos amplexos da cabocla attracções que suppunha
efficazes, a contragosto entrecerrava as palpebras e affigurava-se-lhe
então que desapparecera d'ali a meiga Paquinha, já gosada e por demais
conhecida. Julgava realmente possuir entre os braços a _extrangeira_, a
outra, aquella de nome desconhecido até, porém que elle adivinhava
deliciosamente bôa para ser assim estreitada com ternura e com frenesi
amada.
O phenomeno havia de ser descoberto, mais cedo ou mais tarde. Paquinha
presentiu-o, advinhou-o mais do que o percebera. Surprehendeu-o de uma
feita que o moço, colhido por ella com os braços enlaçantes, fizera
ligeiro movimento para furtar-lhe a bôcca á pressão dos rôxos labios
sensuaes. Quê! repugnavam-lhe os beijos da amante! Retirou-se de junto
d'elle a filha do sertão, dissimulando a pungitiva surpresa. A alcôva, a
mansão aromatica e discreta onde tamanhas venturas desfructara, acolheu
por todo esse longo dia a lacrymosa hetaira.
N'um momento, desvendou-se-lhe a realidade aos olhos da alma angustiada:
era o tédio, o enfaro que vencera o companheiro estremecido! Que lhe
fizera ella, entretanto, para tornar-se-lhe menos interessante? Pois não
tinha sempre os mesmos carinhos dos primitivos tempos, a completa
dedicação que se requer entre seres ligados para a vida definitiva?
Passou em revista o seu modo de proceder, as phrases das mais pequenas
conversas, seus gestos, por insignificantes que fôssem. Com desespero,
interpellou a consciencia e esta mostrou-se tranquilla, convicta do
dever cumprido. Não atinava com a razão de tal mudança; bondosa de mais,
só a si mesma imputava a causa da molesta transição. Desnudou-se ante o
largo espelho do guarda-roupa e, examinando o proprio corpo com olhares
imparciaes, como se fôssem os de outra pessôa, encontrou-se
correctissima de fórmas, seductora de juventude e belleza. D'aquelle
corpo, que poucos haviam possuido, que encantos lhe recusara ella? Esta
interrogação avultou entre todas, sobrelevando-as. Linha d'elle não
havia que lhe não tivesse sido offertada em holocausto, aos cariciosos
contactos dos labios sussurrantes de osculos, nos immortaes momentos de
voluptuosa vesania. Todo o seu formoso sêr, tão appetitoso como um
fructo equatorial, fôra-lhe dado sem complicados pudores, no
incondicional sacrificio de immenso amor, sincero e simples. Tambem
havia-lhe sido fiel, como as mais puras mulheres, e docemente
respeitosa, e patriciamente digna, em todas as relações fóra dos ambitos
da alcova. Que mais desejava Julio?
Chorando sempre, arrependeu-se quasi de lhe não ter poupado a visão
completa da sua pessoa. Segredos supremos, se os houvesse guardado, como
avára, poderia agora descobrir-lh'os e com elles talvez conseguisse
reconquistar o imperio que previa já perdido para sempre... para
sempre...
Um desconsolo constringiu-lhe a garganta, com amargura. E o pranto, que
então verteu, foi o mais sentido com que já regara o seu infortunio a
neta da cabocla de Ourém.
* * * * *
Não eram essas as derradeiras lagrymas que Paquinha havia de chorar,
baptizando o seu desventurado amor. Tinha de resgatar com outras
provações mais pungentes a anterior volubilidade, o desprezo a que
votara as legiões de adoradores, alfim vingados por Julio.
Logo depois da fatal desillusão, quiz tentar captival-o de novo, rehaver
o primitivo dominio na alma do mancebo. Fez-se então humilde, muito
humilde, quasi servil,--requintando a meiguice dos affagos no anceio de
conservar-lhe a affeição e achando ainda ineffaveis carinhos no
inextinguivel thesoiro da sua alma attribulada. Quasi não falava,
temendo chocal-o por alguma phrase menos justa, ou de duplo sentido; mas
toda a eloquencia das doces expressões saltava-lhe dos olhos, em vivos
lampejos enamorados. Tudo inutil, ai! Esta mesma passividade, a que o
rapaz ficara indifferente ao principio, chegou depois a irrital-o; e,
d'uma feita, ao cabo de longo silencio de apaixonada contemplação da
amante, ergueu-se elle, exclamando:
--Que diabo tens tu, mulher? Pareces uma lesma! Arre!
E, tomando o chapéu, foi-se para a rua.